A morte me fez querer viver no éter

As incursões através da poesia de Hilda Hilst são tão espontaneamente profundas e íntimas que, talvez (um talvez remoto, inseguro e bastante vacilante), o artifício de posicioná-la em estereótipos seja causador de um afastamento substancial da sua poética, muito maior que a aproximação outrora imaginada por qualquer um que se proponha a rotulá-la ou à sua obra. Isso recai sobre essa série, obviamente.

“Dúplices e atentos
Lançamos nossos barcos

No caminho dos ventos.

E nas coisas efêmeras
Nos detemos.”

A divisão numa tríade de lugares habitados pela poesia — e, levando-se em conta o foro íntimo exercido pela poesia na poeta, essa tríade recai sobre a vida de Hilda numa perspectiva biográfica tão singela quanto flexível, dando espaço para avanços significativos na contínua linha de pesquisa do Rede de Intrigas (que não para com o término da série) — rejeita veementemente a rotulação da obra poética de Hilda Hilst como subproduto do duplo, de jograis simplistas e, em geral, preguiçosos entre sagrado e profano, vida e morte, amor e perdição, entre outros. A relação de Hilda com o famigerado natural — seu ideal de perfeição — e com o corpo — que profana a existência com base nas dúvidas intermináveis — é tão diversa que torna-se impossível pensar em simples duplos, numa troca direta e sem nuances que não sejam polos completamente distintos entre si.

Porém, existe um duplo determinante para estabelecer o éter, o último lugar — da trindade aqui elaborada — em que a poética hilstiana habita: o da dúvida e o da não-dúvida.

A dúvida reside no corpo, lugar em que Hilda se reconhece e questiona, a todo o momento, as condições de habitação do espaço no presente, no momento (elástico) em que o vive. Viver, afinal, é duvidar — e a dúvida é profana, lembrem-se. Talvez seja uma lógica reversa ao comumente estabelecido, entretanto é bastante plausível, ou até mesmo tátil. Hilda conhece as profundezas do corpo e em razão disso o coloca em constante estado de dúvida, explorando a veracidade do que determina a sua condição na tentativa de trespassar todo e qualquer limite daquilo que a oprime: a realidade.

Há, portanto, uma força que deseja o conhecimento pleno ou que, simplesmente, rejeita o estado de dúvida intrínseco ao corpo, não desejando mais sê-lo; não querendo mais discutir acerca da própria condição humana; que busca incessantemente por aquilo que lhe é natural. Quanto mais é conhecido e/ou descoberto, mais dentro do corpo fica e, em consequência, será objeto de dúvida constante.

“As paisagens se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.”

Se o natural é o ideal de vida para Hilda, então esse é um lugar à prova de dúvidas. O natural é certeza por si só. Um ambiente constituído por uma garantia de elevação, de resultado e recompensa de uma busca incessante que sabe-se, de antemão, da impossibilidade de alcançá-lo através desse corpo habitado pela escritora. Um lugar de não-dúvida, portanto. Mas não é só o natural, lugar (re)conhecido e objeto de desejo pela poeta, que é passível de ser enquadrado como um lugar de não-dúvida. Na mesma proporção em que o ideal do natural é fruto da busca constante pelo corpo, muito é descoberto e trazido para a realidade aparente e muito não lhe é revelado, mantendo-se desconhecido na sua plenitude. E, seguindo a lógica tátil de Hilda, tudo o que é desconhecido pode ser motivo de interesse, mas nunca motivo de dúvida.

O éter, portanto, permeia tudo aquilo que é desconhecido por Hilda e, por isso, não lhe cabe — ainda — no que é ideal — ou natural. São experiências fisicamente improváveis que, apesar da forte crença por parte da autora, jamais puderam ser minimamente comprovadas. Existe, também, uma remota possibilidade — inspirada por um desejo muito forte — de que o objeto buscado seja real, apenas. A crença não é o suficiente para estabelecer um lugar fixo, capaz de compor um cenário perfeito; como também não é capaz de trazer a experiência para dentro da realidade aparente e se tornar alvo de dúvidas intermináveis por parte do corpo. O éter é terra de ninguém na poética hilstiana; assuntos que permanecem inexplorados, sem maiores perguntas e, consequentemente, sem respostas; são, por isso mesmo, lugares de não-dúvida.

“Se falo
É por aqueles mortos
Que dia a dia
Em mim se ressuscitam.
De medos e resguardos
É a alma que nos guia
A carne aflita.”

O éter como lugar da poética hilstiana pode estar contido — inteiro — na investigação de Hilda com relação à figura paterna e aos inúmeros desdobramentos que garantem ao pai as múltiplas facetas apresentadas ao longo da sua produção poética. É à luz das investigações desses desdobramentos que a figura inapelável do pai de Hilda configura e esconde as respostas necessárias à razão da poeta, deixando-a a mercê de tentativas frustrantes que a destituem da potência da dúvida, vivida pelo corpo, e do vigor da busca pelo natural.

Uma demonstração mais simples do joguete entre pai e filha — que infantiliza, para a crítica especializada inclusive, a aura e, em decorrência disso, as dúvidas levantadas por Hilda durante boa parte da sua vida — é o eterno questionamento à figura do deus cristão como ser onipotente, onipresente e onisciente provido de senso de justiça inigualável, visto como piedoso e misericordioso. Esse deus cristão é conhecido e reconhecido pela fé de Hilda, que crê fervorosamente nele e, por isso, deus é extremamente questionado e posto à prova à sua maneira. Com o pai as mesmas dúvidas não cabem, esse assume a aura inicial — e doutrinária — do deus cristão e, de repente, Hilda se vê na obrigação de se provar para um deus, que ela já conhece muito bem como funciona, e para outra figura, de vínculo carnal e espiritual, a qual ela não imagina, de forma alguma, como irá reagir às suas constantes tentativas de fazer-se agradável, talentosa, independente e boa filha.

Portanto, há sempre um choque com um muro que não a permite duvidar ou conhecer o que está do outro lado. Hilda nem mesmo saberia por onde começar a fazer as perguntas; e se as fizesse, provavelmente as faria errado. O pai de Hilda, tratado como um lugar, pode ser a síntese do éter.

A imponência da figura paterna, desenvolvida ao longo de ramificações extremamente intrincadas resultando em experiências que totalizam o conjunto do que é desconhecido por Hilda e que, alocadas na sua produção poética — objeto de estudo do texto —, são motivos de alguma criticidade ou tecnicismo por parte de estudiosos, curiosos e — possíveis — detratores da sua obra pela dubiedade ou pela admissão do total desconhecimento acerca dos termos. Tudo não passa de experiências sem respostas significativas no éter de Hilda.

“E se às vezes abrigo
Num caminhar rasteiro
As solidões alheias,
Às vezes vertical
Encontro aquele mundo
Que também é o da terra
Feérico e abismal.”

Talvez, para ilustrar de maneira prática o muro do desconhecido em Hilda, as experiências com a captação de vozes de mortos (ou do além-vida) — cujas ela garantia ouvir — durante seu longo período na Casa do Sol, foram, senão frustradas, irrisórias. Debruçada em Ernest Becker e em motivações científicas contestáveis, horas de gravação foram realizadas sem, basicamente, apresentarem qualquer resultado efetivo. Um território inexplorado que não permitiu à Hilda qualquer abertura ou contato com a realidade que, pretensiosamente, se apresentava do outro lado do muro, abandonando-a as próprias convicções, fortemente arraigadas no seu imaginário.

A captação do áudio das vozes que desafiavam a morte, mantendo-se inquietas ao redor da Casa do Sol, não é um viés poético prontamente explorado dentro de toda a obra poética de Hilda, apesar de ser um objeto de apontamento interessantíssimo para a constituição e continuidade da sua prosa cheia de personagens com múltiplas personalidades e extremamente multivocal. Porém, as tentativas de estabelecer comunicação, ou simplesmente ouvir espíritos, dão contornos iniciais à relação controversa de Hilda com a morte, uma das temáticas mais comoventes e contraditórias da poética hilstiana.

“Não temes
As deidades atentas da memória
Os gnomos secretos, a loucura,
A morte?”

 

Sensação de morte

A morte, fenômeno presente em qualquer registro de Hilda, ganha contornos um tanto particulares na sua poética. Se na dramaturgia existe um viés político evidente (Hilda compôs suas 8 peças entre 1968 e 1970, auge da ditadura no país, como forma de protesto e denúncia ao regime militar) e a morte, por consequência, ganha contornos políticos, violentos e definitivos bastante sólidos; ao longo da obra poética a morte aparece como sensação, pura e simplesmente.

Hilda desconhece as razões da morte e do post mortem para o indivíduo. Esse, portanto, é um espaço de não-dúvida que, logo, seria motivo da oscilação entre o encerramento das intermináveis dúvidas que não podem ser respondidas pelo corpo ou objeto de investigação para estabelecer a perfeição, o ideal do natural.

“Me fiz poeta
Porque à minha volta
Na humana ideia de um deus que não conheço,
A ti, morte, minha irmã,
Te vejo.”

O principal contato de Hilda com a sensação inescrupulosa da morte e a clarividência do seu total desconhecimento acerca do assunto parece ter sido a morte do pai, cujo ela dedica toda a obra em diversos depoimentos e entrevistas. Há, então, uma clara verossimilhança entre o desconhecido, espaço de não-dúvida, e a figura do pai. A reconstrução do pai como imagem e semelhança de todas as características do Deus rígido e exigente de provações e devoção, contribui para a construção do caminho que Hilda percorre para estimular-se nas várias tentativas de estabelecer algum nível de conhecimento acerca da “passagem”.

Se captado o viés existencialista do corpo, a morte aparece como espaço de não-dúvida absoluto e, não menos importante, como solução básica para interromper a profusão de questionamentos que rondam a vida de Hilda de maneira geral. Não há, de forma alguma, menção ao que acontece após a morte; os encaminhamentos do espírito, da alma e da matéria são irrelevantes. Como num jorro de certezas estabelecidas, a vontade de morrer é uma saída, uma desistência minimamente honrosa para uma vida regida pelo caos dos problemas criados pela própria poeta. Viver no éter seria uma opção minimamente plausível, desta forma. Sem demais explicações ou conhecimento agregado, as dúvidas estariam encerradas e, quem sabe, a mínima possibilidade de encontrar-se em estado de plenitude seria alcançada.

Com a figura do pai emulando o espaço do éter, sendo a síntese de tudo aquilo que Hilda jamais conseguiu compreender e conhecer em toda a sua profundidade, pode-se considerar que a morte também seria um lugar de encontro, mesmo quando elevado a contornos fantásticos, o que denota, ainda mais, o total desconhecimento de Hilda ante o fenômeno e/ou estado. Acreditar na morte como ponto final de todo e qualquer questionamento é tão surreal quanto desesperador, implicando em como o éter (ou o pai) é um lugar de fascínio (quase) absoluto para Hilda.

“O teu nascer constante
Traz castigo.
Os teus ressuscitares
Serão prantos.”

Conhecer ou tecer qualquer afirmação sobre o que está além da vida, além do corpo, torna-se uma regra e Hilda passa a dobrar, com o passar dos anos, sua produção poética para enaltecer essa busca inglória e infrutífera em termos práticos.

Diz-se que a poesia se faz do íntimo, das angústias e certezas carregadas pelo poeta, e, acaso for, Hilda materializou o eterno retorno de si mesma para esse lugar inóspito que é a morte. Não se trata apenas de desejo, desistência e/ou desapego mais; na medida em que a busca pelas figuras que atuam como verdadeiros fantasmas para a autora e a vida torna-se cada vez mais clara e inapelável, a morte torna-se direção obrigatória de tudo o que compõe.

Hilda escreve, portanto, mais para a morte que para a vida. Sempre como uma sensação latente, sempre como algo definitivo e indubitável. A morte, na poética hilstiana, é uma garantia de que todas as dúvidas e todo o universo desconhecido serão motivos de diálogo, repasse e busca de outrem.

“E te aspiro; te cubro de sussurros
Me colo extensa sobre tua cabeça
Morte, te tomo.

E num segundo
Ouvindo novamente os sons da vida
Nomes, latidos, passos
Morte, te esqueço.
E intensa me retorno sob o sol.”

 

Com meus olhos de cão

Acredito que não seria possível finalizar essa série sem dizer, da forma mais direta possível, o que tem sido o processo de mergulho na poesia de Hilda Hilst, que continua mesmo esse sendo o último texto da série Poesia do Lugar.

Num primeiro contato, extremamente formal e em buscas que me lideravam a uma primazia tecnicista e fórmica, fiquei extremamente frustrado, pois de inovação pouco se via. A apropriação de moldes antigos, alguns até contemporâneos à Hilda, mas em sua maioria datavam de épocas longínquas, que não me apeteciam num estudo que prometia ser incrível, talvez único, e me causaram dúvida e estranheza por diversos momentos.

O tempo, inexistente dentro de uma poesia tão à frente do seu próprio tempo, me fez observar que para qualquer trabalho competente no que tange à Hilda eu deveria estar completamente presente nos espaços que ela costumeiramente solicitava minha presença. Foram horas dedicadas a poucos versos, tropeções em desníveis de calçadas e trocas de pensamentos com estranhos que acreditavam que minhas declamações de improviso eram tentativas de puxar assunto.

Desde que finalmente compreendi que precisava estabelecer um diálogo integral com Hilda para poder dar cabo de um trabalho a tempo da Flip 2018, acabei esquecendo completamente do evento e retomando a vontade de pesquisar e penetrar em confins de uma compreensão mútua que eu jamais poderia imaginar que existisse, a não ser pela feitura de tal enlaçamento de angústias.

Naturalmente, as dúvidas de Hilda foram correspondidas pelas minhas próprias e o produto da pesquisa tornou-se uma perpetuação natural dos pontos em que discutimos e acreditamos serem essenciais, ou urgentes. Não acreditem que esse diálogo teve aspectos cordiais e pacíficos. Muito se discutiu, muito se brigou e ambos se obrigaram muitas das vezes. A partir do ganho de argumentos, a discussão passou a ser grandiloquente demais para ser amigável. Para que um fizesse o outro ceder ou arrefecer nos objetos de estudo, muitos processos foram necessários, quase todos indizíveis pela barbárie ou pela angústia que ainda tomam boa parte das sensações que sobem à garganta ou aos dedos ao citá-los.

 Como não pretendo fazer desse testemunho um diário das minhas experiências, prefiro encerrá-lo afirmando que a série Poesia do Lugar foi um objeto primário de um trabalho de pesquisa muito mais profundo e que sairá de alguma forma, em algum tempo, provavelmente quando eu estiver cansado de discutir com Hilda as questões que debatemos diariamente.

“Enquanto faço verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que o sangue não é teres o teu ouro
E o poeta diz: compra teu tempo
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.”

Ilustração-Hilda-Hilst-painel-principal

 

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