Sorrisos (Parte 1/7) – Conto “Gigantes”

Você sempre foi diferente, Abebe. Sua mãe, a dona Ana, fala que você nasceu sorrindo e, a bem da verdade, essa pode ser a maior das diferenças. É estranho essa coisa de nascer sorrindo, porque, mesmo com o pouco tempo de convivência, é perceptível que é uma parada natural, não forçada. Talvez espontâneo seja a palavra certa. Definitivamente sim, espontâneo. Quem veio de onde a gente vem e compartilha da mesma vivência não tem tantos motivos para sorrir assim. Geral tenta. Até força. Se ilude que ri. Mas todo mundo é meio reticente. Todos parecem nascer desconfiados da ideia de felicidade, apesar da busca incessante por ela. Sem saber nem como nem quando nem onde nem em quem depositar esperança. Um guia. Mesmo que não precisem ser guiados. Quem sabe?

Momentos felizes são difíceis. Quiçá já nascer assim, sorrindo. Do jeito que eu via as ruas da KGL aos dezesseis anos, lá em dois mil e onze, os olhares sempre disseram muito mais que os sorrisos. Ali se aprende o clichê mais antigo — e talvez promíscuo — das ruas: que a intenção já está no olhar muito antes de se transformar em atitude.

Aprender a doce e vital arte de interpretar e desarmar olhares. E aprender rápido. Se demorar é você que vira o mau-olhado, e assim fica. Ou não fica. Deixa de ficar. São olhares de medo, de ódio e de alívio. Encarados por você, pelos seus. Antes mesmo do bloco. Antes de tudo começar a virar. Bem antes. Com a câmera nas mãos. Mas você é diferente, sua mãe continua a dizer sem parar. Sempre disposto. Sempre na disposição. Olhos fechados e sorrindo. Alguns momentos de cegueira são necessários, afinal. Dizem que a abstração é a beleza da vida. Breton disse que toda beleza é convulsão. Pode ser. Pode ser que sorrisos sejam tão puros, tão profundamente puros, que acabam por revelar. Mais que a visão das coisas. Vai saber. Sua mãe sempre soube.

Essa questão dos sorrisos é profunda. Mais profunda do que se pode imaginar, assim, de supetão, Abebe. Porque, se os olhos sempre abertos e alertas não evitaram que alguns partissem, a boca aberta e os olhos fechados não fariam muito melhor. Causa e efeito. Essa coisa de estar alheio ao que nos cerca representa risco muito mais grave. É mortal aqui. Todo mundo sabe. Ou deveria saber. Deveria.

Imagina uma boca aberta, torta, curvada por um sorriso. Estranho. Temerário. Vulnerável. Exposto por uns sentimentos que, sei lá, nem você poderia explicar como funciona, e ainda assim te fazem fechar os olhos, impassíveis e intransigentes. E você aí, impossibilitado de exprimir tais momentos através da arte. Do tempo. Sobra espaço quando se fecha os olhos dessa forma. É loucura se considerar os riscos. Sério mesmo. Pensa. Você fecha os olhos, abre o sorriso e, de repente, tem que fazer a coisa certa a qualquer custo. Muito espaço. Um lugar desconhecido, amplo e ermo. Como se te jogassem numa grande metrópole desconhecida. Porque você sabe bem o que a falta de palavras e a felicidade explanada custam nesse mundo. Esse aqui, o mundo real. Nunca ideal, é claro. Quando captados por olhos e ouvidos não tão dispostos às explicações e papo de visão e tudo mais, então…

Tudo o que você pode fazer é ser real e torcer para que ninguém te olhe cruzado enquanto você não está olhando nada. Ou enquanto você olha o nada. E sorri. São espaços mútuos ou recíprocos. Desenvolver seu poder de síntese pode ser uma boa também, deve ajudar. Não que seja fácil, mas as coisas são como devem ser.

Pior é não quererem sua abstração, e você sabe muito bem de quem eu estou falando. Não é segredo pra ninguém. Existe muita gente com muito poder, falso poder, mas poder o suficiente para controlar a felicidade alheia, é fato. Então você cresceu sabendo que essa história de ser feliz não combina com andar de olhos abertos. Ou você está numa, ou está noutra. Existe uma zona cinzenta que ninguém se arrisca a ficar. É como na guerra, quem fica entre um front e outro, na famigerada terra-de-ninguém, tomba pelos dois lados. Abre teu olho ou abre um sorriso. Nunca os dois ao mesmo tempo.

E é foda ter que escolher quando, na verdade, você precisa dos dois ao mesmo tempo. Ninguém te ensina a fazer essa porra direito, virar a chave. Sair de um para o outro quando precisa. Passado e futuro. Acelera e freia. A vida é sempre no abismo entre os dois, no presente. É impossível parar um trem em movimento. Então qual a sua posição em relação ao trem? Velocidade de cruzeiro? Obrigam você a viver um só. Trem-bala, filho. O sistema, no caso. E, tá bom, tá legal, agora aguenta as consequências das obrigações que você nem sabia que deveria assumir. Olhos vidrados, incapazes de fechar. Foi assim que você desenhou seus castelos e as respectivas ruínas, não? Ah, foi. Não dá pra ficar no meio. Não dá pra deixar na reta. Não dá pra testar a fé de ninguém. Não dá. Escolhe um lado aí e foda-se. Tenta a sorte. Dá sorte. Lado certo. Tipo loteria, uma chance em alguns milhões. Não possuo dados estatísticos no momento. Ergueu castelos que, bom, são o passado. No meu fora, ao menos. Isso obrigatoriamente coloca o futuro em ruínas? Algo a se pensar.

O fardo de não saber o que fazer é muito pesado. Ter que fazer alguma coisa pesa mais. Ninguém fala que tudo é um processo. E o processo coletivo é individual. E vice-versa. Dá pra abrir os olhos e sorrir nas horas certas, talvez. É para poucos parece, mas dá para todo mundo fazer. E não é um discurso meritocrático meu ou seu ou de quem quer que seja. Nem discurso do meio, do abismo intangível. Não existe terra-de-ninguém nessa terra. Esquece isso. Não pode existir. Os que acreditam na meritocracia não querem ver a gente sorrindo, bem se sabe. Fazem parecer mais fácil quando é no cada um faz o seu; e ninguém consegue fazer nada direito. Um todo distante. E todo mundo é uma ilha nessa terra de gigantes. E falo com alguma certeza, já que estive ilhado. Nunca me vi tão sozinho. Ruínas, Abebe, tudo são ruínas. Solitárias. No passado, no presente e no futuro.

Dá meio que raiva. Acho que sei como é que funciona esse negócio de raiva. Ah, “e eu entoquei minha arma, na real de tanta raiva que tava guardada o que não faltava era alguém pra usá-la”, não é isso? Belíssima sensação de poder, prazerosa. Acabar com um problema pela raiz e essa coisa — o que é coisa? — toda, como se a raiz de todos os problemas fossem pessoas. Não são. E são ao mesmo tempo. Mas não as pessoas daqui. As daqui só não sabem sorrir mesmo. Ou não sabem o que são sorrisos. Ou dão sorrisos nas piores horas possíveis. Conheço pessoas assim.

Você sabe. Está sabendo o que aconteceu, sim. Sei disso. Nas resenhas que não são resenhas, iguais aos sorrisos nas horas erradas ou impróprias. O castelo descortinado em ruínas. Então, aquela ideia pretensiosa de inspirar e abrir os olhos das pessoas, de querer interferir em processos que não dependem de você. O castelo é o sucesso; e o sucesso é um fantasma. Ou guarda fantasmas. Ou guarda-fantasma. Mas se descobre, cedo ou tarde, que não é possível interferir nem inspirar se não respeitar o processo direito. Respeito ao processo. Desobediência às ilhas. Os valores são inversos por aqui. Os verdadeiros valores. Dos sorrisos que ninguém aprendeu a dar. Ou nasce ou não sabe. Aqui ainda é assim.

Guardadas as devidas proporções, claro, mas o objetivo aqui é cativar as pessoas, fazê-las fechar os olhos, forçar alguns sorrisos — quem sabe? — e passar a visão, ainda assim. É a coisa dos valores inversos. Merda. Difícil explicar. Todos deveriam saber lidar com a cegueira. Aqui todo mundo é cego com os olhos abertos. Não se vê sorriso. E sorrisos são necessários. Sorrisos que não precisam nem devem ser para mim ou para você, mas que devem ser permanentes entre os nossos. Isso é a essência de mudar vidas. Ampliar perspectivas. Trazer luz. Hip hop real. Risos. Mas você vê como é difícil? À medida que o status, a fama, o hype, o reconhecimento e o [insira o nome aqui] ganham espaço, você se dá conta de que é difícil. Muito difícil. Você sorri e atrai mais olhares que sorrisos para perto. Para por aí. Ser influência. Ser referência. Ser espelho. Volta. E mais uma rodada de olhares. Olha bem. Agora estão todos sedentos, cruéis, órfãos de alguma coisa que você, talvez, possa inspirar, mas não pode dar. Se você não ficar de olhos abertos, te tomam os olhos. O sorriso ninguém sabe que existe. Só não sabem lidar com olhos fechados. Papo de visão.

Viu como esse lance de nascer sorrindo é complicado, Abebe? É uma condição que não se explica, tampouco entende. Se você sorri, ninguém entende. Se você tenta explicar o porquê, você não consegue se entender também. Poucos gostam, alguns mais detestam e a grande maioria não faz ideia do “que você tá fazendo com essa porra de sorriso na cara!?”, mas pelo menos não mexem contigo. Ainda não. Não dá pra arriscar fechar os olhos toda hora. Olhos abertos nesse mundo. Olhos fechados para o desconhecido. É complicado, Abebe. Sorrir é complicado.

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