Ievgueni Zaimátin – Nós

Por Caio Lima

Algumas coisas são muito perigosas na literatura:

  1. Encaixotar livros em categorias: Sempre aparece aquele autor que faz um “romance de formação-gótico-oitocentista-vitoriano-anglicano-agnóstico” que ninguém consegue refutar, muito menos desclassificar e gera grande desconforto nas cadeiras intelectuais da literatura. É engraçado como no ISBN de alguns livros a classificação é completamente genérica por não saberem o que colocar ou por não existir classificação praquele livro em específico. O problema é que vários são assim.
  2. Livro-referência: Invalida todo um trabalho que teve por função criar um mundo particular, cheio de minúcias e, mais importante: cheio de si mesmo. Alguns livros são marcos indiscutíveis na história, mas continuam sendo obras literárias. Não há a mínima necessidade de lê-los para entender o mundo. Da mesma forma que não é razoável procurar em toda obra do gênero traços da tal referência. Torna o que deveria ser único em algo forçado e sem personalidade.
  3. Esquecer o contexto: Livros nasceram de circunstâncias específicas e particulares, e é importante pesquisar o que cercou o momento de criação do autor. Apesar de carregar seu próprio universo, a literatura acontece a partir de experiências descarregadas no papel, então é razoável que exista um interesse natural do leitor para com o que inspira a obra. Isso evita distorções de causas e de eventos históricos, além de alguns desenganos sentimentais e patológicos que devem ser indubitáveis no processo de assimilação do que foi lido.

Nem tudo são flores, nem tudo é perigo. É necessário testar os limites do conteúdo disponibilizado sobre livros nos veículos midiáticos, reconhecidamente influenciadores e, não menos importante, termômetros do mercado. O objetivo dessa resenha não é discutir a capacidade de disseminação (ou alcance) de informação desses veículos. Entretanto, discutir a qualidade da informação que é passada ao leitor comum é necessário. É por esse motivo que o Rede de Intrigas passou por cima da barreira de uma edição física visualmente desconfortável e megalomaníaca da editora Aleph — uma barreira quase intransponível para o blog — e decidiu resenhar Nós, de Vladímir Zamiátin. Ou, como anunciam nos veículos midiáticos, “a distopia que inspirou Admirável mundo novo e 1984”. Ou “vem com uma resenha de George Orwell no final”. Ou “uma crítica ferrenha ao regime socialista de Stálin”.

Zamiátin escreveu seu romance revolucionário entre os anos de 1920 e 1921. Foram anos conturbados. Lênin era o líder da revolução, que ainda buscava chão sólido para alicerçar os princípios socialistas e iniciar um novo modelo de sociedade. Os dois representantes que dominariam as ações poucos anos depois, Trótsky e Stálin, estavam em ocupações distintas: o primeiro era comandante do exército revolucionário durante a guerra civil e o outro estava dentro da cúpula do que viria ser a máquina estatal soviética. Com a guerra civil tomando contornos finais, Zamiátin observou um povo faminto numa Rússia devastada, sem a mínima capacidade de prover recursos.

A cúpula socialista, tentando se estabelecer como governo legítimo — e ferindo os princípios do regime, porém vendo uma saída rápida para a crise —, implantou a NEP (Nova Política Econômica), chancelada por Lênin. A partir daquele momento, o Estado se encarregaria de comprar apenas uma pequena parte dos insumos produzidos por pequenas indústrias e latifúndios, enquanto a outra parte era destinada ao livre comércio, incentivando pequenos negócios e gerando concorrência entre os mesmos, contornando o status socialista de economia planificada. O princípio do livre comércio, base do pensamento capitalista, foi o que salvou o início de estabilização do estado soviético. Ironias da vida. A economia se recompôs rápido, o povo começou a ter comida na mesa, emprego e insumos para consumir. Entretanto, o NEP, como já mencionado, feriu o princípio de economia horizontal socialista, sua base mais profunda, gerando as primeiras crises entre vertentes do ideal revolucionário.

A mão forte do estado soviético, como força una e onipresente, começa a aparecer quando implanta o regime de partido único, criminalizando qualquer outra atividade ou partido político que não fosse de origem bolchevique, isso já em 1921, ano em que a guerra civil teve seu fim declarado. As tensões arrefeceram até, finalmente, Lênin unificar, em 1922, a Rússia e outros países satélites na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Não era vislumbrado como concreto o modelo ideal de fiscalização social e coletivismo das camadas soviéticas. A bem da verdade, o ambiente era altamente instável, em crise e propício a qualquer alteração — até as mais mirabolantes. A rejeição das grandes potências mundiais foi plena, e o grande bloco já nasceu cercado por inimigos potenciais. Não é difícil imaginar o clima tenso e paranoico de uma nação recém-formada sob bases econômicas ainda não testadas e precisando de uma reconstrução das cinzas deixadas pela longa guerra civil. Por mais que se falasse em censura à época, os processos revolucionário e de guerra civil não tinham sido completamente abolidos, ainda existiam focos de resistência e maneiras diferentes de lutar contra o caráter totalitário da revolução, como em jornais e periódicos, dos quais Zamiátin era redator. Apesar de mambembe, não demorou para que o monstro da censura chegasse até o autor e começasse a impedir suas publicações de forma constante. Nós foi um desses casos.

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Na época em que o romance foi escrito, por mais que houvesse lideranças reconhecidamente antagônicas dentro do partido, não era possível vislumbrar qualquer liderança fora a que Lênin e seus correligionários exerciam, o que desmente a crença de que Nós é um protesto contra o regime estalinista. Até chegar a Stálin, o novo regime passou por diversas fases. Isso não modifica a perseguição política sofrida por Zamiátin e seus escritos, inclusive o romance Nós, e o processo cada vez mais arrojado de censura pelo qual ele, agora como carta marcada, passava. Mas o que era tão ofensivo no romance, especificamente, para que a censura impedisse sua publicação?

Em Nós Zamiátin apresenta um mundo pós-Guerra dos 200 Anos, onde apenas dois mil habitantes restaram na Terra e o único lugar habitável se resume a uma cidadela, cercada por uma muralha para separar a humanidade restante do ambiente inóspito e os perigos que a circundavam. Os habitantes vivem sob as ordens do Benfeitor e adquiriram novos hábitos, mais refinados, polidos e coletivos. Todos moram em prédios de vidro, a fim de facilitar o controle das ações diárias de cada habitante, e nos quais todos se fiscalizam sem o mínimo pudor. O conceito de privacidade foi reduzido drasticamente, todas as ações são compartilhadas e controladas por um grande relógio que dita as atividades diárias, sendo apenas duas delas destinadas a alguma atividade livre, mas nas quais o recomendável era que fossem gastá-las com serviços em prol do Benfeitor, como marchar, cantar hinos e realizar afazeres tipicamente militares.

Os habitantes não recebem nomes, mas sim códigos alfanuméricos aplicados sob condições específicas; e tampouco recebem qualquer tipo de carga emocional na sua formação. A educação puramente científica é justificada pelo pacifismo preconizado nessa nova estrutura de sociedade, com o objetivo único e exclusivo de evitar a guerra e educar apenas o que for útil e necessário à coletividade da nação. A paz é possível única e exclusivamente, segundo o Benfeitor, caso exista um controle rígido sobre o indivíduo, tornando-o o mais indissociável do coletivo quanto possível. O protagonista, D-503, é o engenheiro-chefe do projeto mais ambicioso do governo até então: uma aeronave com tecnologia suficiente para expedições em busca de formas de vida fora da Terra para que o Benfeitor possa levar a elas seu modelo governamental infalível e indissolúvel. Uma nova colonização.

Ao longo de capítulos arrastados e confusos, é possível acompanhar um processo mais interno que externo de D-503 e suas dúvidas e aflições, despertadas, quase todas, por I-330. O fator humano dentro da literatura produzida por Zamiátin reflete mais uma mudança que acontece por razões muito subjetivas, não qualificadas e pouco desenvolvidas no livro, que por um enfrentamento sistêmico a uma forma de governo injusta e despótica. I-330 apresenta seus motivos, claramente, sempre sob a vista do protagonista. Porém, D-503 não reconhece o caráter tirânico do Benfeitor. Existe apenas o que há de mais subjetivo e, agastado por diversos ataques à obra recente de Zamiátin, lúgubre na composição do enredo: o medo.

Isso leva a crer que, apesar de ainda em formação, o caráter revolucionário que existia em 1917 transmutou-se, para o autor, num terrível plano com infinitas possibilidades de exercer controle irrestrito sobre o povo russo. O que é bem diferente da proposta real da revolução socialista original, a qual o próprio Zamiátin demonstrou simpatia e apoio. É necessário reforçar que qualquer escrito à época não poderia passar de achismo vinculado a algum sentimento outrora remoto e colocado em estado de alerta. No caso do autor russo, o que fica em destaque, inclusive no seu protagonista D-503, é o sentimento de medo.

O reino das infinitas possibilidades e das associações livres proporcionou ao autor escrever sobre seus maiores medos num romance e dividi-los de forma que, no contínuo momento-chave que foi a consolidação da URSS, poderia ser utilizado para autocrítica comportamental do próprio povo ou de seus governantes. Todo processo revolucionário tem seus rostos e guias populares e, talvez, os efeitos da censura tenham sido ainda maiores em Zamiátin por não ser cotado com um autor atuante no processo revolucionário, expondo seu medo e insegurança com os rumos que se atropelavam sem qualquer parcimônia ou justificativa. A vaidade e outras subjetividades sempre devem estar em alta conta na avaliação de algo tão criterioso quanto um livro. Mal sabia que, poucos anos depois, os autores da revolução sofreram igual censura e não resistiram ao poder do Estado Soviético.

A literatura é um poço dos desejos. Quem escreve, sempre escreve apostando numa verossimilhança com o futuro. E, bom, poucos anos depois de sofrer com os efeitos da censura do novo Estado, mais especificamente em 1924, Lênin adoeceu e começou a corrida pela sua sucessão. De um lado estava Trótsky, que defendia a ideia de uma “revolução permanente”, do outro lado, Stálin, com seu ideal de “socialismo em um só país”. A história mostra o que aconteceu depois. Mas, vale ressaltar, num modelo de condução governamental que optava, deliberadamente, por se fechar cada vez mais nos próprios ideais, os maiores medos de Zamiátin foram satisfeitos e a URSS ganhou contornos de Nós, guardadas as devidas proporções.

A condição distópica de Nós não foge, absolutamente, do mencionado poço dos desejos que abarca as ambições literárias de cada autor. O grande problema em avaliá-la como primeira distopia ou livro-referência do gênero tão somente é, subitamente, fazer com que a condição única de Zamiátin, no meio de um pandemônio social, político e, quiçá, espiritual no qual se encontrava, deixe de fazer sentido para que todo o universo montado ganhe contornos unicamente de uma distopia ou de uma ficção científica que versa sobre os males de uma sociedade igualitária, puramente científica e fechada em si mesma. Os olhares tendenciosos que margeiam as páginas (e edição escandalosa) de Nós, são os mesmos que viram a possibilidade de acolher a obra de um autor russo que, mesmo tendo sido afiliado ao partido bolchevique, parecia criticar de forma ferrenha o regime cada vez mais autoritário e soviético nas mãos de Stálin, que acabara de tomar o poder.

Não há muito o que se esperar de um governo que censura e exila Anna Akhmátova, mas a contrapartida imediata é tão rasa e ofensiva quanto. A oportunidade de publicar algo tão fresco, colhido direto da fonte e com tamanha qualidade nunca poderia ser desperdiçada. As tensões políticas já eram suficientemente grandes na formação do estado soviético. Foi, realmente, uma das grandes sacadas do mercado editorial sensacionalista americano. A publicação, a crítica tendenciosa e o efeito dos escritos espalhados pelo público. Anos depois Soljenítsin cumpriu bem esse papel, aperfeiçoando toda a prática garantindo um prêmio Nobel, inclusive.

Nunca se deve deixar de lembrar Nós, ou a própria figura de Zamiátin, agora emblemática, como denúncia ao modus operandi soviético logo no início da sua consolidação, passados os anos de incerteza da revolução. Nunca se deve deixar de lembrar, também, a inventividade, os recursos e os olhares que Zamiátin lançou para o futuro, sendo um dos pioneiros do gênero, escrevendo a “primeira distopia” ou uma “ficção distópica”. Não se deve deixar de lembrar, uma recomendação. Da mesma forma, deveriam recomendar um olhar mais humano sobre os aspectos abordados, como o próprio comportamento confuso e intranquilo de D-503. Ou que a crítica especializada se servisse de fontes seguras, para não induzir o leitor a uma opinião superficial e mentirosa sobre uma obra e, principalmente, uma época tão rica em minúcias e construções de pensamento registradas na literatura.

A proposta do texto não é ser referência para ninguém, muito menos espinafrar diversos blogs, jornais e programas que transmitiram ideias completamente fora do contexto do livro. Essa postura perante o tratamento da informação e, mais grave, da arte, é tão distópica quanto o universo criado por Zamiátin ou o que era praticado na URSS, razão de todos os medos e males do autor antes mesmo de tomar forma, como algo sólido, o que aconteceu nas mãos de Stálin, anos após o livro estar concluído como obra. Nunca se deve deixar de lembrar que o contexto faz o autor, e ele faz a obra. Nunca o contrário.

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