O natural na poética hilstiana

De tudo o que comove em Hilda Hilst, aglutinando a larga produção poética à constituição permanente da sua personalidade e as páginas escritas à materialização das extensões bem construídas de um corpo que ao envelhecer tenta ser feito eterno, a constante disposição de cenários ideais em conflito direto com as incertezas da existência a empurram para definições limítrofes, tendendo às duas pontas do Ouroboros que é a vida: o real e o abstrato. Como limite, ou tendência a romper laços com o tempo como instituição — ora humana, ora divina, ora mítica —, a poética de Hilda Hilst é uma retroalimentação do caos que dispensa, efetivamente, subterfúgios que continuamente a designam como hermética e/ou dual tão somente. Ao acompanhar a poética da autora ao longo de quarenta e cinco anos de produção contínua, pode-se afirmar que o prisma aberto por Hilda em relação à variedade das temáticas que aborda na sua poética, também devido ao seu interesse natural por diferentes áreas do conhecimento, é pradaria tão vasta quanto os olhos podem alcançar.

Como leitora ávida e atenta Hilda Hilst jamais deixou passar em branco, quaisquer fossem suas leituras, a construção crítica — pelo jugo ou pela elevação dos níveis constituintes da narrativa — do objeto, da linguagem e seus desdobramentos. Porém, exercer a função de poeta tende a colocar em xeque as amabilidades e incongruências da existência, afetando de forma inexorável a linguagem e, consequentemente, as próprias convicções.

Hilda reconhecidamente tenta corrigir-se ou esticar o que pode ser definido como seu “limite da linguagem” ao longo da sua produção poética. O exercício quase compulsório de ler como rotina (a autora costumava dedicar metade do dia à leitura, em média) manifesta a idealização de novos arranjos possíveis entre temática, palavra e construção da linguagem.

Nascida em Jaú (SP) e já adulta — e escritora por ofício — vivendo na Casa do Sol, no interior de Campinas (SP), até o fim de sua vida, Hilda Hilst possui uma conexão particularmente tocante com a natureza e seus constituintes, principalmente os que constituem a visão do campo, da vida interiorana, talvez sertaneja. A presença atuante da memória de seu pai, Apolônio de Almeida Prado Hilst, também poeta e objeto de admiração e inspiração constantes para a autora, a faz refletir — ou regredir — ao campo com uma inclinação à purificação e liberdade únicas na poética que desenvolveu durante toda a vida, flertando constantemente com elementos cujas imagens beiram o sagrado, o místico ou o ininteligível; basicamente incapazes de coexistir com o mundo como ele o é — ou como ela o reconheceu enquanto frequentadora assídua dos círculos sociais das metrópoles que fizeram parte da sua juventude, nas incursões pelas altas sociedades paulista e europeia de maneira geral.

A vida campal não comunga com uma tomada de posição frugal na poética desenvolvida ao longo da vida da escritora, muito pelo contrário. O estabelecimento da relação de Hilda Hilst com o campo é, sobretudo, catarse em forma a, quem sabe, ultrapassar o viés aristotélico de purificação através da arte. É no campo que Hilda Hilst exacerba o mundo como este é reconhecido e esbarra no seu dito “limite da linguagem”, para depois utilizá-lo como imagem do que não lhe é possível definir com simples associações ao estritamente humano. Há, portanto, uma admissão da insuficiência de “imagens interamente humanas” para a criação poética que a desloca e capacita, cada vez mais, a habitar o caos que lhe é tão identitário e característico; e assim transgredir os sentidos conhecidos como realidade pela poeta.

Do barro ao vento, toda a naturalidade e aquilo que é intocado — e/ou imutável — por mãos humanas são incompreensíveis de imediato pela linguagem comum a Hilda, logo, são intraduzíveis. Tornam-se, portanto, objetos de purificação, afetação e querência por parte da autora, que tende a revelar-se no âmago, num princípio de honestidade e, consequentemente, angústia:

“Distorço-me na massa
De uma argila sem cor
Mil vezes me refaço
E me recrio em dor.”

Se “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, tem-se assim, no natural, mais precisamente nesse ambiente campal, a primeira pista do lugar habitado pela poética de Hilda Hilst.

Com os limites da linguagem na poética de Hilda Hilst estabelecidos num lugar e intrinsecamente relacionados ao ideal de purificação e liberdade inerentes ao ambiente aqui chamado de natural, quando intocado — ou intocável — pelo homem numa mistura de anseio e catarse, tanto os fenômenos quanto os objetos são referenciais de pensamento e estruturação narrativa, construindo pontos de chegada que não são passíveis de serem observados como objetos de conhecimento pleno ou de experiência concreta para o receptor como o são para a interlocutora em questão.

Todo conhecimento travado ao longo dos desdobramentos do intangível dentro da poesia de Hilda Hilst é, basicamente, empírico. Para o entendimento da poética de Hilda Hilst, ou melhor, para comunicar-se com a obra poética dela, os olhares devem estar virados para além do que pode ser considerado imediatamente sólido e/ou performado pelo leitor. O empírico, o experimental e, principalmente, o que foge à compreensão dos sentidos de purificação e liberdade — em se tratando do natural — dados pela vivência e os aspectos morais incutidos nos diversos ambientes pelos quais a autora circunda, literários ou não, são necessários para o estabelecimento do diálogo e, talvez, alguma compreensão acerca da obra.

Ilustra+º+úo-Hilda-Hilst-painel-animais

Muitas buscas circulam e definem o desempenho de Hilda como poeta; buscas que podem desvia-la, por fim, da purificação — e consequente estágio de liberdade — proporcionada pelas demandas do exercício da função. A recorrência ao objeto, ao natural, acontece por diferentes aspectos e necessidades, mas em geral tendem a exprimir ideias que esbarram na falta de expertise no convívio social para defini-los. O exercício que tende à catarse, à purificação, proporcionado pelo esforço de transpor a imagem idealizada em poesia escrita, concreta, esbarra na barreira imposta pela limitação da linguagem.

É, num primeiro momento, a descoberta de um processo sagrado — ou místico — que, se misturado às oscilações acerca da própria religiosidade, pode ser levado em conta como manifestação de um processo divino, levado a cabo por forças atuantes maiores e desproporcionais ao tamanho da Hilda humana, limitada.

A primeira fase da purificação é célere e exige uma rigidez um tanto impraticável para que seja terminantemente cumprida; assim, sangrias desatadas e reviravoltas passariam a não habitar a poética de Hilda como meras casualidades ou a serem observadas como outros caminhos possíveis senão a busca pelo natural, puro e livre, sem relativizações. Há de se extirpar urgentemente tudo o que atua como impeditivo à pureza no ser poético, forçando a percepção e recepção do divino sem que este seja absolutamente entendido — se é que pode sê-lo.

A primeira clarividência, reveladora do divino inédito, posiciona o referencial do natural em Hilda Hilst como uma aproximação da experiência divino-sagrada-mística que é escrever como exercício doutrinário e regular, apesar de tê-la guiado à catarse. Há, portanto, o envolvimento direto da obsessão pela literatura como um todo — o exercício da leitura, da escrita e da crítica habituais — com a inspiração da autora, que dá forma e define fases específicas de sua obra poética.

A ambiguidade do primeiro caminho tomado pelo natural em Hilda Hilst transborda em níveis paritários à força em que os chamados “constituintes do natural” recebem em relação ao sentido e/ou função poética, atuando como antíteses ou símbolos que combatem o que ainda lhe é impuro ou demasiado humano:

“Um pouco do divino estava em nós.
Descobri-lo foi antes debruçar-se
Descer pausada sem tocar rochedos
Água de um mar imerso mas guardado
Sob um caudal de lírios e medos.”

Ainda sofrendo os efeitos do rompimento com a realidade ao exercer a função de artista e dando início à travessia para um plano em que a catarse a conecte a símbolos e sensações tão significativos quanto o natural dentro das rememorações e atribuições ao conceito de pureza e perfeição na poética de Hilda Hilst, existe o ínterim que dificulta a passagem, prendendo-a, ainda, a realidade abissal do mundano, do tangível e reconhecido abertamente pela poesia de Hilda como não sendo o objeto da sua busca. Sensações e constituintes que, de tão reais, transformam-se em limitantes naturais do novo, da vida e, consequentemente, da linguagem.

O rompimento com a realidade, a abertura da fenda no tempo-espaço como objeto de criação, não é um processo facilitado pelo costume ou prática, muito menos é algo corriqueiro ao longo de uma linha cronológica. Cada criação explora novos limites e é acrescida do que é descoberto, ou não, pela artista — tratando-se unicamente de Hilda Hilst, caso desse texto. A insistência para com o rompimento absoluto entre artista e a fórmula tempo x espaço não é, absolutamente, uma maneira de tentar complicar as coisas para além do que pode ser explicável e mantê-las longe de qualquer luz que já não seja o reproduzido pelo meio.

A priori, o exercício do rompimento com as barreiras da realidade funciona como meio de alcançar nuances que permitam o enfrentamento ao senso comum, não definindo, por exemplo, o trabalho poético de toda uma vida como sendo a “poética do duplo”, ou uma obra hermética demais para ser traduzível para o grande público. Desta forma, as incursões de Hilda Hilst pelo indizível poético estão mais para a exposição e tentativa da resolução dos limites impostos a ela pela própria linguagem e vivência do que a manifestação de um cerco à sua própria condição.

A insistência em tentar transformar sua obra num universo tão explícito e venal ao longo da vida é admitir que, efetivamente, parte do público consumidor seria capaz de entendê-la ou, ao menos, de comunicar-se dentro de alguma razoabilidade com a autora, captando miudezas e minúcias dentro dos registros e identificando sua personalidade como um todo.

As limitações de Hilda Hilst são expressas dentro do contexto que mistura imagem, desejo e memória para levá-la ao que pode ser tomado como perfeição, o que é intangível pelo mundano e, consequentemente, pelo humano — dentro de uma linha de raciocínio voltada para dentro da sua poética. É interessante que, ao chegar até Hilda, se estabeleça a comunicação entre poesia e o discurso íntimo da autora, com certa mobilidade por parte do leitor.

O rompimento da realidade pela arte não é, definitivamente, um movimento solitário ou um ato especialmente direcionado. A identificação mútua é capaz de entregar significados possíveis, ou concretos, ao escrito e performado; e esta é, senão a única, a principal maneira de habitar o eterno:

“E contudo o que mais somos
São estes sonhos
Adentros indevassáveis
Bosques
Lilazes
Caminhos levando ao mar
Aves
Aves”

O texto discorre sobre as imagens transcritas pelo natural na produção poética da autora, que habitam lugares inatingíveis pelo “humano, demasiado humano” no que tange ao ideal proporcionado por tais imagens. Assim, há o estabelecimento de uma relação intrínseca entre os principais conceitos que dão sentido ao natural em Hilda Hilst com o desejo, a ambição de estar apta a viver com base no que é idealizado. O desejo, atuante como instituição da potência imposta à poética, é validado pelo conjunto de vontades largamente expressas na poesia de Hilda Hilst.

Os constituintes do desejo estão intimamente ligados a sensações, comportamentos e atribuições morais, aparentemente impraticáveis na realidade aparente, no plano em que Hilda se situa como reles humana com intenção pura e simples de transpor os limites da existência.

A limitação da realidade comum à Hilda tende a ser tão opressora e presente que, por inúmeras vezes, nota-se a recorrência do desejo por questões simples e, teoricamente, inatas ao homem. Caso da liberdade de expressão e a condição de ser reconhecida — em múltiplos aspectos — por falar o que desejava através das múltiplas artes que praticou durante a vida, sem julgamentos ou distorções ao que foi literalmente dito.

A poética de Hilda Hilst é feita de transições, e em todas elas existe o desejo manifesto de condições simples às liberdades plenas do ser e estar. Porém, essa liberdade só é plena quando transposta para o plano natural, já que não é reconhecida pela autora na realidade aparente, aquela em que divide e vivencia o mundano, demasiado humana. A literatura funciona, portanto, como portal entre realidades e cinge as barreiras do praticado e do ideal como reivindicação e/ou atestado da própria condição:

“Clarividente que sou
Nem é preciso um poente
Rico de prismas e cores
Nem cordeiros azulados
Nem inéditos langores
Nem begônias no meu prado

Canto o que vejo mas antes
Canto o que a alma deseja.”

Se aberta a possibilidade de ir ao encontro das realidades, vivida e idealizada, de Hilda Hilst e reivindicar espaço ou queixar-se das liberdades não praticadas, também há o desejo manifesto por um ideal de vida, parcial-mas-quase-completamente encontrado na Casa do Sol, sua última (e longeva) morada.

A tendência à margem da autora é um padrão constantemente repetido na sua fala e modo de viver. Apesar de reivindicar espaços no mercado editorial, Hilda Hilst jamais fez força suficiente para ser parte dele para além da sua obra pornográfica, já numa fase tardia da sua carreira e que, inclusive, foi um tiro comercialmente certeiro, apesar de polêmico.

Sua revelia ao mercado editorial, a escolha abrupta em viver fora de qualquer centro comercial e estabelecer um padrão de vida simples, baseado na troca de experiências com residentes da Casa do Sol e a dedicação integral às artes — e ciências — em todas as formas possíveis — principalmente à literatura, claro — é, de certa forma, a execução de um desejo baseado num ideal de vida que também está situado no contato iminente com o natural no desenvolvimento da sua poética. A inclinação ao que o periférico oferece como ideal, a aproximação do desejo que a vida à margem e a rememoração do campo proporcionam à autora, serve a uma ideia que extrapola a própria vida.

Esse extrapolar da vida não é encarado somente como morte terrena, mas é factível, por exemplo, como visualização de novos planos habitáveis ao alcance de Hilda no momento, no tempo presente. Além da morte, o ambiente criado pelo sonho é um exemplo dessa transposição de lugares, atuante como elemento que cede à ambiguidade natural na poesia de Hilda e rompe com a realidade mundana de outrora:

“Ramas nas margens do rio que me pretendo
E entre o rio e regato, prodigiosa e leve
Levo no meu leito mais auroras.”

Assim, o processo para que o natural seja um lugar maior que as meras referências à fauna e flora ou alegorias oportunas num certame tecnicamente poético, acaba por evidenciar traços que acompanham Hilda Hilst no seu íntimo e que dependem de um diálogo particular, único, com a autora para que sejam suscitados à luz das discussões possíveis. O leitor passa a ser mais que um consumidor de literatura, um receptor e acumulador de informação. Na verdade, o leitor é convidado a dialogar em universos que excedem e se adequam, nas mais diferentes formulações, à sua própria realidade.

Hilda Hilst é incapaz de se mostrar onipotente como escritora, inclusive encontrando soluções para tudo que lhe fora limitante diante de uma vida dedicada à literatura, de maneira geral. Das vontades animalescas, quando se debruçou sobre Beckett, à busca por um sentido de vida, sempre acompanhada por Joyce (Ulysses era seu livro de cabeceira), o natural na sua atividade poética é uma marca presente e que expõe boa parte do diálogo que Hilda gostaria de ter — e decerto teve ao longo da vida na Casa do Sol — e se propôs a expô-lo amplamente ao se permitir publicar, mesmo que pela periferia editorial.

As décadas de contínua produção poética não arrefeceram sua sede por respostas, muito menos ofereceram alívio à busca. Por isso, mesmo com certo amadurecimento e a demonstração de notório estudo e retrabalho no uso da linguagem, ainda existe algo de incompreensível e intangível nas deliberações propostas por Hilda:

“O cavalo no vale
E mais além
O meu olhar mais verde que o vale
E claro de esperança
E querer bem.

O vento no capim
O vermelho cansado deste outono
O roseirais em mim
E tudo me parece
Tão tranquilo e leve

E com muito cuidado
Como quem tem na mão a flor e o quadro

Espero a paisagem desta tarde

Adormeça
O cavalo no vale
O vento no capim
Os roseirais em mim.”

E, talvez, aí esteja o admirável de toda uma obra: o reconhecimento dos próprios limites e a façanha de transferi-los ignorando o tempo x espaço, fazendo da busca um lugar próprio; e eterno.

Ilustração-Hilda-Hilst-painel-principal

Um comentário em “O natural na poética hilstiana

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: