A morbidez natural de quem investiga

Por Caio Lima

A Vegetariana é motivo de furor instantâneo e discussões acaloradas acerca da jovem Yeonghye e seu contínuo processo derrisório ao longo de três anos, partindo do momento que decide — como deixa claro o título da obra assinada pela sul-coreana Han Kang — tornar-se vegetariana.

Falar sobre Yeonghye não é falar sobre símbolos ou metáforas que deveriam chegar a uma mensagem-fim. A Vegetariana não se trata da busca por um remetente capaz de criptografar mensagens de modo a criar pequenas ilhas de suposições que se desenrolam como teorias da conspiração: revolucionárias, porém sem muita margem prática para sustentação. Yeonghye é vítima de olhares enviesados e cooptados por impressões pessoais e falhas naturais da memória, construída de forma indireta, sendo a remetente não confiável e reativa de uma mensagem que carrega os sintomas que envolvem o tempo como o contabilizamos agora. É fácil identificar na protagonista traços daquilo que nos oprime, tolhe, ou — como preferiria Yeonghye — poda.

Para tal, assumiremos um modelo mais investigativo* de busca. Como bons detetives filosóficos que somos, faz sentido descobrir os limites entre as realidades vividas pela protagonista de A Vegetariana. Ao identificar os limites, estaremos mais próximos de saber os motivos que fizeram Yeonghye causar tanto alvoroço, furor, êxtase e alucinações. Afinal, se querer ser um vegetal é uma construção imagética que beira o modus operandi surrealista de subverter a realidade, decidir pelo vegetarianismo ou ser internada com esquizofrenia leve são ações concretas que jogam com o tempo de Yeonghye, afirmando e subtraindo, respectivamente, sua autonomia sobre suas ações e sobre seu próprio corpo. Prosseguiremos, então, com os limites identificados tentando gerar um laudo assimétrico, patafísico e ordinário da condição de Yeonghye.

*Todo o processo é, resumidamente, um perjúrio contra quaisquer trabalhos crítico e investigativo sérios, porém, valorados pela inesgotável inserção de ironia e má fé de minha nobre parte.


Limite 01 – A Síndrome do Sutiã Inocente

O processo de individualização do corpo social, cada vez mais fragmentado, não significa a busca em prol de conferir maior autonomia ao indivíduo. Pelo contrário. As relações de dependência com o meio estão ainda mais severas pela ação de processos simples, ao alcance das mãos, de arregimentação de seguidores com gostos afins; e pela facilidade em tornar verossímil quaisquer afirmações feitas a esses mesmos seguidores, criando polos de identificação mútua imediata. Portanto, descentralizar grandes massas para pequenos nichos pode não ser apenas uma questão natural de confluência de interesses em suas especificidades.

A constituição clássica do meio social como grande massa influenciável, influenciadora e una, sofre com as severas mudanças dos tempos. Porém, mesmo que abruptamente reduzido e peneirado, esse corpo social permanece como mediador do comportamento humano. Sem a exigência da presença física e com grandes distâncias cobertas pela permuta opinativa instantânea proporcionada pelas novas tecnologias, o regimento social faz-se ainda mais imersivo e absoluto. Apesar da suposta vontade inata implacável, não somos simples frutos das nossas escolhas.

Ainda assim, existe um limite entre o desejo individual e o desejo coletivo. Uma zona cinzenta e indefinível até o momento. Uma terra de ninguém que tende a ser explorada unilateralmente por forças elementares à aspereza prática coletivizada do cotidiano, da rotina, dos deveres e das obrigações para com a sociedade. Entretanto, ainda resguardamos pequenos momentos, agora cada vez menores, de manifestação das nossas próprias vontades acima de qualquer outra convenção ou alicerce social, rompendo levemente com a normatividade e degustando uma pequena e solitária vitória; um momento único de liberdade e plenitude.

Talvez esse momentum para Yeonghye, nossa investigada, numa imprecisa reconstituição cronológica dos fatos, foi justapor com sucesso a imanência da normatividade pelo seu desejo individual puro: não usar sutiã. Pode parecer muito pouco. E é realmente muito pouco! Mas é determinante para Yeonghye que seu desejo de não mais usar uma simples peça de vestuário seja, senão aceito ou compreendido, respeitado por todos à sua volta sem maiores justificativas de sua parte. É sua determinação, sua vontade e seu corpo. Isso basta para os agentes externos dos costumes, seus convivas.

Mesmo à revelia de Jeong, o marido, que é visivelmente contrário à pequena decisão e insiste para que Yeonghye use a peça em ocasiões específicas, a vontade da protagonista se faz presente no dia a dia, na rotina, incorporada ao mesmo conjunto complexo de regras da vida comum. A pequena vitória de Yeonghye avança com a vontade individual em potência pela zona cinzenta que é o limite das vontades; ou dá margem à retomada do território normalmente suplantado pelas forças que descaracterizam o indivíduo para fazê-lo presente como corpo social tão somente: Yeonghye afirma possuir alguma autonomia sobre suas ações.

Ao fenômeno vivido por Yeonghye — e não retiraremos jamais a conjuntura individual da questão, reiterando a descoberta, o ineditismo e a primazia reveladora da protagonista sobre suas próprias decisões — damos o nome de Síndrome do Sutiã Inocente. Se ela foi capaz de se ver livre do sutiã, isso a credencia a dar saltos maiores. E cada salto sempre estará acompanhado de um complexo arremedo de fatores.

Para chegarmos ao cerne da Síndrome do Sutiã Inocente alguns aspectos acerca da nossa investigada devem ser levantados. Não podemos nos dar ao luxo de perder qualquer vestígio, por mínimo que seja.  

Yeonghye é a filha do meio numa família sul-coreana conservadora e do interior, o que parece ser comum à priori. A irmã mais velha, uma peça-chave da nossa investigação, é tida como bem sucedida, bom exemplo de mulher moderna, dona do próprio negócio e do próprio nariz, além de ser casada, mãe de um garoto e sustentar a casa, literalmente; e, apesar de também ter sido alvo dos maus tratos do pai durante toda a infância e adolescência, ainda tinha o consolo de receber alguns gestos afetuosos pelos diversos cuidados inerentes à função de filha mais velha, uma espécie de “mãe reserva” da casa. O irmão mais novo não nos interessa muito, aparenta ser um reflexo do pai, mas na infância este ainda gozava das vantagens óbvias de ser homem, filho caçula e de poder descontar os maus tratos arrumando contínuas confusões na rua, extravasando a violência doméstica. A mãe, esposa exemplar à moda coreana, é submissa e reservada. O pai, bronco, fazia às vezes do clássico chefe de família, impulsivo e viril. Todos parecem ter um papel bem definido no teatro familiar, menos Yeonghye.

A família não era convidativa para Yeonghye como sede protetora e una que deveria formar por norma. A natural resignação da menina estranha que pouco falava até se tornar a mulher servil — apesar de pouco talentosa para desempenhar o papel; qualquer um que seja se comparada a irmã, aliás —, faz do comportamento complacente com o modus operandi familiar uma espécie de escudo. Ser uma figura nula pode ser considerado uma espécie de autodefesa prática, de aplicação instantânea num ambiente tão hostil.

O casamento com Jeong a tira do seio familiar, que a oferecia pouco além de imagens e exemplos servis e violentos. Logicamente, Jeong a desposa (i.e. Yeonghye) por ser essa mente opaca, sem qualquer manifestação de brilhantismo e cumprir com regularidade suas obrigações matrimoniais como a boa esposa que foi criada para ser. Jeong, em busca de elevar sua posição na empresa que trabalha não raro chega muito tarde a casa. Não obstante, nos momentos de folga de ambos Yeonghye nunca fizera questão de desfrutar viagens, passeios ou a presença do marido. Cumpria seu papel de maneira regular. Sempre esteve imersa em livros e programas televisivos. Com o casamento a vida de Yeonghye torna-se ainda mais solitária.

Repare: o casamento não é muito mais relevante que a família no corpo normativo do qual Yeonghye deveria se sentir parte; ou melhor, no corpo normativo do qual ela deveria se sentir diretamente responsável.

Como profissional, seus trabalhos como professora auxiliar de uma escola de computação gráfica e “preenchendo balões de quadrinhos” não são fixos e colaboram com algumas despesas do casal, mas nada significativo.

Deve-se atentar, portanto, que Yeonghye conhece as três principais instituições formadoras do corpo social por um viés completamente servil e derrisório. A família está marcada pela completa, sem qualquer aconchego ou acolhimento; o casamento sofre da total falta de brilho e vigor de ambos os cônjuges; e o trabalho não a dignifica, absolutamente. Tudo o que deveria dar sentido completo à vida, na verdade, passa como um conjunto de experiências perenes, sem laços significativos que não sejam meras obrigações. Porém, sua vida foi construída com base na edificação desses pilares. Yeonghye só existe como: 1- uma filha e irmã subserviente e estranha; 2- como uma esposa sem brilho e regular; 3- como uma profissional freelancer qualquer, substituível.

Pouco se sabe sobre o que se passa pela cabeça de Yeonghye além das suas ações concretas e algumas tentativas de registro um tanto desconexas, cifradas como num fluxo de consciência de uma mente bastante perturbada por fantasmas e que não temos acesso. Fantasmas esses que fazem parte da síndrome que tratamos. Quando decide por não usar sutiã mais, Yeonghye coloca em prática um dos pensamentos que parecem pairar sobre o comportamento regular, que todos estão acostumados a receber. Ela revela uma identidade própria ao quebrar um pacto social assinado desde a adolescência. Isso, de certa forma, a estabelece, gerando um tipo de conforto que pode ser facilmente confundido como alívio imediato.

Porém, o grande ato contraventor de Yeonghye não foi o de deixar de usar o sutiã, mas o de decidir dar apenas uma justificativa parcial da sua opção. Para Jeong, o marido, a fala culpa inteiramente o sutiã, “que era sufocante e que dava um aperto no peito” e nada muito mais claro. Yeonghye guarda em si o motivo de não usar mais a inocente peça.

A ação de não usar o sutiã está ligada à certeza da impossibilidade de entendimento que o verdadeiro motivo para a tomada da decisão teria entre o seu círculo social. O silêncio transgressor de Yeonghye guarda um conjunto complexo de reflexos pelo cometimento da ação. Sim, há o conforto e a confiança dados o estabelecimento da ação no cotidiano e a quebra do pacto social. Entretanto, não poder exercitar o diálogo saudável tende a elevar o teor dos motivos da pequena vitória e dos julgamentos, quase sempre silenciosos, dos círculos que frequenta.

Sem abertura, as razões que a levaram a tomar a derradeira decisão passam a ser remoídas por Yeonghye, tornando-se fantasmas ainda maiores pelo teor das memórias que guarda. Como a própria definiu num de seus fluxos: “Só confio nos meus peitos. Gosto dos meus peitos, porque com eles não posso matar nada nem ninguém. Afinal, mãos, pés, dentes e língua, qualquer coisa com apenas três centímetros, tudo pode servir de arma, é capaz de matar e machucar. Até mesmo o olhar. Os peitos, não”. O sutiã é inocente! A atitude de Yeonghye sempre foi uma ode aos peitos, um libelo pela liberdade, uma atitude de desprendimento e de revolta silenciosos.

A Síndrome do Sutiã Inocente, descoberta recentemente em Yeonghye, resulta do desequilíbrio entre as instituições e normas sociais e as vontades individuais. Sem o menor interesse e responsabilidade sobre todas as instituições normativas que não seja a de uma sobrevivência irrelevante, qualquer atitude inocente de Yeonghye está carregada de motivos muito mais profundos que os que poderíamos cogitar. Qualquer tentativa de ser autônoma, de assumir o controle, custa uma vida. Cabe aqui, logicamente, decidir pelo vegetarianismo.


Limite 02 – Eu vejo flores em você

A Síndrome do Sutiã Inocente está um passo depois da tomada parcial do controle de Yeonghye sobre suas ações. Uma liberdade mínima, apenas. Mas para quem sempre se viu espremida entre instituições que pouco lhe faziam sentido, é uma espécie de refúgio. Ter a certeza de ser inacessível, ininteligível e de não poder falar os motivos que a fizeram tomar sua decisão se transforma num problema com o tempo. Os peitos são livres agora! Razão da mais sincera admiração de Yeonghye, que precisa e busca sentir mais e mais o gosto da liberdade autônoma, conquistada. Não conseguir avançar no campo das liberdades conquistadas parece fazer com que essa única vitória lhe pareça ainda mais cara.

Não deveria ser necessário lembrar que atitudes autônomas e libertárias custam caro. Conceitos como autonomia e liberdade ganharam roupagem palatável, tecnicista e cheia de vieses, a depender do uso. Esses conceitos vitais para o estabelecimento do indivíduo como corpo pensante, senhor de si e crítico, estão, na verdade, embebidos no espetáculo do corpo social.

Ao que aparenta, toda liberdade e ação autônoma são espetaculares; mesmo as liberdades dadas por outrem que não o seu esforço em conquistá-las; mesmo as que sejam parciais e vigiadas. Vivemos num grande paradoxo existencial: a liberdade é concedida e a autonomia é limitada. Yeonghye é o nosso reverso da medalha. Seu estado defensivo de entrega condescendente à normatividade não durou o tempo de uma vida.

Vítima da romantização endêmica das vontades individuais e da necessidade de estar imersa no caos social asfixiante, ela mantém, até o último momento de que temos notícias, a vontade pétrea e consciente de renascer como planta, de se alimentar daquilo que acredita fazê-la livre dos fantasmas que carrega, de se ver liberta dos sonhos de uma realidade não adaptada.

As imagens de violência aliadas à rotina que não a seduz, pela qual não se sente responsável, criam surtos de ansiedade que beiram o desespero. Não poder romper com o círculo social do qual faz parte cria uma fenda no espaço-tempo. O processo derrisório de Yeonghye começa antes de tornar-se vegetariana. Cada vez mais solitária e presa às poucas coisas que lhe conferem certo conforto escapista, o sono torna-se frágil e a deferência ao marido ainda mais mecânica. Numa noite um sonho a aterroriza. Não sabemos a força de sonhos anteriores a esse, talvez em escala menor, mas que já a estivessem atormentando. Sabemos desse sonho e dos que vieram depois, poderosos o bastante para fazer Yeonghye jogar todas as carnes e derivados animais no lixo e posicionar-se, em definitivo, como vegetariana.

A família assim que soube, por um Jeong indignado com a nova moda da filha do meio, insistiu em fazê-la mudar de ideia. Decisões abruptas e contraculturais de uma filha e esposa tão subserviente devem assustar num primeiro momento, por mais inocentes que sejam. À época, o vegetarianismo não devia ser tão comum no mundo oriental quanto o era no ocidente; não numa família tradicional sul-coreana, ao menos. Essa informação é uma lacuna dessa investigação. Ao fim e ao cabo, Yeonghye ignora a todos e mais uma vez segue firme em sua decisão.

Aqui sua autonomia já está sob o jugo dos fantasmas que a perseguem nas imagens surrealistas dos seus sonhos. Tornar-se vegetariana é uma decisão instintiva, de desespero, mas que deveria deixa-la mais próxima de extirpar os tais sonhos que causam tanto pavor desde a primeira liberdade conquistada. A busca por libertação a consome ao invés de torná-la mais crítica, mais consciente das liberdades que pode e quer tomar para si. Há um processo de automatismo reativo aliado à recém-adquirida confiança.

A Síndrome do Sutiã Inocente cria a necessidade patológica de liberdade individual, a ponto de o desejo pela liberdade transformar a memória e a realidade aparente num conjunto de fantasmas, os quais se deve fugir a qualquer custo, tirando do indivíduo o controle pleno sobre suas ações mesmo que ainda lhe caiba o gosto da vitória primeva.

Yeonghye, ao forçar sua condição, passa a conviver com constantes sonhos porque ainda se vê oprimida, presa, escrava de uma condição, de um corpo, da própria memória. Já não dorme mais, emagrece radicalmente e está pálida. Não nutre o desejo de transar com Jeong e passa a dormir de calça jeans, o que o deixa possesso em sua virilidade. O mesmo acredita ter perdido a grande oportunidade da vida num jantar com pessoas de destaque na empresa por causa da postura transgressora e desafiadora, mesmo que silenciosa e tímida, da esposa. No almoço que deveria ser de comemoração do novo apartamento adquirido pela irmã mais velha, o pai retoma a postura agressiva de tempos idos e a agride ao tentar fazê-la comer carne à força; agressão que só termina quando Yeonghye toma a ação radical de cortar o próprio pulso.

Depois de semanas no hospital, Jeong a abandona e, agora sozinha, Yeonghye passa a viver com maior naturalidade. Acredita que os sonhos cessaram. A vida segue com ainda menos responsabilidades. As vontades estão livres no espaço de um apartamento. Porém, o sonho que a fizera resistir a ponto de preferir morrer a comer carne está fixado como a mancha mongólica que possui no meio das nádegas, como uma imagem oculta e diversa da vida como ela é.

Sonhos constantes que são um passeio por uma casa de espelhos. Transcritos como criações lancinantes e implacáveis, todos são baseados nas memórias remanescentes no inconsciente da protagonista. A Síndrome do Sutiã Inocente a empurra para ideais de liberdade e autonomia sem que ela se dê conta da não possibilidade de cumpri-los de imediato, suscitando a construção de uma nova realidade. Cada vez mais desconectada do convívio social, imagens esvanecidas com o tempo tomam novas cores. Novas imagens são continuamente criadas por cima destas.

O estado de alheamento para com a realidade é perceptível, apesar de não entendido como um todo. A família some. Ficam a irmã e o cunhado. Obcecado pela mancha mongólica, o cunhado, um artista frustrado em tempo integral e sustentado pela esposa, entra numa rota de perseguição que o leva até o limite do casamento: aproveita-se do encantamento de Yeonghye pelas pinturas corporais imaginadas por ele para justificar um vídeo artístico em que ambos teriam o corpo pintado com flores e fariam uma espécie animalesca de cópula herbácea, subvertendo poeticamente o sexo e o mundo vegetal. Yeonghye não pensa que aquele é seu cunhado, marido de sua irmã e mentora. Yeonghye não rejeita a relação sexual como houvera rejeitado com Jeong, seu ex-marido. Yeonghye não sente a responsabilidade de romper laços familiares e matrimoniais. Yeonghye usa aquele momento como a realização do desejo espontâneo, um grande momento de êxtase através das imagens que a consomem e materializa a realidade que tem continuamente criado durante algumas poucas horas. Automatismo de uma mente cada vez mais alheia ao mundo a sua volta.

A Síndrome do Sutiã Inocente acontece de maneira fulminante. Toda complexidade de construção imagética da realidade paralela que vive Yeonghye, diversa à realidade aparente, serve como um grande laboratório de sensações livres e inteiriças. Nenhum valor moral convencional sequer tangencia as tomadas de ação de Yeonghye, que se deixa levar pela excitação do momento; no caso, das pinturas corporais.   

A irmã, In-Hye, mesmo impactada por tê-los achado, Yeonghye e o marido, no estúdio e tendo os visto transar no vídeo, que ainda permanecia cru na câmera, parece entendê-la pouco tempo depois do choque. Tendo pedido a internação de ambos, a irmã move-se rapidamente na direção de Yeonghye para ajudá-la enquanto vê os pilares da própria vida ruírem. A responsabilidade e a culpa jamais a permitiram cultivar o sentimento de indiferença pela grave condição da psique de Yeonghye em seu alheamento profundo. Responsabilidade e culpa que Yeonghye jamais sentiu, aliás; nem em relação à In-Hye nem em relação ao sobrinho, o pequeno Jiu.

Diagnosticada com esquizofrenia leve, Yeonghye entra em processo de declínio físico com as imagens hostis que se agravam dia após dia no seu período de internação. A obrigação de comer, a clausura, a rotina de remédios e visitas contadas, tudo contribui para um agravamento do estado de negação da própria condição. Sua fuga é um grito desesperado que se eleva depois de ser encontrada, dias mais tarde, no meio da floresta que cerca a clínica. A partir desse momento Yeonghye se recusa a comer, a viver, a ser uma pessoa. Até sua transferência para um hospital de referência, nossa última referência, Yeonghye avança para lugares ermos, muito longínquos. Lugares que ela criou e que nem mesmo sabe por onde e como se guiar.

É capital questionar se Yeonghye teve seu laudo de esquizofrenia leve atestado apenas pelas imagens que criou de si como um vegetal livre, capaz de primeiro, alimentar-se apenas de vegetais; depois, de luz solar; e por último, de se recusar a viver para renascer plena e livre como planta. Ou se todo o diagnóstico está baseado no desprendimento contínuo das responsabilidades que jamais julgou ter, já que nunca se viu inserida nessa sociedade além do fato de ser uma mera peça deslocada, estranha e servil, alvo dos mais diversos tipos de apagamento social e violência durante, inclusive, seu processo derrisório, que vai da excitação que dá o passe livre ao cunhado até culminar no presente diagnóstico.

In-Hye assegura que se não fossem as responsabilidades de uma vida estável, ela seria uma a ter rompido com tudo. Afinal, seria ela melhor personagem para lidar com a liberdade e autonomia conquistadas que Yeonghye? Certamente não (perguntas retóricas fazem parte de qualquer investigação). In-Hye jamais chegaria perto dos limites da irmã mais nova. Explico: qualquer um que esteja tão mergulhado no caos social não conseguiria lidar com o sentimento de culpa causado pelo abandono das responsabilidades. Apenas alguém que não esteja moldado à vida normativa pode experimentar tais sensações. Isso vale para In-Hye, para mim e para você. Estamos acostumados à comodidade da liberdade vigiada e de termos limites de atuação bem estabelecidos. Necessitamos de poda constante, somos preparados para isso. As diversas violências que sofremos são rapidamente esquecidas por imagens programadas de satisfação. A ojeriza a tudo que não nos é comum é instantânea.

Vejo flores em Yeonghye. São as flores dos traumas, rubras, escarlates. As flores de quem se reconhece como uma criação baseada na servidão e na violência. Quanto mais investigo, mas próximo de Yeonghye eu gostaria de estar. Sei que não consigo, mas que meu breve discurso permaneça livre de qualquer mácula; que permaneça livre e se perca na própria síndrome que o inaugurou. Uma pequena liberdade conquistada.


Limite 03 – Violência com aspas e apraz; violência sem aspas e o rei está nu

Todos sabemos o que sucede à Yeonghye depois de tornar-se vegetariana: o processo de declínio físico aliado ao alheamento total da realidade aparente para querer tornar-se planta, numa vida paralela, renovada ou melhor, renascida; os sonhos sanguinolentos e violentos de imagens chocantes e tão dilaceradas quanto os corpos, a ojeriza repentina a tudo que estivesse relacionado à carne, inclusive o sexo.

Para travar um diagnóstico completo é preciso lembrar a violência doméstica desde a tenra infância, do marido que estupra fingindo estar bêbado por não aguentar a restrição de sexo no alto da sua virilidade, do cunhado que manipula com imagens das flores pintadas nos corpos para conseguir gravar uma transa e ter acesso à mística mancha mongólica no meio das nádegas. Também é preciso lembrar de que todo corpo morto consumido é fruto de processos industriais de abate, de violência massificada e gratuita no intuito de manter ordens mercadológicas antinaturais que beneficiam um sistema opressivo e insalubre às formas de vida no geral. É preciso lembrar, também, que o sistema, patriarcal e misógino, condiciona a tais tipos de violência, moldando a mulher de maneira a ser submissa, servil, ofuscada e a tratar toda a opressão como sendo um pouco de estranheza, talvez. E até para cuidar, para tratar da pretensa esquizofrenia leve, os métodos são amostras grátis da gélida violência hospitalar e seus procedimentos sinistros, ostensivos, mortificantes. As encaradas e zombarias em jantares às tentativas de cozinhar os antigos pratos favoritos em almoços de família: tudo! Tudo aqui constrói um quadro amplo de violência que remete à carne, à morbidez, à morte cruel!

A realidade, como a conhecemos, é uma ode à morte indiferente: fria e comum. A essa sensação, Yeonghye responde criando a própria realidade. Reativa, ela apenas manifesta o desejo de não ser mais parte do círculo constante de violência e indiferença do meio que a constituiu como persona e replica a vontade em potência num escapismo que está alicerçado no imaginário surrealista: lúdico, livre, intenso e autônomo. A Síndrome do Sutiã Inocente só pode existir se a vontade em potencial sobrepuser à vida vivida. E se vontades são maiores que a vida: o rei está morto e o indivíduo está nu; ou vice-versa.

Talvez seja possível precisar o momento exato da morte de Yeonghye.

Deve-se levar em conta que Yeonghye não morreria num momento de violência comum. É natural pensar que o ponto disruptivo em Yeonghye, que a possibilitou imergir na realidade que criou e cortar o último fio que a ligava ao mundo real, tenha sido o almoço em família para comemorar a nova casa de In-Hye, a irmã mais velha, quando corta os pulsos depois de ser agredida pelo pai, mas não, não seria lógico que ela entregasse seus ideais silenciosos àquilo que a fez fugir durante toda uma vida. Da mesma forma, ela nunca esteve tão próxima do mundo real, tão humana, quanto, ainda internada pela tentativa de suicídio, a vez que escapa do quarto do hospital e é encontrada no pátio, coberta de sangue e com um pássaro mordido nas mãos.

Yeonghye é tão livre das responsabilidades comuns, que a aproximação do gosto por sangue, violência e morte, tão humanos, torna-se um conjunto de manifestações bizarras, dignas de um horror show qualquer. Yeonghye só pode romper com a realidade aparente num momento de êxtase extremo, quando finalmente consegue se sentir um vegetal puro, quando não sente mais a própria carne.

Existe um ponto específico, um ponto muito particular, na linha temporal do triênio a que temos acesso a fim com a realização de Yeonghye e capaz de vislumbrar todo o potencial da sua vontade materializado no próprio corpo: ao voltar para casa e permanecer com as flores pintadas no corpo, logo depois da primeira tentativa frustrada de filmagem do cunhado, que à priori tentava o envolvimento de Yeonghye com um amigo como modelos. Enquanto o cunhado corre para transformar-se numa flor pelas mãos de uma antiga namorada também pintora, Yeonghye não se permite arriscar o banho com medo de perder o encanto das flores que são o seu corpo agora. Ela finalmente encarna o que sempre desejou ser. E por que não aproveitar até o último momento? Por que não apenas se permitir ser flor? Agora é possível! O corpo prova! O corpo vive! O corpo está! O corpo mutável: de carnívoro para vegetal. As fibras que o compõe são diferentes. Do sangue para a seiva. O corpo fez a própria realidade e nada mais importa. O corpo já não pertence mais ao mundo opressor, Yeonghye também não.

O despertar para a condição autoimposta da vontade. O ápice da revolta e desalinho em forma de um escapismo vertical. A confusão entre o gosto inédito das decisões libertárias e autônomas com a vontade se ver livre. A inundação do criticismo posta em prática. A pontualidade das formas que rapidamente saem de objeto de desejo para ser um intento de vida. Yeonghye convulsiona quando se vê realizada. Yeonghye vê a beleza pura de seu processo. Yeonghye vê os portões abertos para a realidade criada, alternativa a todas as outras. Só no cumprimento de tamanha façanha que Yeonghye poderia se entregar a outra vida, a vida que projeta secretamente.

As fugas instintivas de Yeonghye a lideram a condições novas, mas que não funcionam como um simples duplo da normatividade social estabelecida para que crescesse. Ser vegetal mata o ser social. O ser vegetal idealizado por Yeonghye é perfeito. Existir é a única responsabilidade. A naturalidade da vida é a única condição a cumprir, sem demais ordenações que não sejam as necessidades naturais de habitar a Terra como planta. A subversão dos estamentos e normas sociais não busca nova ordem, nova maneira de ver a vida em sociedade, em conjunto com a natureza. Há um paralelismo evidente entre a ideia de Thoreau, com o clássico Walden, por exemplo. A ideia alimentada para sair da gradação social é ser parte da natureza como vegetal. Não existe sistema, revolução, ideal ou movimento contracultural que não seja a vida. Não existe forma saudável de apropriação humana na pirâmide da cadeia alimentar. A fauna já não serve a Yeonghye, então o desejo autômato da vida fixa e autossustentável aflora. A vida em degradê natural, sem surpresas, alimentada pelo sol e pela terra. A mesma estabilidade que a perseguiu como parte insignificante da sociedade, mas sem movimentos, sem naturalização da manutenção da sua posição pela transmissão da violência endêmica, pela naturalização da indiferença comum. Ser exige plenitude, e ela não virá enquanto forma humana. As flores pintadas determinam a morte do humano constituído em Yeonghye.

A Síndrome do Sutiã Inocente, em estágio avançado, assume o poder da criação imagética. A constituição corpórea do ideal. A tentativa de reprodução da realidade criada transferida para a realidade aparente. O conflito direto entre as vontades autônoma e social. Yeonghye luta bravamente, mesmo debilitada, para manter-se vegetal. O resto da história é a tentativa mórbida de mantê-la entre nós. Espero que não mais esteja.


Interlúdio

A verdade é que não fazemos ideia de quem é Yeonghye. Outra lacuna da investigação, aliás; mais grave que não saber a fundo o impacto do vegetarianismo numa família sul-coreana tradicional, creio. Nunca a vimos. Nunca a veremos. O que torna todo o caudaloso processo de investigação uma possível fraude. Eu sou uma fraude também. Não que eu esteja mentindo e subvertendo os fatos à moda caralho para satisfazer as teorias que me vieram à mente ao longo de um processo de leitura intenso… e pesquisa posterior superficial, admito. É só que… não é só, mas é difícil tangenciar uma pessoa e tentar dar contornos a ela. Assemelha-se à construção de uma relação virtual, pelos apps e redes sociais e a parafernália toda. Achar que é e acabar não sendo. Mais complicado ainda é tentar montá-la como um todo, com traços próprios, inconfundíveis, quando só a perseguimos através de reproduções. Tudo o que tivemos em mãos até o momento não passa de relatos, alguns mais apaixonados que outros. Três ao todo, o que torna todo o processo curto demais. Só a experiência pode ser densa o suficiente. A do investigador do caso. E isso assusta! Porque eu não posso me ater a “relatos” para produzir um material investigativo confiável… ou posso? Não, definitivamente! Nem para estabelecer uma síndrome! Nada se sustenta, dá base, alicerça tudo aquilo quanto pensei que não sejam relatos cheios de vieses. Mas cá estamos nós, fixados em pontos comuns do pensamento cooptado de três pessoas para construir a imagem de Yeonghye. Talvez ela nem exista e tudo não passe de ficção. Que tudo não passe de ficção, então! Eu consigo lidar com isso e, ainda assim, manter a firmeza à ideia de que a Síndrome do Sutiã Inocente é, sim, algo relevante para o estudo da psique humana. Ou será, assim que essa investigação for entregue, claro. Tudo depende da circulação desta peça, das relações travadas com outras mentes brilhantes da psicanálise intuitiva por intermédio da síndrome. Acredito que recriá-la (i.e. Yeonghye) desta forma, por caminhos tão sinuosos, por traços tão finos e inconstantes, confirma a morbidez natural de quem investiga.


Silêncio, eu ainda posso ouvi-los.

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