Liev Tolstói – Padre Sérgio

Por Caio Lima

O que mais me agrada no Rede de Intrigas é como os textos vão se colocando numa ordem própria, tornando-se algo maior que as resenhas em si. Esses arcos compõem ciclos um tanto quanto semelhantes em essência, mas transparecem uma maturidade maior, talvez. Admito que ainda não sei balancear direito o tanto que devo me expor e o tanto que vocês precisam entender de primeira para que isso aqui gire como um blog de literatura “como deveria ser”. Sempre soube da necessidade de mudar para poder usar o Rede de Intrigas com mais força. Porém, é um processo complicado, bastante acidentado. Mas está fluindo. Vocês perceberam que nos últimos textos as coisas têm melhorado por aqui? Boa parte dessa melhora se deve aos meus estudos sobre Tolstói nos últimos dois meses.

A literatura de Tolstói sempre me incomodou muito por alguns motivos relativamente pequenos. Sempre gostei bastante, mas a sensação de incômodo era inerente às experiências de leitura. Principalmente por enxergar muito pouco dele mesmo dentro da sua literatura. Tudo sempre foi escrito com muita perfeição, técnica e lucidez. E a perfeição me causa uma sensação gritante de distanciamento. Me incomoda demais. Ser imperfeito, na minha humilde concepção, é estar em comunhão com a própria arte — além de ser uma questão de estilo. Eis que resolvi reler “Padre Sérgio” e todo meu incômodo com Tolstói acabou.

Pela primeira vez eu senti Tolstói próximo da literatura que produziu. Não pelo que viria a ser o tolstoísmo ou uma devoção instantânea à forma que escrevia, mas por reconhecer quebras de ciclos de uma vida bastante longeva e prolífica; ou a vontade de quebrá-los, talvez através da literatura. O que o torna ainda mais imperfeito. E mais interessante.

Transpor ciclos depende muito mais das movimentações externas que se comunicam e interagem de forma incisiva conosco que da nossa própria vontade de mudar. Nossos esforços, na verdade, são todos concentrados na manutenção de ciclos — e de tudo que nos cerca. Nossa educação é baseada na manutenção daquilo que acreditamos possuir, mesmo quando não compreendemos a coisa em sua totalidade ou alimentamos a ilusão de posse sobre algo que não pode ser possuído. Daí é advindo nosso conceito de perfeição: manutenção da posse. E possuir algo é um exercício quase religioso. Exige devoção para com o objeto e exige, também, um processo de abnegação para com todo o resto.

A ideia de abnegação é o primeiro passo de um ciclo que se repete na vida de Stiepán Kassátsky, ou Padre Sérgio, até que as movimentações externas interfiram na continuidade de suas ações. A busca pela perfeição é lugar comum na sua educação — e, de uma forma geral, na educação de todo mundo — e, como bom nobre que é, sabe que é necessário abnegar de certos prazeres da vida para que conquiste níveis maiores de conhecimento, status e satisfação pessoal e momentânea. A ambição do Padre Sérgio é tão subjetiva quanto falha sob uma perspectiva que relata a perfeição apenas pelo percurso até alcançá-la. O anseio por manter a posse de qualquer que fosse seu objeto de desejo sempre foi o objetivo primário de suas ações. A preparação de Stiepán sempre foi no intuito de manter-se como sumidade no que se propusesse a fazer, ignorando demais aspectos. Sua autoridade irrefutável perante seu círculo seria argumento grandioso o suficiente para que ele pudesse manter a plenitude da posse sobre o que desejasse e pudesse renovar suas pretensões. Isso não abrange a totalidade de maneiras de ser conduzido à perfeição e de pessoas que viessem a praticar a mesma atividade. Um bom exemplo disso é, quando adolescente, ter aprendido francês a ponto de poder ser confundido com um nativo. A perfeição possui um teto por convenção.

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Reconhecidamente, as obras de Tolstói possuem um pano autobiográfico em maior ou menor escala. Isso não é segredo para ninguém. Mas a forma pretere o sujeito, e as correlações encontradas na prosa de Tolstói sempre tendem a ir de encontro à perfeição da forma, do que está amplamente exposto. É como se o escrito tivesse a posse integral do ser. A narrativa concisa e lúcida contém traços do autor, é claro. O que nunca ficou explícito, talvez por ser subjetivo demais, é o que Tolstói abnegou em estilo, tempo e recursos para produzir narrativas que beiram a perfeição; e o esforço exercido por ele para ignorar vontades e elaborar soluções perfeitas para seus textos.

Ou talvez ele fosse, simplesmente, obcecado pela perfeição. Mas aí seria simples demais colocá-lo como o próprio Padre Sérgio e resumir essa resenha a um alter ego de uma vida errante e ambiciosa que encontra libertação apoiado em alicerces religiosos.

O acúmulo dos silêncios produzidos por tudo que foi deixado de lado em busca da perfeição é suplantado momentaneamente pelo sucesso de ter atingido o teto imposto pelo mesmo objeto de desejo. E o sucesso sufoca. Mas, qual sucesso? Ser perfeito ou manter-se perfeito? Atingir a perfeição tem uma série de significados. Especificamente em “Padre Sérgio”, Stiepán torna-se cada vez mais exitoso e suas ambições ficam cada vez maiores, portanto ser perfeito tem dupla função: manter o sucesso atual e buscar um nível acima do que se encontra no momento. É uma vida entre a tensão de continuar relevante e o prazer de atingir o limite.

Para um autor, por exemplo, isso é bastante comum. O ponto alcançado torna-se referência. Ao mesmo tempo existe o desejo de buscar algo o mais perfeito possível. A forma, a técnica, o jogo de palavras, tudo tem que ser superior. Tudo tem que sobrepor o anterior no dever de mostrar que sua melhor fase é a atual. Mas existe um entrave, um novo processo criativo é um novo ciclo. Toda a abnegação traz de volta os fantasmas do abandono e de um processo ainda inacabado, que é o atual; e que, ironicamente, o levou ao sucesso. Você tenta quebrar o ciclo, mas na verdade acumula problemas e o processo nunca se renova. Quebrar ciclos depende do desprendimento, de se livrar do sentimento de posse. E, se a perfeição é posse sobre o desejado, querer substituí-la por algo maior é forçar a manutenção de um processo falho.

Nós fazemos isso a todo momento. Eu, ao menos, fazia aqui no Rede de Intrigas, até perceber o tamanho do problema que estava criando. Mas, ao contrário de Tolstói, ou do próprio Padre Sérgio, eu não tenho um alcance e um reconhecimento tão grandes. As dimensões e os impactos externos são mais fáceis de absorver e identificar e, finalmente, consegui quebrar o ciclo. O sucesso é sufocante. É sufocante porque tudo o que eu faço é direcionado para o que existe ao meu redor. Quanto mais pessoas lendo isso aqui, melhor, né? Mais uma vez o sentimento de posse se manifesta. Meu blog, meus textos, minhas ideias. Por isso muitos dos meus textos antigos eram ininteligíveis ou não chegavam a lugar nenhum. Eu queria expor o objeto, mas não dividir a causa. São dois processos distintos.

Nossas atividades são refletidas no nosso meio. Tolstói não escrevia para ele mesmo, ele queria ser publicado e atingir o máximo de pessoas possível. Lógico! E para isso desenvolveu sua habilidade narrativa até algo que considerasse perfeito. Se ele ficou famoso pelas críticas sociais e pela capacidade de entrelaçar histórias, pouco se pode concluir acerca do quanto disso tudo é um mostruário da sua perfeição e o quanto é realmente a necessidade de dividir pensamentos e se expor para algo que vai além da forma. Levando para dentro de “Padre Sérgio”, falo de uma composição mais íntima que a sua briga com a igreja ortodoxa russa, até sua excomunhão. São as razões que o incitaram a tornar pública essa posição que me interessam. Existem coisas que só se consegue fazer através de uma válvula de escape mais ampla que a simples escrita. Senão ele poderia facilmente ter permanecido com suas cartas e relatos intermináveis na gaveta. A necessidade de se expor e encarar as consequências da contínua exposição podem ser encaradas como vaidade ou resistência.

Stiepán Kassástky ficou preso nesse muro quando decidiu desistir da vida como alto oficial do exército russo para entrar no monastério e se tornar Padre Sérgio. Qual não foi a surpresa de seu círculo pela desistência repentina de uma carreira, até então, perfeita. Mas visando a sua ascensão, existe uma mácula que jamais passaria incólume na cabeça de alguém que pensa na perfeição das relações que almeja e financia, sendo provedor e dono do seu destino. A opção pelo monastério não se deve a sua decepção amorosa, se deve a intervenção brusca em algo que ele deveria possuir pleno poder. Sua imagem estava arranhada perante sua consciência obcecada. Existe em Kassátsky uma vaidade muito maior que a necessidade de quebrar o ciclo. Isso também acontece mais tarde, quando, já como Padre Sérgio, o milagreiro, uma mulher tenta seduzi-lo e ele acaba se auto-flagelando ao invés de ceder ao desejo momentâneo — ou às “interferências externas”. Naquele momento, qualquer sentimento, seja a decepção ou a culpa, está isento da devoção ao divino, mas cheio, até transbordar, do sentimento de posse sobre sua condição. Ele não poderia, de forma alguma, deixar que se interpusessem entre ele e a perfeição (esse processo tende a salientar outra característica da literatura produzida por Tolstói e dessa obra, a misoginia. Mas esse é assunto pra outro texto. Em breve).

A fama tem dessas coisas. Enquanto os olhares cobram provas a todo instante para que todo mundo veja, alguns desgastes começam, aos poucos, a reverberar nas bases do que até pouco tempo atrás era sólido. Junto são carregados os fantasmas que, aparentemente, estavam esquecidos no passado. O processo todo deixa de fazer sentido. As provas passam a ser mais e mais violentas e cansativas. É um processo lento e gradual, mas que consome por inteiro. O fôlego começa a faltar. O sujeito acusa o golpe. Tolstói, por exemplo, já no fim da vida, produziu narrativas cada vez mais perfeitas e curtas. “Padre Sérgio” é um exemplo perfeito dessa fase. Me parece que existe um peso um tanto maior do que ele poderia suportar dentro da sua fase de cristão-anarquista. O ciclo não foi quebrado e, nesse ponto específico, ele é seu próprio protagonista, Stiepán Kassátsky. Suas cartas, resultados de desabafos constantes (principalmente contra a igreja ortodoxa) e de um processo de conversão espiritual, reivindicam mudanças de posições e acusam alguns pontos que parecem ser mágoas íntimas, antes ignoradas e que foram cobradas fora do tempo. O pouco que li é extremamente chato, aliás. Mas é interessante ver que as cobranças são, muitas das vezes, retroativas. Apesar de parecer um processo evolutivo, Tolstói, a meu ver, estava tentando acertar contas com um passado que lhe foi subtraído por conta do seu processo de abnegação. Ele continuou tentado buscar a perfeição, apenas com uma roupagem nova.

A igreja passa a ser abusiva para Padre Sérgio quando começa a expor sua perfeição, vendendo seus milagres e ferindo sua vaidade como máxima autoridade dentro do seu mundo. As pressões involuntariamente exercidas pelos que procuravam cura tornam cada aparição mais difícil que a anterior. A fama já não é mais tão agradável como antes. A sensação é de dívida contínua, acumulando preocupação e cansaço com juros a perder de vista. Da mesma forma, se voltarmos anos antes na história de Kassátsky, ele não admitia sua imagem exposta com a perfeição de sua nobreza ferida daquela maneira. Os mesmos cansaço e preocupação foram sentidos. O mesmo ciclo se repete por caminhos diferentes. As mesmas dívidas foram cobradas de forma retroativa. Os mesmos fantasmas voltaram a aparecer. Abnegação, sucesso, fama e, no ápice do desespero, fuga. A mudança de oficial do exército russo para padre e depois, quando rompeu com a igreja até quase o fim, não representam uma ruptura, mas uma mudança de foco. O desejo pela perfeição permanece em caminhos distintos. Kassátsky (ou Padre Sérgio) consegue, finalmente, romper o ciclo. Ao invés de uma terceira mudança nesse “ciclo de Tolstói”, após alguns eventos — sem spoilers — ele evolui e alcança a verdadeira liberdade. Sente-se livre da perfeição que passou uma vida tentando atingir e, desta forma, livre de todas as pressões que criou sem a mínima necessidade.

E pensar que todos, sem exceção, nos colocamos dentro de limites e padrões quase sempre irracionais e inatingíveis, deixando de explorar o máximo que somos. Imagine, viver sendo comparado a padrões e pessoas que não possuem relação nenhuma com a sua realidade. Fomentar esse sentimento de pertencer a algo ou alguém na marra, de forma possessiva, sufocar a todos e se sufocar junto. Terrível.

A narrativa perfeita de Tolstói esconde, para mim, frustração e desejo. Pelo que venho estudando, tudo ainda muito superficial, Tolstói não quebrou seu ciclo para tornar-se Padre Sérgio e viver o resto dos seus dias sem culpa e remorso. O que existe por trás da narrativa, apesar da mudança de hábitos drástica e de todo o material acumulado que o qualificam como profeta e gênio de seu tempo, é uma forte vontade de quebrar o ciclo. Entretanto, a nobreza de Padre Sérgio é descrita por uma narrativa perfeita demais, redondinha, sem falhas. E eu me pergunto se Tolstói realmente foi um profeta ou simplesmente um homem que desejava se ver livre das pressões que sofria e se impunha. Talvez seja exatamente por isso que ele repudiou o tolstoísmo desde que ouviu falar sobre. Afinal, como ele pode ser criador de um “estilo de vida” que nem ele mesmo foi capaz de sustentar integralmente, já que estava preso no ciclo que carregou pela vida inteira, como se carregasse uma grande cruz? Profetas sempre me são suspeitos. Tolstói sabia que para quebrar o ciclo e poder viver livre como Padre Sérgio, precisaria permitir-se a mudança por forças que ele é incapaz de controlar, tanto que ele dá exatamente esse destino a personagem. Porém o próprio não foi capaz de fazê-lo. Tolstói reviveu seu ciclo inúmeras vezes pela incapacidade de deixar a vaidade de lado e aceitar as mudanças que lhe eram ofertadas.

“Padre Sérgio” é bem capaz de fazer pensar, num primeiro momento, sobre os abusos da igreja, os sacrifícios, a força de vontade humana e a liberdade de espírito. Mas lá no fundo, bem lá no fundo, eu ouvi um grito que eu dei há bem pouco tempo atrás e, por sorte, consegui me refazer a tempo. A literatura é arte; e como arte, pode soar perfeita, sendo a expressão máxima da consciência humana. Mas quando dentro dessa perfeição, ela não passa de um grande poço dos desejos. Grande Kassátsky. Pobre Tolstói.

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