A tragédia enquanto busca é catarse, a satisfação é o fim

O homem tem um fim em si mesmo. Não deveria ser possível atribuir valor ou preço ao homem como a um produto manufaturado ou subverter sua mão-de-obra a algo meramente consumível. Tampouco deveria ser dada ao homem a importância de algo intangível ou fora da realidade comum (até porque isso seria atribuir valor de uma forma ou de outra). Com base nessa ideia, dentro das leis universais que regem a natureza e o bom senso de cada um, o homem por si só seria suficiente para conduzir os conceitos de harmonia coletiva e paz entre as nações através da força da razão. O julgamento da razão sempre pende para o certo, e o certo é, racionalmente, comum a todos. Valorar a razão do homem, intuí-lo a efetivamente trocar ações por indultos, é colocá-lo numa rede de mentiras nefasta.

A razão, propriamente dita, é capaz de elevar o homem ao seu potencial máximo sem que este precise prová-lo. Ninguém é incapaz. Ninguém é pior que ninguém. Todos têm a mesma capacidade de discernimento e evolução. Repita as três últimas frases diante do espelho todo dia ao acordar e, quem sabe, o mantra funcione. Mas, enquanto o mundo não imprime as forças geradas pelo pensamento positivo, o imponderável da natureza humana, infelizmente, continua a atuar e é predominantemente sarcástico ao tratar da condição do homem, fazendo-o miseravelmente falho na sua busca por respostas absolutas.

Toda tentativa de coletivizar a forma de viver aproxima, querendo ou não, o humano de seu destino fatídico — que em nada tem a ver com morte individual, pura e simplesmente. A morte é o destino natural do homem, sua única e inefável certeza. Certezas absolutas são lúdicas por si só, talvez por isso a morte desperte tantos rituais, mitos e concepções para além do conhecimento adquirido até aqui pela humanidade. O fatídico, na verdade, encontra-se perdido na tendência do homem em buscar sua própria extinção quando acredita deter por completo a razão, ignorando tanto as sensações e percepções intuitivas quanto a sua capacidade de observação e análise do meio que habita.

Desta forma, a humanidade vive um eterno jogo de cama de gato entre formas de elucidar o consciente coletivo sem torná-lo maior que o indivíduo e vice-versa. É um equilíbrio que até hoje não foi encontrado. Culturas sobrepujam culturas sem que uma solução razoável seja alcançada, ou — apesar de teorizada — posta em prática com sucesso absoluto.

Talvez seja por isso que em Cama de Gato Jonah está tão empenhado em buscar os relatos de pessoas ligadas, direta ou indiretamente, a produção das primeiras bombas atômicas no exato momento de seu lançamento. Dias como esses são dias que marcam a humanidade ao aproximar o homem do seu destino fatídico, quando, mais uma vez, uma cultura simbolicamente sobrepuja outra como num jogo, sem deixar evidentes os efeitos dos meios pelo qual a vitória — ou a sobreposição — foi conquistada. O custo do ideal de perfeição é a extinção, então para que uma nova cultura — perfeita — prevaleça, a anterior deve ser extinta. A bomba atômica foi, de fato, o marco e a passagem de bastão para o poderio ocidental liderado pelos EUA que se estende até agora — e que logo será sobrepujado por outra força que dará ao mundo uma nova maneira, mais eficiente, de alcançar o bem-estar coletivo (ou a perfeição).

A construção da sociedade, e da própria cultura que deve se colocar em constante desenvolvimento, é, sobretudo, uma constatação traçada por algo conhecido como “pacto fáustico” dentro da sua sorte de interpretações e subjetividades. Ao tentar demover a tragédia do homem, constituindo uma humanidade plena, autossuficiente e satisfeita, esta tende a ruir sob os ruídos da própria plenitude. É a consumação do trato entre o histriônico Mefistófeles e o descreditado Fausto que se materializa dentro da coletividade.

É por isso que os relatos dos filhos de Felix Hoenikker, criador da bomba atômica, aquele dia terrível para a história da humanidade não suscita memórias relevantes ou significa tanta coisa assim. Os filhos do dr. Hoenikker podem servir como amostragem da sociedade americana como a nova ordem que se dispunha a tomar o lugar da perfeição, a nova sociedade disposta a ascender até o limite e, fatalmente, ruir — como é possível observar agora. A cama de gato que o próprio Felix Hoenikker, mais preocupado com a boa execução da bomba atômica como projeto que com o custo que seu excelente trabalho cobraria após executada a ordem de lançamento, tenta induzir seu filho a brincar é a mesma cama de gato em que a humanidade se entretém. Destruir para construir, num ciclo que, indefinidamente, revela ao homem o objetivo-fim da sua existência e o custo da perfeição: a extinção.

Se a razão leva ao homem o exercício máximo de sua capacidade intelectual de forma natural, é óbvio que a mesma razão o destitui de suas crenças e, logo, da maior parte da cultura criada e praticada até o presente momento pela humanidade. O domínio sobre a arte, por exemplo, um quadro, quando não é suscetível a um julgamento que esteja tecnicamente à luz da razão, perde valor, às vezes sendo reconhecido tempos depois por outras formulações estéticas vigentes. O problema da arte — e de qualquer manifestação cultural — é ser, justamente, criada por fatores que fogem ao tecnicismo racional, a não ser que exista um conceito estético para a modelagem da razão. Seria possível, então, existir cultura, como conceito amplo, dentro de uma sociedade que se considera absolutamente racional? Teoricamente, sim, mas apenas se — estejam atentos — a sociedade adotasse um conceito estético para tais expressões. Isto é, o próprio conceito de razão é maleável e regido por convenções quando se trata do coletivo. Portanto, a cultura, além de identidade, serve como conforto; e o conforto, tido por belo, transforma a identidade em devoção num estado de comoção tal que subjuga a força da razão, ou como bem dita por André Breton: “A beleza será convulsiva ou não será”.

Aqui está o grande ponto de Kurt Vonnegut em Cama de Gato: formas de governo coletivas tendem a ser totalitárias e:

  • Excluem e criminalizam completamente expressões culturais como, no caso do bokononismo, a religião;
  • Ou tratam a mitologia religiosa como algo material e factível, sendo parte intrínseca da formação e da caracterização do ideal de bem-estar do consciente coletivo.

Assim, mesmo a ciência em toda a probidade do seu tecnicismo, também está inserida num movimento de convulsão coletiva em grupos que prontamente refutam quaisquer experiências empíricas em detrimento de qualquer estudo científico quando este, por sua vez, mostra-se equivocado em diversos pontos. A ciência é um constante exercício de refutação e desprendimento, aliás. O cientista Felix Hoenikker, uma mente puramente científica, tem muito em comum com Bokonon, um homem que continuamente constrói sua própria fé e séquito de seguidores: ambos encaminham-se para o destino fatídico do homem, aqui representado pelo poder de destruição do gelo-nove [Ice-9 seria um grande nome para começar uma carreira no rap, inclusive (fica a dica)], criação e herança de Hoenikker para o mundo e distribuído entre seus três filhos.

A fundação de San Lorenzo como nação está baseada nos princípios do bokononismo, uma religião constituída por pequenas mentiras (fomas) que não fazem mal a ninguém. Sua posterior proibição por uma nova ordem, agora católica, subjuga a população a uma divisão involuntária, mas que deve ser rapidamente representada dentro da esfera social: uma parte da sociedade omite a prática religiosa por medo do gancho (praticantes do bokononismo eram executados permanecendo pendurados por um gancho até a morte), mas, com a opressão por parte do estado e o contínuo estado de pobreza, o exercício da fé acaba sendo intensificado a ponto do exercício da razão ser completamente destituído de valor; a outra parte da sociedade se coloca terminantemente contra a religião e à menor ideia da prática já suscita reações desproporcionais, liderando movimentos contrários ao ideal religioso regional, substituindo sua crença por outra, maior e mais “tradicional”.

A fundamentação do bokononismo explicita essa corrente de pensamento de uma forma leve, engraçada e madura. As leves mentiras que não ferem ninguém refreiam as vicissitudes da busca pela razão e permitem ao praticante se relegar a um lugar comum de conforto, expondo o poder convulsivo da beleza como uma espécie de ópio e resistência ao entendimento pleno, porém, não criminalizando a prática, muito pelo contrário. A zona de conforto da religião é, senão uma garantia de boa vida, um caminho razoável a ser seguido. Afinal, pra quem tem fé a vida nunca tem fim, muito menos a busca (valeu, O Rappa). E, sinceramente, a razão não é nada bonita, quiçá atrativa. Os fomas de Bokonon são muito mais legais.

Apesar do jogo de cartas marcadas descoberto ao final da trama quando o homem aceita seu objetivo-fim e entende seu destino fatídico, utilizando-se do artifício letal que tinha em mãos para extinguir a pequena ilha de San Lorenzo do mapa definitivamente, Kurt Vonnegut faz proposições interessantíssimas sobre o vazio do momento de entendimento completo e o desprendimento da busca que demove o homem de qualquer sentimentalismo e/ou escrúpulo que o define e impute valor durante a vida. A tragédia se vista pelo homem em busca, é catarse; se vista pelo homem satisfeito, é o fim. A razão, finalmente, só é possível através do indivíduo. E, se o fim é solitário, porque valeria à pena tanto esforço coletivo? O mundo está entre Fausto e Bokonon e, à luz da razão, talvez não seja tão interessante estar próximo a qualquer um dos dois sabendo que o fim é o mesmo. E vazio.

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