Sacrifício (Parte 6/7) – Conto “Gigantes”

Antes de qualquer coisa, vamos manter duas coisas — já falei sobre o prazer de ter comprado uma palavra inteira, né? — claras aqui: primeiro quero repetir que sentir a responsabilidade pelas dores e pelos assombros que carregamos é parte do ser inteiro, do cultivo da memória e do processo maluco que eu venho defendendo por todas essas páginas e linhas e palavras que eu derramo sem pena, porque é parte inerente à nossa aproximação ombro a ombro com a razão e a morte. Nem queria falar o depois, a segunda coisa, mas é meio que obrigação porque eu já disse que o faria linhas atrás e aí pesa a questão da responsabilidade, então aqui vai: quem disse que a vida é equilíbrio para você, provavelmente omitiu a parte ruim da coisa e te vendeu uma cura que, felizmente, inexiste na realidade condensada a qual fazemos parte. O yin-yang que tomamos de assalto e depois obliteramos, fazendo-o perder todo o sentido, é feito de castelos e ruínas, meu bom. Quem se dá bem é quem sabe extrair o pior dos momentos.

Olha, Abebe, eu não queria falar as coisas — coisas hoje, coisas amanhã, coisas sempre — dessa forma, porque parece que depois de todo esse discurso bonito e prático e receita de bolo de massa pronta, o mundo pode se transformar de verdade e as coisas podem dar certo, assim, num piscar de olhos e pronto e com certeza e finalmente conseguiremos cativar e colocar alguma luz na cabeça das pessoas — que por razões mercadológicas e estratégicas de sobrevivência no business predatório da nova indústria cultural (olha eu aqui dando uma de Horkheimer e Adorno (eles devem estar se revirando no túmulo com isso (se é que mortos leem textos publicados na internet (pode ser que ainda estejam presos no plano físico e se comuniquem o tempo todo conosco, tipo agora, pode ouvi-los? (a Hilda buscava essas vozes dos mortos, quem sabe não fosse uma estratégia pra caçar leitores ativos))))) chamamos de público — para que elas reconheçam seu lugar no mundo. É só o que precisamos aqui: que você reconheça seu lugar no mundo. O resto vem bem natural, bem tranquilo mesmo, tipo essa coisa de melhorar o próprio ambiente e o dos que estão ao seu redor e amar e mudar as coisas — coisas hoje — e construir um legado consistente e então ser lembrado post mortem; pelo menos para que seu nome vire uma homenagem, como foi o (seu) nome Abebe, batizando um recém-nascido (você) e ofertando ao pobre neném que não sabe nada da vida (além de mamar e chorar ao limite das capacidades vocal e pulmonar (mas você nasceu sorrindo, certo?)) todo o peso de tudo quanto você representa para quem o tenha batizado com o (seu?) nome e o complexo conjunto de expectativas que a (sua!) memória faz pesar sobre os ombros de uma pobre criança inocente.

Nada como o doce cheiro da justiça, não é mesmo? Pare a leitura agora, inspire e expire a justiça. Sinta. Alivia essa coisa de deixar tudo nas mãos do tempo porque que o tempo se encarrega sozinho das coisas — coisas passadas —, não é mesmo? Não, infelizmente não.

E você sabe que o tempo não pratica justiça nenhuma para conosco. Parece até a lei comum. A roda da memória é complicada e, ao que me parece, tende a confundir cada vez mais em tempos tão dinâmicos, formatadores de ilhas e solidões e replicantes. O que você tem achado disso tudo, aliás? Olha, são vários ciclos possíveis para não se tornar mais uma ilha no meio de tantas outras. Mas a única maneira de romper com os ciclos constantemente é o aprendizado ininterrupto. Só que é aquilo, o único prêmio é estarmos cada vez mais próximos da morte e da razão de alguma coisa que jamais saberemos o que é. E aí tudo fica complicado, porque a morte é um tabu e todo mundo quer ser eterno. Agora todo mundo quer ser sábio também. Mas todo mundo só fala merda. Eu mesmo acredito ter falado várias merdas ao longo dessa investigação. Mas eu ainda tenho a desculpa de que toda investigação é movida por incertezas e erros e várias e várias e várias vezes eu dei com os burros n’água, então falar várias merdas faz parte do pacote. Mas a memória, por si só, é cada vez mais perene e porosa e fininha. Ou líquida mesmo, mas aí é coisa — coisa presente — do Bauman. Repare que ninguém tem aprendido muita coisa nos últimos tempos, tem percebido? Tem muitas e muitas e muitas cópias. Inclusive daquilo que escrevo. Aí eu pergunto: ser eterno ou ser lembrado? viver pouco como um rei ou muito como um zé?

Os contextos são os mesmos, só cheguei às questões por vias diferentes. A literatura tem desses malabarismos com a linguagem e eu faço uso porque acredito ser importante ter alguma coisa esteticamente interessante numa narrativa tão caótica e cíclica, apesar de que a investigação proposta aqui é muito muito muito clara e cristalina, mas não é líquida como era o objeto da investigação do Bauman, por exemplo.

Olha, antes que digam por aí que eu sou muito convencido da minha qualidade narrativa, essa coisa com estética é uma forma irônica de conduzir as ideias turvas e movediças que eu venho colocando na construção disso aqui que já está quase chegando ao fim, mas permanece como se estivesse no meio, justamente por ser meio cíclica e caótica, entende? Eu não deveria dar esse tipo de satisfação, mas meu senso de humor é duvidoso e estou tentando fidelizar meus leitores. Negócios são negócios, afinal.

Como eu vinha dizendo, você não precisa tirar nada desse texto que não seja: ache o seu lugar no mundo o quanto antes. É meio urgente isso. É repetitivo? É sim. Mas só repito aquilo que é feito necessário para a construção da narrativa. Não estou aqui tocando o terror, tampouco promovendo uma caça aos fantasmas que te circundam. Não se caça, extermina, oblitera o que faz parte da sua memória, inclusive. Os fantasmas, você poderia ignorá-los todos acaso não se sentisse responsável por tê-los provocado de alguma forma. E não pense que é ruim admitir ter incitado fantasmas e carregar dores que você imagina jamais conseguir explicar para alguém. Porém, o senso de responsabilidade ainda mata a gente, pode falar.

Eu reforço essas coisas — coisa espaço-tempo — o tempo todo para não ver os meus viverem uma narrativa do sacrifício eterna, Abebe. A gente sabe que tem de sacrificar muita coisa ainda, mas dá para viver com certa paz depois de um tempo. Agora nós temos o que sacrificar com certa folga, sim. A gente sabe por ter aprendido com as várias cabeçadas na parede dadas ao longo da vida, tentando e insistindo e remando contra a maré. Eu lembro de ouvir isso há tantos anos atrás e olha só como o mundo gira. Surpreendente, não? Mas eles — e você que está lendo pode também estar incluso nesses “eles” —, eles ainda não aprenderam muita coisa que não o sacrifício e é aí que entra a responsabilidade.

Você sabe o que é a narrativa do sacrifício, Abebe? Eu não sei se cunharam esse termo antes, mas costumo usá-lo com certa frequência. Narrativa do sacrifício é sempre ter o sacrifício como a melhor alternativa a escolher. O tal do livre arbítrio que todo mundo diz por aí, mas que na prática não costuma funcionar muito bem. Afinal, que livre arbítrio é esse em que sua melhor alternativa é perder? Isso não é viver! Jamais foi vida! É grave! Estamos falando que a melhor alternativa possível é a de perder para que, num futuro incerto e improvável, você seja recompensado. O problema, Abebe, é que vivemos e vimos o suficiente para saber que essa recompensa são migalhas perto dos sacrifícios dos nossos.

Outro problema, Abebe, é que a gente olha para trás, de onde viemos, o lugar em que fomos criados e, não sei você, mas eu só consigo concluir que os nossos não tem muito mais o que sacrificar, sabe? Os sacrifícios vão tomando conta de tudo no tempo presente e, de repente, não sobra nada nada nada nem esperança pro futuro mais, porque os recursos de sacrifício minguaram todos e já era. Tanta gente mutilada. Tanta gente perdida. Tanta gente morta. Alguns vivos, mas ainda assim mortos. E olha que eles vivem com os olhos abertos. Mas o que sobra? Nada nada nada. Um vazio enorme. É o efeito chama-morte. Ninguém aprende como se aproximar da morte, aqui se vira um fantoche dela. E a morte é sádica com quem não aprende nada.

Eu quis tangenciar o assunto o tempo inteiro, mas aí eu seria negligente com a minha própria fala sobre ser inteiro e revelar-se inteiro, que pode ser a nossa única sorte em vida.

Os seus sacrifícios de hoje são diferentes dos de todo mundo. E ainda assim você sente a responsabilidade de não poder perder (mais (porque já perdeu altas e altas e altas vezes)), o que não te coloca numa condição de ser diferente — veja bem como usa os clichês em que está inserido. Até porque só agora são diferentes, mas já foram iguais e você sabe o quão difícil é ter o sacrifício como melhor alternativa no momento. Agora você tem coisas para oferecer em sacrifício. É bom para os negócios num geral. É a tônica dos negócios, afinal. Mas no meio dos negócios a gente chama de concessões, que é mais bonito, suave e menos extremo. É o que faz você alcançar o público; ou as pessoas, como preferir. É um luxo para poucos, muito poucos. E a constatação disso jamais lhe poderá trazer alívio, você bem sabe. Você trabalha em dobro porque sabe das responsabilidades implícitas do pacote que é saber seu lugar no mundo. Sabe, também, que nada vai adiantar se as pessoas não forem tocadas pela música que você faz porque é o único espaço em que você está inteiro e indivisível. Da mesma forma que eu tenho a perfeita noção da função dessa narrativa e o porquê de ela existir.

Estamos num dilema moral bastante grave. Como Hegel é feliz em fazer a gente de idiota com a merda da dialética. Veja bem: você é parte da estrutura que reproduz a narrativa do sacrifício porque abre concessões o tempo inteiro para chegar ao maior número de pessoas possível. Eu também sou. Você que lê, não importando quem seja, também o é. Nascemos com esse peso. Beneficiamo-nos da estrutura para explanar o pretenso aprendizado contínuo que praticamos. Sabemos dos sacrifícios e sabemos que não devemos cultivá-los dessa maneira doentia e fatal. E é através da estrutura que oprime que esperamos iluminar algumas cabeças, passar alguma visão e, quem sabe, cativar pessoas. Se não pode com eles, infiltre-se neles. Mas e depois? Quando estiver lá dentro? Mate todos eles?

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