Federigo Tozzi – Memórias de um empregado

Por Caio Lima

Emprego vem do latim “implicare”, que significa “unir, juntar, enlaçar”. Empregar uma pessoa é envolve-la num interesse comum. O empregado, desta forma, seria uma das engrenagens que move determinado interesse. Engrenagens são elementos de transmissão de potência. Pois bem, se uma engrenagem quebra, a máquina para. Não tem como continuar de forma capenga, do jeito que dá. A máquina para e é só, até ser consertada. Terrível. Nos coloquemos como empregados agora, vocês enxergam alguma semelhança da sua realidade com o sentido etimológico da palavra? E a palavra emprego, remete o envolvimento de pessoas num interesse comum? A viagem etimológica pode nos levar a lugares muito mais interessantes do que pensamos; e isso está refletido no romance “Memórias de um empregado”, do italiano Federigo Tozzi.

Desde a Grécia Antiga, o homem ocidental atualiza as definições da palavra “emprego”. Apesar do nosso ponto chave ser a Revolução Industrial, podemos fazer reflexões acerca da relação entre o homem, o emprego, os meios de transporte e a necessidade de cobrir grandes distâncias, bem antes disso. Por exemplo, como o deslocamento era algo tão individual? Uma carruagem já apresenta uma ordenação hierárquica entre patrão e empregado. Mesmo parecendo algo lúdico, são relações diretas.

Num mundo de relações diretas, mesmo onde uma parte sobrepuja a outra, as noções de distância são muito menores. Não sei se vocês percebem, mas somos muito mais efetivos quando sabemos o que estamos fazendo e para quem estamos fazendo. Essa troca direta, mesmo que desigual, dá sentido à relação que fizemos de emprego e o ideal de um objetivo ou interesse comum. Apesar de haver uma distância física, há a redução da distância emocional da coisa. O sentimento de satisfação, a própria conexão interpessoal estabelecida e a oportunidade de ser uma engrenagem na máquina, detém esse poder de redução de distâncias. Essa é uma forma genérica de explicar como os grandes impérios foram formados à base de cavalos e canelas, por exemplo.

O mundo moderno reduziu as distâncias físicas a nada, é um fato. Em compensação, a distância emocional torna-se cada vez maior. Consegue-se levar 100 pessoas num vagão de trem para o trabalho, mas nenhuma delas sabe o porquê de trabalhar tanto assim. Por isso que algumas viagens, curtas e rotineiras, tornam-se verdadeiros calvários. “Memórias de um empregado” é um romance sobre emprego e distância. Não que tudo se deva a ele ter ido trabalhar longe de Florença, as distâncias já existiam antes de ele partir.

Toda distância só é grande porque leva tempo percorre-la. Se ir daqui para o Japão levasse apenas uma hora, ninguém diria que o Japão é do outro lado do mundo, por exemplo. Da mesma forma, quão menor o tempo para você chegar no seu emprego, dentro das definições modernas, mais você terá disposição e tempo para trabalhar. O emprego, que se transmuta numa função sem fim senão a sobrevivência do empregado (não se acreditando fazer parte de um todo), acaba por ser a grande fuga do enquadro constante das distâncias emocionais, que são aumentadas progressivamente.

Produzir pode não ser fabril. Na verdade, não é em grande parte. A produção provém da realização, da satisfação. Mas pensem comigo: se produzir é meu único jeito de sustentar minha família, o quão satisfeito eu devo estar? A resposta é óbvia, minha satisfação reside em sobreviver e que os meus também saibam sobreviver tanto quanto eu. Você cria pessoas para que sobrevivam e se sintam satisfeitas à sua maneira. Essa é a estrutura de uma família no século XX. Naturalmente, essa é a estrutura familiar de Tozzi.

Para um adolescente, isso já é conviver com distâncias emocionais gigantes num período da vida em que não se acredita que viver seja só isso. É por isso que Tozzi esconde seu noivado. Isso mesmo, ele esconde a parte da vida em que se sente realizado da família. Como, eu não sei, mas esconde. Isso acentua a distância emocional que existe dentro de um lar, dentro de uma unidade familiar.

A partir do momento que se torna necessário esconder uma coisa tão importante quanto o amor, sabemos que as coisas não vão nada bem. Isso é mais uma consequência da redução das distâncias físicas em detrimento da redução das distâncias emocionais. O emprego, quando é declarado como objetivo fim na vida de uma pessoa, é porque ele já tomou conta de lugares que seriam inacessíveis a ele. Isso amplifica o sentido de sobrevivência mencionado acima, porque há o desejo de manutenção do emprego a qualquer custo. Sem aquela atividade fim, você não sobrevive e não se satisfaz. Toda a sua atenção é voltada para o emprego, bem como seu amor, sua raiva e o restante da sua humanidade.

A falta de aprofundamento em outras áreas da vida, ou o próprio desconhecimento sobre, fazem com que o pai de Tozzi defina a vida do filho, mandando-o para uma cidade do interior para trabalhar na estação de trem. Mesmo com noivado marcado, mesmo não querendo, Tozzi se vê obrigado a ir. A perpetuação do conceito de emprego como única forma de sobrevivência é mais forte que qualquer vontade que ele tenha. Nem mesmo seu noivado o faz refutar, fazer uma objeção ou algo do tipo. Ele vai.

federigo tozzi

Existe algo instintivo em nós, algo que revela, no nosso estado de espírito, que estamos em profundo desacordo com o mundo que escolhemos viver. Sim, o mundo que escolhemos viver. A vida é uma questão de perspectiva; de igual forma, a matéria também é. O crescente aumento dessas distâncias emocionais nos afasta de qualquer sensibilidade que possa existir. O emprego nos força a mecanizar as relações mais honestas que temos conosco e as únicas poucas coisas capazes de ainda despertarem isso em nós são as que deixamos guardadas em compartimentos especiais do nosso pensamento, em objetos especiais, em cartas cheias de promessas. Essa é a única coisa que ainda aproxima Tozzi, já empregado, do adolescente que sonha em se casar com a mulher que ama.

Pior do que em casa, sozinho e numa cidade pequena, Tozzi logo enxerga que a falta de tato, a disputa incessante pela manutenção do emprego e a manifestação de desagrado com a sua presença ali, são traços aos quais ele deveria se adaptar para sobreviver. E ele se adapta rápido. A distância que o afasta das boas coisas, agora o leva para um estado de espírito amargo. Isso o faz escrever mais. E é nesse ponto que Tozzi transcendeu e criou um grande romance de 100 páginas.

Lendo com atenção, percebemos que as entradas nos diários vão sofrendo mudanças de forma ao longo do livro e que existe uma tendência nisso. Quão mais distante emocionalmente Tozzi se encontra, mais longas são as entradas. A literatura, manifestada através do diário, poderia ser um ponto de encontro dos maus pensamentos. Poderia, até aparenta ser, mas não é. O diário, como todo bom diário, mostra-se um lugar para deixar a fluidez de pensamento acontecer, funciona como uma terapia, uma conversa consigo mesmo. Mas ele vai além e mostra que no mundo operário de Tozzi, no mundo de um trabalhador comum no início do século XX, há um contentamento, dispersão e alívio imediato, no exato momento em que se consegue elaborar imprecações contra tudo aquilo que o deteriora, mas não é suficientemente forte para resolver de uma vez por todas.

Sim, somos mais suscetíveis a elaborar e discorrer sobre os maus acontecimentos da vida do que de encara-los de vez. Quiçá falar muito sobre as boas coisas, estas guardamos conosco a sete chaves. Isso mostra o quão covarde somos; o quão satisfeitos com a miséria somos, a ponto de querer mantê-la mesmo passando por humilhações terríveis; o quão rápido substituímos as boas coisas da vida, as que realmente importam, por problemas diversos e fazemos de um grão de areia uma grande montanha; o quão somos desgarrados de quem nós dizemos amar, já que deixamos as preocupações levarem até o que é o amor; e, finalmente, o quão egoístas e teimosos somos capazes de ser, achando que o mundo gira em torno dos nossos problemas.

Fiquei realmente sentido de ver Tozzi carregando essas marcas já tão jovem, mas, mais que sentido, me identifiquei prontamente. Não é necessário fazer muita coisa, na verdade. É apenas uma questão de distanciamento. Se nos deslocamos para perto do que amamos, as perspectivas mudam. Isso já será notado nas folhas do diário em que estiver escrevendo. Seria possível regredir para um estado mais puro de consciência, no qual as trocas são mais afetivas, sem a loucura de hoje em dia? Talvez. Seria uma viagem longa. Bem que eu disse no começo que o sentido etimológico de “emprego” nos embarcaria nela.

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