O corpo de Hilda em constante estado de dúvida

A associação do “limite da linguagem” — e consequente vivência — ao lugar convencionado como natural dentro da poética hilstiana é uma saída plausível para espaçamentos dialógicos e dialéticos apresentados por uma obra que evoca muito do íntimo sem que haja, necessariamente, uma descoberta ou um reconhecimento da plenitude do ser.

Para além da pretensa plenitude, estabelecida como intangível pelo ideal do natural em Hilda Hilst, o que pode ser individualizado e atribuído ao seu espaço corpóreo é o constante estado de dúvida — mesmo em momentos em que a autoafirmação (ou a autossuficiência) deveria ser condição sólida e/ou estabelecida no corpo habitado por Hilda —, necessária à continuidade de processos intrínsecos aos encaixes da autora com a realidade aparente — e vivida — oferecidos ao longo dos desejos e da incessante busca pelo ideal de perfeição inerente à razão da vida.

A dúvida, portanto, é uma constante universal para Hilda enquanto mulher, corpo estritamente mundano e preso a uma realidade regida por condições e convenções específicas; e, em absoluto, essa mesma dúvida é integrante do diálogo direto com a sua poesia já estabelecida, seja como imposição, como valoração, como sentido ou como simples repasse.

O corpo é, então, refém da dúvida:

“Antes as órbitas vazias!
Será eterno o júbilo de ter
Espátulas e nume
Nas mãos e no ser?”

O afastamento, deveras elástico, entre os dois lugares que Hilda habita e deseja habitar — o corpo e o natural respectivamente — dá-se pela criação de meios e esgotamento de alternativas constantes, em alternância desproporcional, que a elevariam a um ideal, tal considerado como objeto de desejo e, paradoxalmente, fonte de inspiração inesgotável. A unilateralidade intrínseca ao desejo como objeto cai por terra quando comparado à pluralidade vocal da poética hilstiana e as formas com que o ideal do natural é continuamente construído — e mistificado.

Enquanto capazes de serem respondidas, as dúvidas reduzem a distância entre os lugares e, de certa forma, as primeiras respostas rejuvenescem e revigoram a poeta. Por outro lado, os vazios da busca, as respostas não encontradas e as fundamentações perecíveis ou não comprovadas aumentam o afastamento entre os lugares e o corpo fica, mais uma vez, relegado a uma quase solidão, incomunicável, inexpressivo, enfastiado e saturado.

Desdizendo todo e qualquer ideal de beleza e/ou elevação que pudesse ser retirado de sua obra, Hilda flerta com a condição inescapável de viver sem conseguir ver em foro íntimo, irrompendo no exercício da escrita como catarse de sua condição, a definição de uma rota de fuga ou qualquer recurso que a impeça de aceitar imediatamente a realidade dolorosa e perene, colocando-a em condição de aceitação paulatina ou, talvez, o simples oferecimento do alívio imediato quando o ideal intangível de perfeição é posto às claras de maneira crua.

A relação de afastamento entre os lugares denota, diametralmente, uma mulher demasiado humana em vontade e potência poéticas:

“Contente de mim mesma me inauguro sonora.

Se é preciso parar, colher raízes
Rememorar as sagas e ao lembrá-las
Imaginar um gesto, vado e vaga,
É preciso também
Um riso aberto e claro e cristalino.
E retomando o caminho da rosa
De órbita ilimitada mas fremosa
Me vejo em penitência, brasa e espinho.”

A vertigem do natural, eliminada prontamente pela assimilação física do corpo, expõe à poética de Hilda Hilst a racionalidade exacerbada, resposta a toda e qualquer dúvida acerca da própria falibilidade até trazê-la ao estado de enfado extremo. O polo inverso, carregado com as dores e decepções do mundo, manifesta em resposta a todo e qualquer desejo o estado alarmante de desterro, relacionado à sensação da erradicação das boas vontades e premissas; e talvez seja a razão para a exsudação do famoso viés existencialista adotado pela autora como forma de potencializar e transferir para a poética que desenvolveu ao longo da vida o descrédito da mulher acerca da própria realidade, da vida e seus mistérios como um todo:

“Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.”

Sendo um extremo do corpo, no sistema elástico de aproximação do intangível idealizado no espaço que abarca esse texto (e que talvez dialogue com o espaço criado pela poética hilstiana), a desistência declarada da busca, da aceitação de que não haverá o saneamento completo de toda e qualquer dúvida, pode-se concluir então, que este é o estabelecimento da forma mais evidente de profanar o que é considerado perfeito (e/ou ideal) — e, por seguimento, sagrado — pela autora. Desenvolve-se, assim, o profano na poética hilstiana.

O profano em Hilda Hilst é tudo aquilo que está deslocado do ideal hilstiano de perfeição e, consequentemente, sagrado, inamovível por vontade e força humanas, natural. A dúvida, portanto, é tão profana quanto à desistência do ato de duvidar.

Se toda dúvida é profana, a obra de Hilda Hilst tem aberto um prisma muito maior do que o dual outrora caracterizado por uma crítica condescendente e bastante relutante em aprofundar-se no espaço criado por sua poética. Por todos os caminhos enveredados pela poeta ao longo de sua produção, residências e serviço referencial dentro da literatura, há o profano como base instintiva, demasiado humana, de apontar caminhos e arregimentar possíveis respostas, sinceras ou não, até a aproximação tênue com o ideal de vida. O que dá base para afirmar o profano como um procedimento inerente à existência do corpo, não sendo posto à luz de julgamentos pré-concebidos sobre a valoração do que é necessariamente “profanar”, como ato contínuo no tempo, algum monumento ou instituição acadêmica ou culturalmente reconhecida. O corpo é profano enquanto existe:

“Se o que vos guia é a fala de um poeta
Há muitos entre nós. E procuraram
O todo uniforme: hálito, sudário
E o mais além do homem.
Iguais a vós, a nós nos encontraram.
Eram velozes e límpidos. Asas
Nos pés humanos e por isso frágeis.”

A divisão da condição profana da sua existência pela experiência de residência na Casa do Sol valora e coletiviza a razão do ser e estar num recorte espacial específico e condiciona toda e qualquer experimentação, traduzida em literatura ou não, num exercício fulguroso de transpor a latência do corpo.

A peregrinação de Hilda em busca de um ideal de vida que a realize, capaz de sanar todas as suas dúvidas, a levam para descobertas contrárias ao conhecimento de tudo, à dissolução do mistério da vida em detrimento da ignorância de todo um processo correspondente ao da busca. Suas experiências a lideraram a lugares diferentes, tangenciais ao corpo e ao natural simultaneamente, porém esse é um aspecto a ser mais bem tratado em outra oportunidade. O ponto primordial e que engrandece a posição de Hilda ante o espaço que habita na realidade aparente — ou comum — e a transporta, dentro do espaçamento elástico entre os lugares (natural e corpo) para perto do ideal, da perfeição, é quando Hilda se sujeita a versões animalescas e irracionais de si mesma e expõem-nas de alguma maneira.

A entrega desmensurada a uma paixão arrebatadora, aos prazeres de uma vida simples, ao sexo como ato de libertação e/ou consumação da união, a decepção, a breve sensação de proximidade para com as respostas procuradas, a traição, o abandono e outras manifestações que, sem exceção, antes de serem racionalizadas, foram devidamente sentidas e escritas, esbarrando sempre no seu “limite da linguagem” antes de alcançar todas as respostas necessárias.

A aproximação com o universo de Beckett, criador do teatro do absurdo, é um facilitador para que seja possível algum entendimento do que é, necessariamente, a questão animalesca e/ou instintiva para o corpo. A aproximação do ideal, mesmo tendo a perfeita noção da sua intangibilidade.

Porém, na poesia de Hilda Hilst acompanhada como um bloco sólido e atemporal, a questão animalesca do homem é a total subversão do que é profano, já que esta não produz dúvida ou não é capaz de produzi-la. O animal sente, reage e, por isso, existe perfeitamente. É impossível posicionar-se em equidade ou tentar, por qualquer linha de pensamento comparado, alcançar algo que não é inato, perfeito e, logicamente, natural.

A ideia de que o homem será tão livre quanto um pássaro, por exemplo, assume a condição do ridículo quando realmente se acredita na mínima possibilidade de sê-lo, algo que o corpo profano em Hilda Hilst jamais poderia atingir e sabe disso. A vontade de ser livre como um pássaro é comum a todo e qualquer um, a busca natural por tal liberdade também é força motriz para o corpo sobrevivente à realidade mundana e áspera, mas a capacidade de satisfazer essa vontade esbarra na dramaturgia do absurdo de Beckett e, mais ainda, nas dúvidas permanentes da poética hilstiana, dilacerando quaisquer esperanças e enterrando todo princípio de realização e/ou encantamento e/ou vislumbre de transpor a própria condição para algo reconhecidamente perfeito:

“Ai de nós, peregrinos,
Antes do amanhecer
Sonhando eternidades!
Não é nosso destino
De amar e florescer.
Antes vertiginosos
Tateamos na sombra
A laje dos abismos.
E uma vez lacerados
Queremos a montanha.
Seu arco-íris. Seus lagos.”

A circunvolução entre o descobrimento e aceitação das possibilidades que o corpo oferece e o desamparo do quão limitadas são as possibilidades anteriormente visadas é ato contínuo e persecutório à obra da autora durante toda a vida, chegando a alternâncias imediatas, bruscas e, justamente por isso, extremamente verdadeiras, de verso em verso, palavra por palavra.

Ao assumir que a dúvida é profana em qualquer circunstância e condicionar a própria vida a duvidar das mais diversas convenções possíveis e imagináveis, inclusive nas formas poéticas copiadas e modificadas por puro preciosismo e, quem sabe, descuido proposital, Hilda aceita que o natural nunca chegará, mas que a benesse da dúvida, da possibilidade de desvendar um pequeno pedaço do que é a vida em sua totalidade imensurável, é maior que o próprio ideal de perfeição traçado e perseguido.

Correndo os riscos de nunca chegar a lugar algum, Hilda fez da sua existência um grande espelho da humanidade, profana como só ela foi capaz de ser. Talvez, a grande verdade, o grande bem tangível que o ser humano possa fazer num mundo que sofre com o descrédito contínuo e irrecuperável, seja reconhecer sua condição e apontar caminhos para tentar refazê-la de modo a procurar a razão da própria existência, de um lúdico intangível, porém transgressor e norte de toda boa vontade, mesmo que as condições não permitam que a essência esteja visível ao próprio indivíduo:

“Pesa sobre nós
O limite da carne.

O pensamento
Discursivo e lento.

Em nós
Corpóreos e pequenos
A fúria da vontade
E as mil abstrações

No amor e na verdade.

Nem sabemos por que
Construímos e amamos.

Mutáveis, imperfeitos
O mundo nos oprime

E nos comprime o peito.”

O corpo, prova Hilda, é perecível; e tão diferente das dúvidas, mesmo as mais profanas, que permanecem.

Ilustração-Hilda-Hilst-painel-principal

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