Fiódor Dostoiévski – Crime e castigo

Por Caio Lima

Há uma espécie de código que rege os grandes clássicos da literatura mundial, o que os torna, até certo ponto, indecifráveis. Todos os leitores, literatos ou não, conseguirão se debruçar em teses razoavelmente sólidas sobre o famigerado livro para garantir um ponto válido de discussão. Porém, não existe um único estudo ou análise que consiga abarcar o todo. Em alguns casos, trata-se de um vazio que, de tão simples, se mantém perturbador através dos tempos. Talvez isso aconteça porque a obra é demasiado humana; e, humana que é, o vazio, repleto de sentimentos inexplicáveis — e naturalmente ignorados, pois o homem tende a manter desconhecido tudo aquilo que potencialmente pode atuar como espelho de si mesmo, causando repulsa pela própria imagem —, se torna parte do que faz a obra ser elevada a patamares mais altos. É uma espécie de mea culpa para manter o vazio no seu lugar sem que ninguém mexa. Dostoiévski é, senão o maior, um dos maiores escritores responsáveis por capturar esse conjunto de sentimentos inferiores. Muito dessa fama fica por conta de Crime e castigo e seu protagonista, Raskólnikov. [Para facilitar o processo do texto, este vazio e seus sentimentos inexplicavelmente humanos estarão condensados na expressão sentimentos inferiores.]

dostoievski

Raskólnikov é um jovem promissor, mas miserável. Seu artigo publicado recentemente expõe a “teoria do homem extraordinário”, tese cuja funcionalidade ele acredita piamente e da qual acredita ser um expoente. O homem extraordinário é o homem que está acima das leis e das pessoas comuns — ou piolhos —, que não seriam capazes de entender a nobreza dos seus motivos. O difícil de encaixar nessa teoria é: como ele, Raskólnikov, sendo um homem extraordinário, pode aceitar sua condição atual? Forçado a interromper a faculdade de direito por não conseguir se manter, ele se vê sofrendo ameaças de ser enxotado do cubículo em que vive. A alternativa é penhorar continuamente os poucos bens que lhe restam e realizar trabalhos menores para garantir alguma renda, que ainda assim é insuficiente para as despesas. Não é fácil ser extraordinário e viver como piolho.

O antagonismo entre as situações expostas coloca à prova a capacidade do protagonista de se reinventar e de que forma ele seria capaz de fazê-lo. As necessidades diárias, que pedem sua atenção imediata, o forçam cada vez mais a abandonar sua natureza extraordinária e a se submeter a condição de um simples piolho, o que é abominável. Não se vendo próximo do que idealiza, os sentimentos inferiores — e a dispersão não direcionada destes — começam a extrapolar os limites do que pode ser suportado por Raskólnikov. Em contrapartida, existem pontos nos quais há o arrefecimento dessa raiva e da realidade imediata, que acontecem, comumente, quando ele se vê capaz de ajudar os tais piolhos. Mas, ao ajudá-los, ele se coloca numa posição ainda mais miserável e, consequentemente, suscetível aos sentimentos inferiores. Que ironia! A nobreza de espírito não o enobrece e muito menos lhe garante algum retorno para suas obrigações mundanas, levando-o a crer ainda mais na sua condição extraordinária e forçando-o a cair num grande ciclo vicioso.

O ciclo vicioso induz Raskólnikov a conflitos homéricos entre seus sentimentos inferiores e a certeza de poder passar por cima das convenções sociais. Nessa queda de braço existencial, o sentimento de não pertencer ao meio que vive se agrava e a necessidade de mudar sua condição é latente. Sentir-se deslocado do meio leva, em consequência, a um deslocamento da realidade, que se apresenta de forma cada vez mais abrupta e cruel. Se deparar com decisões urgentes e difíceis de lidar em intervalos que o acometem mais rápido que sua capacidade de sanar as situações, acumulando problemas, fomenta alguns sentimentos inferiores que, naturalmente, são expostos em atitudes não condizentes com seu brilhantismo e superioridade extraordinários, mas que de imediato acabam definindo os contornos do homem que ele pretende se tornar. A reclusão, o amargor e a rabugice cada vez mais evidentes, passam a formas mais assertivas e combativas de expressão desses sentimentos, conduzindo-o a choques ideológicos constantes, ao escárnio e à violência.

A violência, dentro das suas diferentes formas de manifestação, sempre será um dos alicerces da obra de Dostoiévski. Talvez ninguém soube exercer tanto controle narrativo sobre atos violentos quanto o russo. Em Crime e castigo o uso da violência é primordial para encaixar a trama e funciona, também, como alívio. A noção de perturbação com o andamento da obra é tão grande por parte do autor, que as cenas de violência são alocadas em momentos-chave, quando o cansaço pelas divagações psicológicas começa a confundir. A ação de elencar cenas de violência extrema numa narrativa veloz e expositiva para quebrar o ritmo psicológico da narrativa, mas ainda manter o ritmo da leitura com ação contínua para logo depois voltar aos aspectos psicológicos, mantém a dinâmica do exercício de leitura. Seria o uso de um artifício narrativo para atrair a atenção dos leitores e não deixar que se percam com o peso das reflexões, pura e simplesmente. O que seria óbvio. Há de se pensar, também, no uso da violência como método de entreter o público desde que o homem é homem. Há quem defenda que o homem é um ser violento. Em se tratando de um romance que discute a condição humana de um personagem que acredita ser tão extraordinário quanto Napoleão, a violência haveria de ser fazer presente. Mas isso é assunto para outro texto.

Outra forma de recorrer ao uso da violência é colocá-la como efeito de um momento de histerese do psicológico e/ou da capacidade, ainda rudimentar, de lidar com sentimentos do ser humano, já sobrecarregado pelo meio em que é criado. É o processo que leva ao vazio existencial, o conjunto dos sentimentos inferiores que se acumulam depois de muito negligenciados pelo indivíduo. Dessa forma, escrever pode ser tão representação da violência quanto o assassinato de duas irmãs a machadadas para roubar alguns rublos e itens de valor, que seriam enterrados debaixo de uma pedra, numa praça, e jamais entrariam em contato com o assassino novamente. Mas não é apenas pelos assassinatos cometidos por Raskólnikov (que dão início efetivo ao livro) que isso se torna uma hipótese plausível ou uma sensação bastante palpável. Residem aqui, de forma mais ampla, sentidos que ficam sucateados pelos sentimentos inferiores que acometem o protagonista, e que não são explicitados por conter profundo sentido simbólico dentro da visão de mundo do personagem — e talvez da própria realidade do autor, mais maduro que em Memórias do Subsolo, mas não menos complicado e incisivo nas suas contestações e divagações existenciais. A violência de Dostoiévski ao escrever Crime e castigo é tão palpável e deixa tantos vazios, que causa dor para quem produz qualquer material em cima da sua obra. Inclusive em quem escreve resenhas.

A violência ofertada por Dostoiévski apresenta uma amplificação dos sentimentos inferiores a ponto de se tornarem uma espécie de paranoia em Raskólnikov, numa construção semelhante à de Frankenstein e sua criatura. Este passa a ter crises de consciência que se transportam para o plano físico — ajudadas pela miséria em que vive e o estado de subnutrição ao qual se submete —, deixando-o doente e fadigado, comprometendo boa parte das suas decisões. Além de estar enfermo por conta do tratamento autopunitivo que se dá pelos assassinatos e, depois, pelo medo natural que seu envolvimento com o caso fosse descoberto pelos órgãos investigadores e pessoas próximas, Raskólnikov dá vazão cada vez maior a sua ambição de se tornar o que acredita ter nascido para ser, e se transforma numa pessoa cada vez mais sádica, mesquinha e reclusa perante todos. Em acessos de fúria constantes, ele se desfaz dos amigos e até da família, pedindo para não ser importunado, procurando meios de não alimentar sentimentos inferiores que o impeçam de tramar uma saída minimamente escrupulosa e altiva para a ocasião.

Entretanto, apesar de várias vezes manifestar tendências a reações violentas, o medo da morte e a vergonha da reclusão — ou de ser derrotado pelo sistema que despreza —, o fazem entrar em conflito com o esvaziamento de sentido da sua atitude e a estar recluso em si mesmo, impedindo-o de reagir ao turbilhão de coisas que acontecem com mais violência descabida. evitando extravasar sua situação cometendo suicídio ou outro homicídio que livrasse do seu caminho testemunhas que pudessem, por ventura, incriminá-lo, por exemplo. A violência traria alívio imediato e seria o caminho óbvio a ser tomado, mas existe a busca por algo além da destruição que se coloca entre ser um homem extraordinário e o medo de pagar pelos assassinatos que cometeu. Se a própria morte não é uma opção viável, bem como a violência a outrem, existe algum sentimento inferior que o impele a continuar o enfrentamento, ou sua queda de braço. São vazios que pedem respostas, apesar de nem sempre poderem ser respondidos. Mas Raskólnikov não sente remorso pelo assassinato das duas irmãs. Muito pelo contrário, afinal, ele é um homem extraordinário e porta-se como tal. O que seria, então, esse sentimento que o conduz a qualquer caminho que não seja o mais simples? Com sua mãe e irmã na cidade, a constante e atabalhoada presença de Razumíkhin, o andamento das investigações, o medo natural de prestar trabalho forçado na Sibéria (e provavelmente não sair vivo de lá) e algumas situações que o colocam ainda mais em evidência, a coisa muda de figura. Ele não se sente mais capaz de sobrepujar a lei. A não ser que escape das mãos dos investigadores. Mas se assim fosse, ele não seria um homem extraordinário; e, sim, apenas um fugitivo covarde, incapaz de responder pelos seus atos. Ao mesmo tempo, carregar as duas mortes em silêncio é um fardo pesado demais para não ser compartilhado. Nesse ponto a lei dos homens poderia lhe garantir alguma certeza de que a penitência bastaria, como numa troca justa, apesar da vergonha e do sofrimento que causaria caso se entregasse.

O processo de alimentar a superioridade do homem extraordinário e trazê-lo à luz do seu mundo para que o deixem em paz é comprometido por situações que exigem, talvez inconscientemente, sua interferência. Assim, ele é apresentado à urgência de outras formas de sentir as quais ele sempre buscou refrear o máximo, sendo ele um expoente que vai além do homem comum. Tudo o que se mantém abaixo do extraordinário lhe é mundano e, consequentemente, ignorado. Ou melhor, ele acredita que pode ignorar tais sentimentos inferiores. Mas, assim, como o que acontece com a literatura e com o próprio autor, o espaço vazio torna-se grande demais para prescindir de alguma atenção por quem quer que seja, principalmente pelo próprio. Ou Raskólnikov se vê às voltas com seus sentimentos inferiores e se acerta, ou seu estágio de paranoia — visto por todos como loucura — o levarão a outro estágio de esvaziamento insuportável na confusão dos seus sentimentos, podendo resultar em mais atos violentos e definitivos. Raskólnikov, mesmo em conflito, não abdica completamente do uso da violência e a usa com certo prazer, extravasando parte dela em atos pequenos, confundindo pessoas e agindo com extremo sadismo para com os que estão a sua volta. A violência, mesmo psicológica e não reconhecida pelo violentado em primeira instância, libera doses de adrenalina que o saciam, como se fossem pequenas vitórias a alimentar sua superioridade inata, o que não é suficiente para interromper a profusão de sentimentos inferiores que se manifestam sem pedir licença. O conflito interno já existe antes que o protagonista se dê conta de sua verdadeira dimensão. E ele age, constantemente, tentando se colocar à margem de uma decisão definitiva sobre o que fazer, tentando se convencer de que a razão que quer dar ao caso é o bastante e que isso assumirá qualquer caráter conclusivo sobre seus atos cada vez mais controversos.

A sorte de Raskólnikov é estar cercado por pessoas que, assim como ele, não pertencem àquele modelo de sociedade no qual ele se enxerga tão superior e, de certa forma, todas estão alheias ao seu funcionamento. O que suscita suspeitas por sua parte, mas exerce algum tipo de conforto também. A possibilidade de uma abertura é real e o coloca numa posição dúbia em relação a sua certeza como sendo um homem extraordinário. Da sua mãe até Porfíri, o investigador, todos se relacionam de uma forma muito desprendida dos conceitos que habitam as camadas comuns da sociedade, que desloca a todos à sua maneira. Cada uma das personalidades que cercam o protagonista funciona como satélite, evidenciando sentimentos inferiores que ele mesmo é incapaz de revelar; ora por se sentir superior aos sentimentos que o habitam, ora pelo descontentamento de não saber ou não conseguir revelá-los. Sentimentos esses que são colocados em primeiro plano, sendo fonte primária de generosidade e compreensão, mesmo com sofreguidão e sabendo que Raskólnikov havia tomado caminhos tortuosos. O resgate gradativo do lado humano de Raskólnikov, impulsionado, principalmente, pela sua afeição instantânea por Sônia, desmistifica o princípio de que mudanças em personalidades consideradas sociopatas não aconteçam de forma espontânea, estando condicionadas apenas à luz da ciência. Mas esse mesmo fascínio exercido por Sônia é um dos grandes vazios causados por sentimentos inferiores aos quais têm-se pouco ou nenhum acesso, a não ser o fator interpretativo e reflexivo da experiência de leitura.

Apesar do diagnóstico geral de sociopata, Raskólnikov se apresenta disposto a encarar uma sociedade pelos motivos que a mesma entrega. A falta de enquadramento e sua provação como neo-Napoleão são efeitos, não causas. Exaltar, nesse momento, a condição patológica do personagem como alguém doente e anômalo ao consciente coletivo como causa é desmentir o enredo criado por Dostoiévski, que transformou paulatinamente um universo de pessoas que não se enquadram para que Raskólnikov pudesse buscar valores suficientes que justificassem seu destino final, emulando condições inerentes às vicissitudes da vida. A postura determinística que reforça Raskólnikov como uma causa enquadra a obra dentro de parâmetros contestáveis dentro dos próprios motivos psicológicos criados, principalmente, pelos traços iniciais captados e auferidos com base na construção de Crime e castigo. Seria uma inversão de valores, como se Lázaro houvesse ressuscitado Jesus, e não o contrário.

É nesse fascínio que Raskólnikov encontra força e coragem suficientes para manifestar alguma vontade de se abrir aos vazios e desfazê-los pouco a pouco. A opção irracional de Raskólnikov por um destino que não seja o de um homem extraordinário, não invalida o seu orgulho, ou falta de remorso, no caso do assassinato das irmãs, principalmente da usurária. Mas o fato de que ceder ao apoio irrestrito de Sônia o transformou de forma sólida e, muito provavelmente, definitiva, revela uma sutileza e amabilidade incríveis do próprio protagonista. É nesse fio tênue que separa uma existência vazia e intranquila de uma redenção por um sentimento mais profundo que as convicções extraordinárias do personagem, que se apresenta o indecifrável em Crime e castigo. Depois de toda e qualquer análise comportamental e psicológica, depois de mergulhar profundamente em todos os aspectos possíveis e imagináveis da obra, depois de teses de pós-doutorado terem sido baseadas no livro, o que sobra para o PhD e para o leitor comum é exatamente a mesma coisa: um sentimento de vazio incitado por sentimentos inferiores inacessíveis e irascíveis. Exatamente isso, um vazio que gera dúvidas, interpretações dúbias, teses com suas verdades absolutas, discussões acaloradas e, não menos importante, a necessidade de reler a obra, querendo descobrir o que, cargas d’água, impeliu Raskólnikov a atravessar todo esse processo. É um processual que deve se repetir por uma vida inteira, senão por gerações.

Crime e castigo suscita muito mais dúvidas que um posicionamento claro acerca do livro e dos vazios que são carregados durante toda uma vida, principalmente em situações de extrema pressão emocional. A violência com que tentam apagar os sentimentos inferiores enclausurados em cada um que ousa dar contornos definitivos a obra, torna espaços cada vez mais cheios de vácuo que só uma leitura feita com o coração é capaz de preencher; e mesmo assim, esteja consciente dos vazios que irá carregar depois do árduo, mas prazeroso, exercício. Talvez os vazios já estejam todos aí e você os trate como sentimentos inferiores. Pois saiba, você pode se redimir de alguma forma. Pense em Raskólnikov.

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