Ivan Gontchárov – Oblómov

Por Caio Lima

A perfeição é a mais sincera das imperfeições. É bom começar textos com clichês. Clichês trazem segurança, atuam como um mea culpa para a preguiça e, como se não bastasse, são uma maneira sincera de alfinetar e expor ao ridículo outras linhas de pensamento, como se assumir posições fosse tão somente uma questão de se colocar na situação do próximo e tudo bem, assim caminha a humanidade. Aliás, a vida seria mais simples se assim fosse: tomar partido de uma condição A, sem objeções, questionamentos e debates seria suficiente, já que o posicionamento é tão cheio de si que é capaz de cobrir as lacunas que foram deixadas para trás, o que explica a particularidade, efemeridade e intransigência por um foro íntimo dúbio, que dá rasantes na superfície da mentira e do desconhecimento de causa.

Em se tratando de desconhecimento de causa, o comodismo e a facilidade com que certas condições são aceitas incomoda. O mundo imutável e intocável do cânone da literatura tem o péssimo costume de “passar o pano” para autores que afirmam e reafirmam em suas obras uma visão equivocada de realidades alheias ou a sua total falta de entendimento acerca de certas esferas, e, naturalmente, tal comportamento acaba por atingir a grande maioria das partes que produzem e mercantilizam literatura mundo afora. Não que seja obrigatório o autor fazer um workshop numa favela para escrever um romance que gire em torno daquela realidade específica. É ter o trabalho de entender aquela realidade e, mais importante, saber criar sobre uma perspectiva de realidade compartilhada por milhares de pessoas. É o que acontece com o trecho final — as últimas 150 páginas, talvez — de Oblómov: falta vivência.

O protagonista, nobre por herança, se vê às voltas com dívidas e rendimentos cada vez menores, se definindo como incapaz de reagir e tomar decisões para que suas propriedades voltem a produzir e consequentemente gerar a riqueza de outrora. Assim há uma conformidade e uma acepção instantâneas de medidas inesperadas, porém previsíveis. Uma dessas medidas, talvez a mais radical, é mudar-se para a parte pobre da cidade e acostumar-se a uma forma mundana de vida, cheia de privações e malabarismos financeiros. O ponto é: enquanto o protagonista se acostuma à condição e comete enganos, confundindo as realidades passada e presente a fim de manter certas regalias, o autor ainda investe na construção do núcleo pobre da cidade; depois da aceitação, quando o protagonista admite a perda da nobreza e de tudo que a envolve, e se conforma com a realidade presente, o autor troca o foco narrativo e se volta de novo à nobreza, esquecendo-se do próprio — e brilhante — protagonista.

Não é exclusividade de Oblómov, a obra, ou, melhor dizendo, de Ivan Gontchárov, seu autor, o impulso de preservar a narrativa dentro de uma realidade conhecida e vivenciada, atuando mais com conforto e segurança que com desprendimento, dados de pesquisa e, porque não, inventividade. O custo de manter-se na realidade conhecida interrompe de maneira brusca o desenrolar de uma história brilhantemente escrita. Por isso, na literatura há preços e apreços a serem pagos. Existe uma série de distâncias que o livro e as ideias de Gontchárov não cobrem dentro da construção de seu único clássico, milagrosamente não queimado — ainda bem — pelo mesmo.

Antes de aprofundar os preços e apreços pagos por Gontchárov, é bom lembrar que uma obra com lacunas significativas pode cumprir um objetivo específico e se tornar um clássico. O cânone é feito para isso, aliás: passar pano e eleger clássicos (não necessariamente nessa ordem).

A lacuna em Oblómov não está em exercer uma crítica mais ferrenha à aristocracia russa — Gontchárov foi bem incisivo — ou marcar limites para a sátira e toda a caracterização das estruturas sociais da época de forma a elaborar planos caricatos e se perder pela vontade de fazer graça; muito pelo contrário, acompanhar o desenvolvimento dos personagens principais é um dos grandes prazeres do livro. Entretanto, por vezes, o exercício da escrita exige uma espécie de “fome” em explorar “novos mundos”, para que o processo não estagne e o pragmatismo tome conta do romance. Isso depende de quantas realidades estarão presentes durante o processo de escrita. Tendo em conta que conciliar realidades exige extrema sensibilidade e conhecimento geográfico preciso.

A realidade de Oblómov nunca foi além de seu apartamento, mais precisamente de seu quarto. A sua nobreza deve-se, única e exclusivamente, a uma condição familiar que, como herdeiro, acabou recebendo e se acostumando de bom grado. O luxo, a boa comida e demais regalias de classe não fazem parte da sua forma de enxergar o mundo, mas de um conjunto de hábitos repassados por gerações, o que propicia uma espécie de pensamento um tanto quanto mordaz, característico da classe a qual se encontra mesmo sem estar ligado a ela.

O conjunto de hábitos que o definem também serve de apoio para caracterizar toda a gama de personagens que orbitam Oblómov e que estão inseridos, dentro de uma realidade com pouca amplitude, em contingentes específicos, colocando limites até no que condiz ao envolvimento e influência que o protagonista exerce sobre seus convivas e vice-versa. A personalidade de Oblómov é um espaço minúsculo e confinado, aparentemente incapaz de ser alterado. Ter conceitos tão herméticos, vivendo às sombras de uma intelectualidade forjada por hábitos e nobreza herdados, não o desabona como pessoa ou o torna um ser desprezível, muito pelo contrário.

O processo de expansão da realidade, liderado por Stolz e continuado por Olga, entregam a Oblómov perspectivas que o fazem relativizar as próprias convicções, abrindo margem para que conheçamos um protagonista frágil e suscetível a mudanças, cortando, inclusive, boa parte desses hábitos herdados em conjunto de suas posses e condição social. Inegavelmente, o processo de descoberta do mundo por parte do protagonista é tão sensível e maleável que o acompanhamento da leitura se torna algo físico em toda a sua insegurança e desacerto. Sempre à flor da pele com qualquer coisa que remeta, principalmente, ao seu relacionamento com Olga, o furor de sentimentos beligerantes que emergem não se sabe de onde, causam, também, impressões diferentes ao tentar traduzir esse emaranhado durante o processo de leitura e contextualização do livro. Por vezes, Oblómov é de uma infantilidade sem tamanho, como um adolescente mimado; por outras, Oblómov é apenas uma alma perdida, que descobre na sua condição a ausência de valores e sentimentos básicos, resultando numa carência profunda e o preenchimento urgente do seu recém-descoberto vazio pelo sentimento de posse, por isso os rompantes de ciúmes constantes. Apesar disso, não há sinal de vileza ou crueldade — que não seja passional — em Oblómov.

Expondo um ponto sob a mera justaposição entre o personagem e interlocutor, todas as facetas reveladas de Oblómov podem ser traduzidas numa caricatura — realmente — fiel do aristocrata russo decadente em processo vertiginoso de desabamento social em todas as suas dimensões. O balanço emocional seria fechado, quanto a processo de construção narrativa, com saldo positivíssimo e tudo certo, mais uma cota cumprida dentro da excelente literatura que os russos apresentam. Apenas leiam Oblómov e lamentem por Gontchárov ter queimado grande parte de seus manuscritos. Finito.

Porém, a abertura de mundo pela qual passou Oblómov durante todo o processo é um tanto maior e mais complexa que isso. O decadentismo da classe dominante russa, que em linhas gerais nada produzia e de tudo se apropriava, marca uma viagem — não limitada ao livro — por uma Rússia que não foi apresentada, geograficamente falando, a Oblómov e tampouco a Gontchárov.

O contrassenso de poderio e desenvolvimento econômico é evidente com o pressuposto explicitado pelos estereótipos de nações opostas, os quais o autor personifica e lança mão em Oblómov, sendo um retrato do aristocrata russo, e em Stolz, como um retrato da sociedade alemã em pleno desenvolvimento, extremamente objetivo e pontual. A análise possui um fim prático inerente a sua posterior demarcação no território da literatura como um romance que funciona como crítica/sátira a um modelo econômico proveniente de um modo de vida, especialmente, retrógrado e contraproducente. Por outro lado, Gontchárov reproduz, além desses dois planos tipificados, outras realidades russas, tentando recriar contextos mais profundos e amplos do povo russo e a ingerência da representação tipificada em Oblómov sobre tais realidades.

Ao tentar dimensionar e supervisionar a personificação do nobre russo típico em rota de colisão a novas maneiras de enxergar a realidade por sociedades, senão mais desenvolvidas, mais modernas; Gontchárov aparenta se confrontar com a impossibilidade de definir um raio de ação maior para estereótipos satélites ao modelo de nobre russo descrito, revelados sob luz fugidia, com necessidades muito específicas e universais, diferentes do próprio protagonista, Stolz ou Olga, que se apresentam multifacetados e, especialmente Oblómov, dotados de traços mutáveis e/ou ambíguos.

É evidente que paralelos socioeconômicos servem como ponto de partida para explicar a inércia e seu caráter pluridimensional em Oblómov e a maneira de Gontchárov se relacionar com seus semelhantes russos menos abastados, mas a condição humana não pode ser ignorada jamais. Poucos personagens passaram por tantas construções e desconstruções dentro de um romance tendo sua jornada de autodescoberta nula, por opção própria, ao final do processo. A moral da história de Oblómov é um tanto decepcionante para quem procura — ou pior, necessita — de uma justificativa moral para o romance fazer sentido ou surtir algum tipo de efeito, como o exercício da empatia e justaposição.

Oblómov pode ser considerado o resultado da experiência niilista mais profunda dentro da literatura de sua época, resistindo através da própria força e capacidade em não querer conhecer, ser ou se enquadrar em nada oferecido como modelo. Tendo essa barreira parcialmente rompida quando assumiu seu amor por Olga, mesmo sem ter conseguido manter o relacionamento estável e longevo, houve uma centelha de mudança de mentalidade para algo que se assemelhasse aos conceitos modernos que se apresentavam em torrente. Porém, Oblómov voltou a resistir através da sua charmosa ineficácia auto programada em assumir condições.

A derrocada da nobreza russa (aqui personificada nas figuras centrais de Oblómov e Stolz, como seu contraponto), implicada por um processo de autodestruição latente, dá ao autor material suficiente para continuar a acompanhar a jornada amoral de Oblómov no seu momento de acepção da queda de status e mudança de realidade. Existe, psicológica e geograficamente, atributos suficientes para que o romance continue a explorar a soberba que provém da incapacidade de Oblómov em ser alguém ou aceitar situações que proponham um fim, agora, com condições avessas aos hábitos herdados por status quo. Relocar o centro narrativo, já no final do romance, para transcender Oblómov e protagonizar a relação mecânica entre Olga e Stolz é assumir, dentro do próprio processo criativo, que não há vontade ou capacidade de emular um meio comum à maioria do povo russo, fugindo de uma forma de realidade importante para o desenvolvimento tanto do livro quanto do meio social, criando um espaçamento entre realidade e ficção que, até então, não havia dentro do romance.

A manutenção da realidade, agora com o vazio criado pela substituição de Oblómov e seus conflitos que nunca chegam, de fato, a lugar nenhum, cria uma sensação de incompletude que segue até o desfecho do livro como um anticlímax terrível para tudo que Oblómov, a persona, passou a representar dentro da literatura e, também, como parte de um processo avaliativo do russo de uma forma menos genérica. Ao mesmo tempo que generaliza ao criar padrões que sobrevivem sob certa determinação hierárquica e de costumes, Gontchárov apregoa com força o ideal de estética e beleza dentro de uma era, anos mais tarde, de revoluções práticas, cíclicas, completas e finitas em sentido e razão.

Funcionando como uma crítica à sociedade russa e, ao mesmo tempo, uma ode ao belo por estética, o romance de Gontchárov é enviesado, complexo e deixa margem para raciocínios imprecisos, que vão além da materialização da realidade e a contextualização econômica e satírica da Rússia czarista. A reflexão sobre o caráter identitário de Oblómov como personagem, coloca o leitor em posição de confronto entre o sentido da vida e a validação da inércia e/ou incapacidade de decisão em momentos-chave, o que reflete na decantação da realidade do protagonista, tornando a interrupção e a opção do autor ao retornar a narrativa à nobreza russa ainda mais injustificável — senão pela incompreensão ou falta de tato do autor ao digerir e remontar um cenário que rompe funções estéticas pessoalmente mais conhecidas e palatáveis.

Oblómov é, então, uma belíssima obra de arte, provocante e reflexiva.

Oblómov é um dos maiores personagens de todos os tempos da literatura.

Gontchárov é um gênio incontestável, escritor como poucos.

Faltou vivência.

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