Roberto Bolaño – 2666

Por Caio Lima

Eu estava observando pela vida afora, e não encontrei muitas resenhas sobre o romance psicodélico de Roberto Bolaño, “2666”. E, curiosamente, a que eu mais gostei foi a mais curtinha e chegou por e-mail, me convencendo a ler Bolaño de uma vez por todas. Eu acho que enxergo uma espécie de urgência e verdade por detrás das palavras, que sobrepujam os aspectos técnicos dos livros. Isso me inspira. Não interessa o que a pessoa quis dizer, a partir daqui é comigo e o que eu faço com as palavras dela. Da mesma forma, não interessa, absolutamente, o que Bolaño quis escrever, mas é perfeitamente plausível que eu me inspire ao falar de “2666” e crie teorias absurdas sobre o livro. Para quem já leu, no segundo livro Amalfitano pendura um livro de geometria no varal, lembram? A partir dessa cena, eu comecei a traçar paralelos que me ajudarão a explicar o que eu consegui compreender de “2666” tanto em sentido quanto em estrutura. Vamos? Vamos.

Toda relação interpessoal pode ser considerada uma reta. Existe uma pessoa A que direciona a sua atenção para uma pessoa B. Porém, todo esse direcionamento para a outra pessoa existe por conta de uma atividade fim, um objetivo comum. A atividade fim do ser humano é a sua essência, sua razão de ser, existir, socializar e tudo mais. No caso de “2666”, Bolaño assume a violência como atividade fim do ser humano. Nossas relações sempre buscam formas de manifestar o que há de mais violento entre nós. Vejam bem, “entre nós” e não “em nós”. A violência, como razão, produto e derrocada do ser humano, é obtida através da troca.

Voltando às formas geométricas, temos as pessoas A e B, mais a violência como vértices, portanto as relações interpessoais se dão em triângulos. Triângulos são as formas geométricas planas mais simples que temos. Toda figura geométrica plana produz uma área na sua superfície, e essa área é preenchida com o que idealizamos ou sentimos nesse triângulo de relações. Seria mais ou menos o seguinte: se eu, pessoa A, amo pessoa B, toda troca entre nós teria, como fim, a violência, e o amor que sentimos um pelo outro funcionaria como força motriz e justificativa para a violência cometida. O amor foi só um exemplo, mas não interessa o sentimento ou desejo que habite essa área criada pelo triângulo, por mais bonito que seja.

Outro aspecto da obra que a teoria dos triângulos pode ajudar é na sensação de solidão e vazio constantes ao longo dos cinco livros. Podemos considerar a violência como inviolável. Essas quebras de relação acontecem, então, quando chegamos ao estado fim do homem e finalmente rompemos certo paradigma, ou quando há uma separação abrupta das pessoas que se relacionam. O triângulo, uma vez formado, jamais será desfeito, mas quando não se consegue atingir a esse objetivo fim das relações humanas, os sentidos de incompreensão e vazio se aguçam. É como se tudo perdesse o sentido, tudo ficasse incompleto.

A relação com a morte como forma de rompimento dessa busca pela origem do ser, me fez lembrar de uma frase de Malcolm X: “Se você não está pronto para morrer por ela, risque a palavra ‘liberdade’ do seu vocabulário. ”

O cultivo da violência é uma das coisas mais abominadas pelo mundo ocidental, porém é o meio pelo qual o mundo ocidental foi criado. A não expressão da nossa natureza violenta é o meio mais eficaz de controle social possível. Foi assim que os países europeus mudaram o mapa do mundo e colonizaram toda a América e a África, por exemplo. Agiram com violência, implantaram a filosofia ocidental de vida e, de repente, a violência não seria mais tolerada.

Logo no primeiro livro, Bolaño retrata a busca até os confins do México, em Santa Teresa, de quatro pós-doutores em literatura alemã – um espanhol, um italiano, uma britânica e outro francês – pelo autor (alemão, claro) que é objeto de estudo e da admiração deles, o famoso Archimboldi. Essa busca pelo autor alemão não permite que eles percebam o que se passa na cidade, com os eventos constantes de mulheres abusadas e mortas de forma muito violenta.

Bolaño_materia.março.2017

Num paralelo, a busca por sonhos impossíveis toma o lugar da realidade. Mulheres morrem misteriosamente a todo momento, mas a busca por Archimboldi tira, inclusive do leitor, a sensação de gravidade sobre os acontecimentos em Santa Teresa. As expressões violentas ficam em segundo plano, sempre. E quando os pós-doutores praticam a violência de forma vazia, ela vem contextualizada, como se fosse uma expressão não natural movida por forças que tomaram o lugar da razão. Pós-doutores europeus seriam incapazes de tal ferocidade.

Já no segundo livro, com Amalfitano, essa violência é ofuscada, mais uma vez, por um paternalismo enorme e alguns transtornos gigantescos do mesmo. Pode não parecer, mas todos os extremos, das suas confusões com a esposa até a cisma com o livro de geometria (e o que pode ser tratado como loucura), são traços que validam, ao meu ver, a teoria dos triângulos e o rompimento das relações de forma abrupta. Revelam o vazio da morte e em como é dialética a questão entre a plenitude do ser e o conforto dos limites.

O jogo entre colonizado e colonizador não existe pela relação direta de servidão. O homem, quando muito pressionado em suas relações, tende a alcançar a violência como meio de libertação. O que fazer, então? Permitir que essas pessoas em estado servil encontrem na sua realidade alguma forma de poder, de ser autoridade. De repente, os servos são o principal método de controlar outros servos. Acaso exista violência, ela seria deliberadamente direcionada para o espelho. É o jogo do “mata ou morre”. Ou melhor, pessoas que tem algum privilégio mínimo se aproveitam das lacunas que o sistema propositalmente possibilita para violentar pessoas socialmente menos privilegiadas. A morte de mulheres em Santa Teresa começa a ganhar espaço.

Espaço esse que lança a Santa Teresa um jornalista negro para cobrir a luta de boxe do século e que acaba se perturbando e, por que não, se identificando pela questão das mulheres mortas. Além de deflagrar toda a questão da imprensa americana, suja como ela sempre foi, essa parte coloca muito em xeque a posição e importância que damos ao que chamamos de potências mundiais. Os problemas relatados por Bolaño são parte de países colonizados, não de países pobres. Os EUA entram nessa questão de país colonizado e que vive sob constante tensão por viver de forma muito latente os efeitos de um processo forçoso e muito mal resolvido de colonização. X morreu há 50 anos apenas, emboscado por negros num país onde negros eram mortos por brancos apenas por serem negros. Mais um caso de violência contra o espelho. Quer mais terceiro mundo que isso?

Na entrevista que faz com o líder do Panteras Negras fica evidente que a desnaturalização da violência se impôs até dentro da célula mais belicosa no movimento de luta pelos direitos dos negros americanos. E é importante como Bolaño trabalha isso com humor. O pensamento do colonizador é tão, mas tão costurado ao ideal da perfeição da vida, que gera caos e seletividade. São poucos os colonizados qualificados para usufruírem dos poderes de um colonizador. É engraçado, é irônico, é peculiar, é excêntrico e é caótico. E, particularmente, o caos é uma maravilha.

Refletir sobre o caos e seus múltiplos conceitos é refletir sobre as origens da cultura em si. E reparem em como as relações entre diferentes culturas são completamente desiguais. Essas culturas europeias, colonizadoras, ditam o ritmo do que acontece no mundo e são puras, quase impenetráveis. A não permeabilidade cultural gera, de forma sistêmica, falta de entendimento, de empatia. A reprodução de uma cultura considerada como correta, gera opressão. Hoje há a admissão de diferentes culturas no espaço, mas não no pensamento. A predominância cultural é o ponto base do autoritarismo, que leva, num ponto extremo, ao nazismo, um dos pontos chave de toda a obra de Bolaño.

A violência como fim, como razão de ser do homem, só é capaz de existir quando há troca. É um fim alavancado pelas interações pessoais e por forças e desejos que não somos capazes de compreender à luz da ciência. Sabem a teoria do super-homem, de Nietzsche? É um fim violento, agressivo. Ele se desgarra de todo conceito cultural do homem ocidental e ressurge para uma nova era. A violência com que Malcolm X tratava o desejo pela liberdade é um fim, uma quebra de paradigma, um rompimento do que foi estabelecido não importando o seu custo.

Sem estabelecer trocas, o nazismo almeja a purificação cultural. É um conceito muito maior do que a simples superioridade de raça. Não existe nada sobre violência como fim, trata-se da morte como meio. E a morte atua como ponto de ruptura das relações, gerando vazios. Impor-se como única cultura e postura aceitáveis, inibe a troca. A postura autoritária gera esse tipo de vazio sem matar, por exemplo. Inibir a troca é tornar uma cultura incapaz de evolução. É um processo lento, que demora séculos, mas nada que é hermético sobrevive, por mais que demore a ruir. A cultura, quando viva, não é pura.

O que nos leva ao livro quatro, que nada mais é que uma sucessão de registros sobre mulheres assassinadas. Ao dissecar cada caso, ao contar cada história até onde se sabe, as ideias sobre a mentalidade do colonizador e da natureza da violência são escancaradas. Poucas vezes eu senti um vazio tão grande lendo alguma coisa. Os relatos são crus e apenas se sucedem, um atrás do outro, sem pausa e sem um fim, um objetivo. Mas é exatamente isso! Mulheres morrendo apenas por serem mulheres! Isso não é vazio de sentido? Homens abusando do seu privilégio social para assassinar mulheres é tão sem sentido, que é real. É desesperador.

Durante toda a narrativa existem críticas ferrenhas ao Estado, ao empresariado, à desigualdade social, aos moldes em que os movimentos sociais se conservam, ao show de horrores que é a imprensa, aos órgãos de segurança públicos, à natureza do homem, aos regimes ditatoriais, à academia, a autores, filósofos e obras consagrados e, por fim, ao próprio mercado editorial. Mas essa discussão sobre violência, morte e vazio, rouba a cena. E isso recai sobre a própria literatura.

Eis que chegamos ao quinto e derradeiro livro, que trata a vida de Archimboldi. Mas, não sei para quem já leu, aqui temos algo muito mais forte que um registro biográfico. É por isso que afirmo: depois de Bolaño, ninguém mais deveria escrever sobre a vida de escritores/poetas.

A literatura gera o contato com a violência antes mesmo de haver qualquer interação interpessoal. Diferente de uma relação comum, o escritor encontra sua “razão de ser” para, aí sim, interagir com as pessoas. O espaço vazio é a voga. A literatura é capaz de levar uma pessoa ao seu extremo e, enquanto o que está escrito não atinge outras pessoas que se identifiquem com aquilo, esse vazio só se agrava. São raros os escritores que querem ser ou se sentem compreendidos, estabelecendo essa relação de troca ainda em vida. É uma troca estabelecida entre o escritor e seu ápice: seu registro será eternamente lembrado como recompensa pelo salto para além do mundano, por ter transcendido à vida, porém, o tempo presente, onde o vazio existe e aumenta progressivamente, nunca será preenchido. Isso é cruel.

Eu tive que reler “2666” para compreender melhor essa relação entre literatura, violência e a busca por “preencher vazios” que ficou dando voltas na minha cabeça. Acontece que, se você ler com atenção, não precisa ler mais que 30 páginas de cada livro para perceber todas essas relações que eu fiz aqui. É tudo jogado na cara.

É, talvez, por isso que Bolaño, em muitos momentos, consome páginas e páginas tecendo críticas ao sistema, elaborando minicontos dentro dos livros e falando sobre vinte mil coisas aleatórias que, aparentemente, não fazem sentido. Mas qual a graça de uma obra tão fechada em si mesmo, tão perfeita? Por que não o leitor sentir na pele a violência de um fluxo de pensamento (ou vários deles)? Por que não o leitor não dar valor à beleza da construção narrativa de um Octávio Paz, fazendo com que soem bonitas partes tão violentas quanto as escritas por Gógol em “Tarás Bulba”? Você, como leitor, pode falar que “2666” poderia ter menos 500 páginas. Mas não tem!

Ah, a adorável perfeição dos pensamentos objetivos demais, que estão enquadrados dentro de uma classificação correta, criada por algum órgão especializado e gabaritado, e provocam certo efeito que deixa a todos a sensação de êxtase pelo mesmo motivo, na mesma parte, do mesmo jeito.

O tino que temos ao definir tecnicamente uma obra, não é o mesmo que temos ao ler e percebe-la como um todo. A necessidade de ler não sobrepuja a necessidade de escrever. A leitura é o fim de uma comunicação em que se espera que se preencha um vazio. Antes de ser analisada, uma obra precisa ser entendida. E entender uma obra que (obviamente) foi escrita por alguém é uma das coisas mais humanas que existe. Vai além de estudos acadêmicos, literários e mercadológicos. Estamos falando de empatia, de se justapor a alguém e, finalmente, de fecharmos um ciclo de interação.

Eu não reli Bolaño para resenhar Bolaño, eu reli porque precisava. Toda essa estrutura recai sobre o que eu realizei com o Rede de Intrigas até aqui. Foi um choque perceber as coisas que eu percebi. E foi um choque necessário. Uma das dádivas que a interação com mortos, através da literatura, produz é a sensação de conforto ao olhar para minha estante e ver como um livro me fez enxergar e aspirar coisas melhores. Ele está aqui do meu lado agora e eu estou extremamente feliz por esse texto, sabe-se lá o porquê.

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