Morte (Parte 3/7) – Conto “Gigantes”

A morte não é uma questão metafísica. Esse texto não trata de coisas — coisas, que coisas, porra? — metafísicas. Muitos falam que a morte é, sim, um processo além-vida. E falam demais, acho eu, porque não é. A morte tem os dois pés fincados no que nos é físico, na realidade, na presença diária. Nós (suponho que você também, além de mim e do Abebe), que convivemos todos os dias com a digníssima, temos alguma propriedade para falar. Repito, então: a morte não é metafísica. Ela deve estar ao seu lado para que seja ação. Afinal, toda memória é sólida nos verbos; e morrer ainda é ação. Aliás, chame-a de Dona Morte, camarada, mais respeito; nunca se sabe o humor de quem manda (e isso também funciona para o seu chefe (que é uma representação morte por si só)).

Falar da memória, no caso, é aceitar que a presença da morte é inerente à vida e aos pesos que são carregados durante a construção dos fazeres todos. É botar fé que você ou eu ou o Abebe — mas não o BK’ — podemos ser pegos na próxima esquina e, fazer o quê?, a gente morre e acabou. Depois da morte nada é de responsabilidade nossa. Nem as dívidas que deixamos. Não adianta chorar sobre o leite derramado, mesmo que o leite seja a vida. Mas nem chorar o leite derramado é de responsabilidade nossa mais. A morte é nosso plano de terceirização perfeito e mais mal executado, apesar de ser o único que funciona em alguma esfera porque tira a gente das outras terceirizações possíveis e isso, por si só, é um alívio, pode acreditar. É quase tão obsceno quanto o que fazem em empresas como a que eu trabalho, só não supera porque realmente me livraria da empresa em que eu trabalho e isso seria perfeito já que, bom, empresas que prestam serviços dessa forma só ajudam a perpetuar a pobreza e a desvalorizar a classe, além de todo desserviço a nível pessoal que prestam com as metas absurdas e a mecanização do empregado. Mas voltando ao paralelo entre morte e terceirização, o que fazemos, assim que mortos, é colocar sob os cuidados dos outros a nossa memória. Depende dos outros que a nossa memória seja perpetuada — ou existe a esperança de uma “sobrevida”, uma gordura de existência a ser gasta, talvez? — pelas coisas que fomos capazes de fazer. Então a tônica da vida é fazer coisas, óbvio. Só não faça merda, porque aí não é legal ser lembrado. E, bom, com o tanto de gente que vive de fazer coisas e morre e fica anônima por aí, sabe-se que esse serviço não é lá muito bem executado mesmo. Aliás, imagina a memória do mundo se todos os mortos fossem lembrados ao mesmo tempo e com a mesma intensidade? Fascinante, não? Mas não é assim que funciona. E pra ser lembrado no éter do post mortem você deve fazer coisas verdadeiramente memoráveis. O que é muito relativo. E aí nossa conversa muda. A responsabilidade é sempre do próximo. Não do que segue, literalmente. Mas dos que seguem você, entende? Quem segue você? Você é capaz de controlar esses que te seguem?  Não acredito que seja. Quanto mais seguidores, melhor. Talvez. Isso também é relativo.

Veja bem, falo de quem segue você porque você pode morrer de várias outras formas; não somente quando você efetivamente morre. Isso também dá, é mais que comprovado. Mas não é só. Você pode morrer toda vez que rompe um ciclo e pula para outro, por exemplo, o que é meio esotérico, meio hipster, meio rato de horóscopo e carinha das good-vibes-namastê-shalom-gratidão, mas pode ser uma imagem bem real da vida — noves fora o glamour que tal percepção da vida impute a quem se descobre capaz de falar sobre o rompimento de ciclos e iniciar outros novos como solução para todos os problemas do mundo, que é quando a meritocracia alcança o esoterismo e vira um grande negócio de venda de curas fáceis e livros de autoajuda comprados por pessoas desesperadas por não conseguirem sequer cultivar qualquer autopiedade e amor próprio que seja para servir como consolo ante todas as dificuldades da vida; que não deveria ser difícil, mas é e você tem de encará-la (esse final foi uma espécie de autoajuda, eu acho (credo!)).

As coisas giram e te levam para outros lugares que não os de antes, e aqueles lugares viram memórias em imagens remotas até sumirem de repente, ou se tornam uma leve película modificada pelas sensações e a obrigação de lembrar-se do lugar em momentos específicos. É o típico caso do cantor sertanejo em programa de auditório de domingo à tarde, quando fala sobre a fazenda em que foi criado no interior do Goiás: a vaca mimosa que ordenhava tinha nome e tudo, acordar com o galo cantando, arar terra e aquelas coisas que se sabe bem que ele provavelmente nunca fez e jamais voltará a fazê-lo, seja por nunca ter feito ou por não ficar pobre a ponto disso mais. Assim a vida segue e te engana. De repente, você subiu tão alto na montanha que não é capaz de se lembrar do mar. Vira o ermitão Zaratustra, que se autodeclara o super-homem. Tenho ressalvas fortes quanto ao Nietzsche, sim. Você vai encontrá-las em vários textos meus espalhados por aí, mas essa me foi uma memória muito oportuna para elaborar essa elegia à morte da qual falo agora.

Essa coisa das várias mortes em vida não vale muito quando você não é capaz de carregar essas mortes juntas, de maneira a mantê-las vivas de alguma forma. Ou melhor, mantê-las úteis. A coisa dos ciclos que se rompem e você escolhe o que quer deixar para trás, isso é meio mentiroso. Digo meio porque é relativo; ou não consensual. Tudo que pode ser discutido é meio, né? Meio relativo isso também. Essa coisa de você abandonar ciclos não significa deixa-los para trás. Isso apaga a memória. É perigoso! Não deveria existir essa coisa de memória seletiva autoimposta. O cérebro por si só já é uma ferramenta seletiva, uma caixa seletora — gosto da engenharia por esses termos que me aproprio para escrever e todo mundo fica “uau” — da memória, por mais que tentemos conservá-las vivas. Porque acreditar, então, num modelo de morte cíclica e escolher o que é experiência para o futuro e o que não é? Isso não é controlável por ser espontâneo. Tampouco é deliberado por um livre arbítrio — que também meio que não existe.

Creio piamente, boto fé com força, na hipótese de que a gente morre toda vez que aprende alguma coisa. Aprender é aproximar-se da morte, com certeza. Todo o tempo. Cada migalha de memória no chão você pega e come e se lambuza e se refestela e pede mais mesmo satisfeito porque a vontade de comer é maior que a fome quando as coisas vão bem, não é mesmo? O que não significa desejar a morte. Não! Longe disso! Entre desejo e proximidade existe uma diferença enorme. É um processo gradativo. Um gradiente. Um degradê. Existe uma predisposição ou tendência natural à compreensão das coisas por nós sem que o novo solape o velho. Aprender é cumulativo. Você Soma Soma Soma Soma e Soma (propaganda gratuita). Pra aprender o que permanece vivo, é necessário entender o que é morto. E aí morre um pouco também, porque carrega a memória. Por isso o nome pesa tanto. Presente e passado se valem e valoram. Não dá pra saber do futuro. É um erro saber do futuro, aliás. Não faz sentido. Você pode construir boas coisas — coisas, coisas, coisas — agora com a certeza de um bom futuro, mas não tem garantia que serão utilizadas quando o tempo chegar.

O problema são as frases sobre erros cometidos, tenho certeza, porque são daquelas que todo mundo já ouviu e ninguém fica impactado quando as ouve: “não cometa o erro dos outros” ou “não cometa os mesmos erros que seu pai e sua mãe cometeram” ou “errar duas vezes a mesma coisa é burrice”.

Ninguém presta atenção nesse tipo de aviso. Infelizmente não é porque não mais se teme o erro. Medo existe, é só o que existe. As frases é que não colocam mais medo em ninguém. A ameaça dos erros passados não se faz presente pelo não cultivo da memória. Esqueceu-se de tudo, até dos erros cometidos. Poucos cultivam a memória. As ilhas se formam naturalmente. E o exercício da memória é cada vez mais condensado, simplório, superficial. Carregar a memória mais me assemelha à construção de um corpo narrativo mesmo, em que você forma várias frases que devem permanecer juntas e em sequência. Não é comum que a frase que inicia o texto seja a mesma frase que encerra, mas elas completam um sentido maior que leva a algum nível de aprendizado — mesmo quando à exposição da luz exercida pelo senso opinativo imediatista de alguém, que vai abrir um blog e escrever sobre o livro na internet (tipo, eu mesmo). Mas o corpo narrativo, ele é um conjunto construído pelos momentos os quais as frases tocam o presente mesmo tendo sido montadas no passado. Não existe futuro aí. A narrativa é uma peça morta, constituída, que já fez coisas ou que foi coisas (ser e fazer se assemelham em muitos aspectos (até coisas entra nessa dança), não acha?). Toda memória narrativa depende do leitor. Toda narrativa está terceirizada. Sem exceção.

Por sorte, por muita sorte mesmo, o você-Abebe da conversa, por exemplo, vai ler isso aqui com a calma e paciência que deveria fazê-lo. Você que não é o Abebe também, eu sei, mas é mais fácil exigir de um leitor que busca por respostas, que exigir de alguém (ou alguns) que acha(m) que esta pode ser uma narrativa sobre a criação da figura BK’. E não, não é. Sou naturalmente envaidecido por me considerar um iconoclasta e não praticar a mitomania dos tempos atuais é um momento de orgulho a que me permito. O que se faz aqui é uma investigação de propriedade autoral (e nunca moral). Não posso revelar qual a investigação, apesar de que você já deve ter entendido; e, se ainda não entendeu, deve entender até o final da narrativa, porque o objetivo é que você entenda a finalidade do que está sendo proposto aqui, senão a narrativa morre e nada será feito em sua memória, o que seria lamentável — porque deu um trabalho do cacete escrevê-la. Enfim, eu preciso confiar (quase) sozinho que toda palavra escrita aqui deriva de uma evolução apreciativa da literatura que pretendo produzir em relação a que de fato produzo. Não tem futuro aí também. Toda minha produção está situada no passado e nesse momento presente fixado na narrativa. Quão previsível é esse futuro, afinal? Eu tenho que aprender comigo mesmo o tempo todo, (quase) sozinho. O Abebe quando compõe deve passar pelo mesmo processo. É inevitável.

É uma responsabilidade grande demais e que não sabemos lidar, porque a nós não foi investido ou ensinado o tamanho do poder que temos, a influência que possuímos sobre o outro, a capacidade quase infinita de realizar coisas grandiosas com base no nosso esforço e entendimento de mundo. A nós nem chegaram a sugerir a importância e o peso da memória, imagina só. Bizarro, não? E isso nos aproxima da morte de alguma forma. O entendimento de si, daquilo que muito provavelmente jamais será compreendido e, portanto, respondido, nos aproxima da única alternativa de plenitude do saber que conhecemos: a morte. Talvez seja por isso que eu escreva. Ou que o Abebe faça música. Ou que você faça as coisas que faz.

Seria cômico se não fosse trágico, mas, olha, existe uma lógica nisso tudo. Se aprender nos aproxima da morte, isso, talvez, também nos sirva de testamento. Isso é óbvio. Até demais. Mas se liga agora: para testamentar minha estadia terrena, eu escrevo; pra você testamentar a sua, você faz músicas lançadas sob uma alcunha comum a todos que o seguem; você eu não sei o que faz, mas faz. Cada um investiga à sua maneira, ou melhor, protocola sua investigação. Se você deixar alguma coisa gravada aqui, há, literalmente, uma alternativa para os desdobramentos da vida. Por mais que você não saiba qual seria a tal alternativa, você acredita numa vida mais ampla que o abismo da terra-de-ninguém, que é como o presente costuma se apresentar pra gente. Acreditar é estar ilhado no subjetivo, naquilo que não pode ser descoberto. É ser uma espécie de deus sem efetivamente sê-lo. É fé. E fé é pra tudo, né não? Fé pra isso também.

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