Nome (Parte 2/7) – Conto “Gigantes”

Como você se relaciona com a sua memória, Abebe? É importante que eu repita seu nome diversas vezes. Quanto mais vezes, melhor. Sempre. De novo. Tem peso o nome. O nome tem o peso da memória. Afinal, seu nome é in memoriam. Uma homenagem. É expressão de um legado impalpável para quem o fez, construiu, moldou, interpretou, leu, viu. Todas as ações possíveis. Todas as memórias são sólidas nos verbos. Ao menos parecem ser. O que é engraçado. Fúnebre, mas engraçado. Carregamos nomes como homenagens a pessoas que jamais poderão desfrutar do legado que deixaram.

Nos nossos nomes repousam memórias que não são nossas. E depositam expectativas altas demais. Nos ombros, a memória de gerações. Um fardo: carregar memórias passadas em detrimento da construção da nossa. É o motivo de eu insistir com Abebe. Rejeito veementemente pseudônimos, apelidos, alteregos. São atalhos. Muitas são as memórias do BK’, indiscutível; mas estão erguidas sobre ombros que não carregam peso algum (nem do nome com o peso e a memória — mas poderia ser com a fortuna, claro — da rede de fast food).

Quem lê pensa que somos conhecidos e que coisas — que coisas, afinal? — assim surgem do coleguismo de imprensa. Eu te elogio e você me recomenda. E vice-versa. E voilà, você recebe uma boa crítica e eu ganho espaço no meio da cena. Antes fosse. Esse tipo de construção narrativa não chega a tanto. É grande demais. Desligada demais do meio. Da realidade, talvez. E, acaso chegue, não abrirá diálogo. Não será memória. Ninguém tem tempo pra dialogar. Todos querem concordar com ações rápidas no presente, um fruto qualquer da leitura instantânea. Não é meu caso, como você há de perceber.

Por isso me pergunto da (ou me importo com a) sua memória. Dialogar é vital para a fixação da memória. Isso mais parece aula de matemática, aquelas em que o professor manda listas e mais listas com exercícios e repete que é só através da prática que se chega ao conhecimento e à aplicação correta das fórmulas; e é verdade. Para a construção de qualquer laço é necessário o exercício contínuo, aliás. Mesmo que o laço seja tão pueril quanto o poder de fixação de um texto, instrumento medidor do quão capaz eu sou de cativar você. Aqui o leitor — que desconheço — e o Abebe — que ambos, eu e o leitor, desconhecemos — são iguais. Fantástico o poder do diálogo, não? Ou proposta de diálogo? Não sei ainda. Acho que depende do efeito do texto, né?

É delicado falar da memória. Tudo pode ser incinerado em questão de minutos. Nos dias de hoje, principalmente. Tudo tem mil lados. E mais um: o seu. Ou tudo pode ser visto por muitos ângulos diferentes. A própria memória torna-se um bocado relativa. Soltam os “Titãs do Tártaro”. Abrem a “Caixa de Pandora”. E gritam com exuberância as verdades mais insustentáveis possíveis: racismo reverso, nazismo de esquerda, ditadura gayzista e afins. Monstros criados pela relativização da memória. Mal interpretada. Sem convicções. Sem certezas. Sem causas. Sem identidade. Sem querer ser repetitivo, mas volto ao caso do sorriso. Pra sorrir tem que ter um norte, senão sobra medo. Medo do que vão pensar — ou fazer — se você o fizer. Falta interpretação. Sobra maldizer. Sorrir é intrínseco à memória, apesar do dicionário não dar tal entendimento. Nem a bíblia. Nem o Book of Rhymes. Realmente, não rima. Nem se conjugado. Sorriria, quem sabe. Muda a sílaba tônica. Mas é possibilidade remota. De rima e de frase.

Construir a própria memória. Já pensou no que significa? É uma busca. É uma busca incessante. É uma busca cíclica. É uma busca que volta ao ponto de partida de tempos em tempos. E a cada volta são criadas novas expectativas. Perspectivas maiores. Um novo universo em vista. A memória tende a ser ambiciosa demais. Se não for, queima. Até as cinzas. Incinera o passado. Esqueça dele. Da origem, do caminho, da família, dos amigos, dos responsáveis, das responsabilidades, das ajudas diversas, dos diretamente ajudados, dos acasos fortuitos. Tudo. E aí volta. Do ponto de partida. Perdido. Construir a própria memória é assinar o pacto fáustico. Uma diferença, apenas. Fausto pactuou com apenas um Mefistófeles. Você pactua com vários demônios. E não dá pra burlar todos ao mesmo tempo e ainda querer manter tudo sob controle desde a origem. Sempre volta. Sempre que vai, tem que voltar. Sempre que voltar, tem que carregar tudo o que trouxe. Percebe? A memória, por si só, nunca estará satisfeita. Ou você conserva a memória com todo o afinco; ou se esqueça e arque com as consequências da falta dela. Quando esquecida, ela incinera. Quando satisfeita, esfarela e some. A memória some. Cinzas e pó dão no mesmo. A memória jamais será refeita.

Insisto com você, Abebe. Coisas — o que, de novo, seria coisas? — convergem. Fatos coincidem (melhor assim). É importante lembrar. Mais importante é ser lembrado. Em vida, de preferência. Dizem que sim. Não acredito muito. Não sou lembrado pra muita coisa. E as poucas em que sou não são o que busco como minha memória. Um desastre. Um brinde à memória dantesca. Enfim. Poucos se lembram de fato. Poucos entregam à memória o calor do diálogo aberto. Qualquer registro diferente não atende às “especificações solicitadas”. Um parecer técnico. Um atestado científico. A memória precisa do diálogo. Qualquer um. Então volto ao nome. Não pelo fato de repeti-lo. Ou chamá-lo. Nem pelo fato das rimas. Seria reptiliano exigir de um texto corrido que rime. Apesar de ser possível. Podendo tornar-se memorável. Mesóclises atrapalham a vida, mas como não usá-las? Volto. Sério. Mesmo. O nome carrega o peso que tem. E a memória devida. Cabe ao dono atendê-lo. Todavia, não se compartilha a memória de um nome, porque o nome é o fardo a ser sustentado. Se você se diz e quer ser diferente dos demais — como diz sua mãe —, jamais poderia imputar a outrem os pesos insustentáveis que carrega desde o nome. Sua mãe te batizou Abebe. Seu irmão te chama por Abebe. Os íntimos também. Os fãs chamam o BK’. Os promoters contratam o BK’. Eu te chamo por BK’, mas falo com o Abebe agora. Talvez eu sofra com múltiplas personalidades, facetas, pseudônimos, personagens. Em dividi-los todos, no caso. Porque me importa a memória do Abebe enquanto ideia e material, nele está contido tudo quanto investigo. Porém, trabalho em cima de músicas do BK’. Um grande problema de identidade que não é seu.

Você sabe os limites do BK’ e do Abebe, acredito. Se não sabe, deveria. Porque eu não sei. Eu não sei dividir quando escrevo. Apenas escrevo. Então sou eu. E eu estou falando com o Abebe tendo que passar pelo BK’. E também estou dialogando com você que está lendo. É como se eu quebrasse duas quartas paredes ao mesmo tempo, porque minhas questões aqui não são metafísicas, inclusive como literatura. Mas ainda sou eu aqui. É uma coisa meio antagônica o que acontece durante a narrativa, porque parece tudo como numa mesa redonda entre Pelé e Maradona, talvez. O Pelé é memorável e muito maior que o Edson Arantes do Nascimento, entende? Não só para o futebol, mas para a memória de uma maneira geral. Tem até lei Pelé. Tudo bem que ter nome de lei me soa trágico. Talvez porque eu não acredite em leis. Ou talvez porque eu relacione “leis-com-nomes” mais para o lado do devastador poder sectário das leis de Jim Crow que com a liberdade de denúncia e garantia de assistência às mulheres que sofrem de violência doméstica pela Lei Maria da Penha. Veja bem, essa pode ser uma grande falha minha, ver o poder das leis retirar em absoluto os direitos de quem precisa e depois corrigir os erros passados a conta-gotas. Talvez eu visse de outra forma se eu não visse tantas pessoas ainda ameaçadas pelas ruas, sem poder abrir um sorriso por ter de andar com os olhos mais abertos do que nunca. Mas, voltando à mesa redonda, o que sobra da memória do Edson? O Pelé consumiu tudo. O Maradona, nesse caso, é de um tamanho só. Sempre teve o Maradona gênio da bola e o viciado em cocaína, e ambos os aspectos são indissociáveis. A história não relativiza todas as suas contradições. Pode ser questão de estilo. Talvez seja preservar o pouco que resta da privacidade e da imagem entre seu círculo íntimo, não sei. Ambos são clássicos com as bolas nos pés por caminhos diferentes. Coisas diferentes, necessidades diferentes, caminhos diferentes.

Portanto, ainda prefiro ficar com o peso e a memória do nome Abebe. Não vou colocar uma vírgula para fazer jogo de pontuação. Saí do ensino fundamental há quase uma década. Talvez eu tenha saído até do Book of Rhymes, porque tudo o que eu tento escrever não casa em rima e métrica e sentido. Não rimo mesmo. Então preferi investigar. E não faz sentido buscar a memória de alguém que não usa o próprio nome, muito menos escrever sobre. Isso que deve me chamar à atenção, como estado. Escrever é, acima de qualquer coisa, uma busca pela memória. É o meu primeiro referencial, pelo menos. E algumas coisas precisam ser ditas antes que se descubram motivos e fatos — e coisas. O nome, Abebe. O peso do nome. É o começo da memória. Como você quer ser lembrado, Abebe?

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