Elvira Vigna – Nada a dizer

Por Caio Lima

Dá para admirar arte. Dá para analisar arte tecnicamente. Dá para interpretar arte. Dá para compreender a arte sob vários aspectos. Dá para elogiar a arte. Dá para sair por aí tirando onda com os outros porque você gosta de rock tcheco, usa um turbante marroquino, entende os quadros de Pollock e lê James Joyce todo dia antes de dormir enquanto toma vinho chileno com seu pastor belga malinois deitado aos seus pés. E isso não vale de absolutamente nada. Para quem conhece o Rede de Intrigas a mensagem é bem clara: ninguém precisa conhecer a fundo o assunto nem elaborar meio mundo de teorias malucas, só tem que rolar sentimento.

Em ‘Nada a dizer’, romance de Elvira Vigna lançado em 2013, a história gira em torno de um casal com seus 60 anos e o marido, Paulo, se mete num caso com uma mulher bem mais nova, N., amiga do casal há uns anos, também casada. Tudo é narrado pela ótica da esposa traída. Aparentemente é um enredo simples. Aparentemente. Elvira cava um poço e traz à tona uma série de questões. Resenhas que tratam da situação da mulher nos relacionamentos, outras falam sobre o retrato da classe média brasileira, algumas são mais gerais, outras vão além e fazem uma análise sob a ótica da psicanálise. Enfim, tem resenha para todos os gostos. Dá para perceber que Elvira é uma unanimidade no cenário contemporâneo (e tem que ser, com essa caneta pesada, nada mais justo).

Eu havia escrito uma resenha grande, bem grande (e boa), fazendo um link e observações sobre todos esses aspectos do livro, mas decidi reescrever para falar sobre uma coisa só. Por isso, perdoem se isso aqui está mal escrito, mas é assim que vai ser. Prometo melhorar.

Tendemos à dualidade. Falei um pouco disso na resenha que fiz sobre ‘A morte e a morte de Quincas Berro Dágua’. É até mais fácil, se pararmos para pensar. Construímos conceitos fechados sobre tudo e todos. Dois tons apenas, sem variações, sem surpresas. Fácil, muito fácil. Tão fácil que fazemos questão de esquecer da nossa própria complexidade. Caímos numa zona de conforto movida pela aparência de que tudo está visivelmente bem. Seguimos por meses, anos, décadas. Eu parei nos anos, ainda bem. Porque quando o invisível salta aos olhos, o desbaratino é louco. Dormimos num castelo e acordamos nas ruínas. Reconstruímos o castelo e voltamos às ruínas. Como se a vida fosse marcada por reconstruções constantes, trabalhosas e nada prazerosas.

Hoje, eu não avalio essa reconstrução de si mesmo como um processo natural. Na verdade é estagnação. É sempre tentar voltar para onde já se esteve antes, num ciclo sem fim. Isso é tão antinatural quanto a coca-cola que a gente toma. E não adianta mudar a torre de lugar, fazer um salão menor ou aumentar os muros, o castelo é sempre o mesmo e se tornará ruína, mais cedo ou mais tarde. Só de parar para falar isso já é cansativo. Mas é necessário para que vocês entendam meu ponto.

A partir do momento em que a protagonista começa a desconfiar das traições de Paulo, um castelo construído por décadas é demolido. No começo é a negação, a revolta, a fúria, o desespero. Como se convive com alguém que te trai? É uma relação hegemônica. Perde-se a liberdade e a equidade. Mas começam os flashbacks, desde quando se conheceram e lutavam contra a ditadura nos anos 60, até se tornarem um casal típico da classe média brasileira. Ou melhor, até se tornarem tudo o que eles combatiam com todas as forças. A vida e suas contradições tragicômicas.

Reconstituir toda uma vida dedicada a outra pessoa, a qual você descobre uma traição tão tosca, num relacionamento de duas pessoas tão abertas, tão progressistas, mostra o caminho o qual eles trilharam para chegar a esse ponto. Mas existe um ponto além, que fica subentendido como condescendência ao término do livro, num primeiro momento, mas que me veio à luz agora, e por isso resolvi mudar tudo.

Companhia das Letras

A esposa traída se confronta o tempo inteiro com o ato da traição e tudo que ela construiu com Paulo, esse bosta. Uma vida dedicada, curtida, arrastada por um relacionamento que agora está à beira da falência. E nesses enfrentamentos que se desenrolam por meses, existe um quê do duplo citado lá em cima. Você termina com um relacionamento e larga o amor da sua vida por conta da traição, ou o perdoa e finge que nada aconteceu para manter as aparências e tudo bem, bola pra frente, segue o baile? Duas questões com implicações enormes. Ou você tenta se reconstruir aos 60 anos de idade, mais ou menos, ou você se anula completamente e passa a mão da cabeça do cara só para manter o castelo em pé.

Pode parecer condescendência, burrice ou inocência. Para mim, foi uma tentativa de evoluir, de fazer as coisas diferentes e de se equilibrar frente a esse desmoronamento. Não é a questão do perdão, de parecer superior a isso tudo. É uma questão que parte de uma tomada de rumo diferente. De se libertar de um relacionamento abusivo e usufruir de um relacionamento livre, realmente. É tratar as coisas para além do duplo que imaginamos que tudo seja constituído, com desprendimento de intenções. Sentidos novos, caminhos novos. Parece uma viagem bem taoista, mas no meio desse caos todo, me ficou essa impressão. Tudo está ali para ser absorvido, sentido e destrinchado. Tudo serve para nossa evolução. Tudo serve para que nos equilibremos. Principalmente quando tratamos de amor, já que o amor é liberdade. Às vezes só é necessário sentir, sem ter nada a dizer.

4 comentários em “Elvira Vigna – Nada a dizer

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  1. Não fossem os reveses da vida, será que os paraísos perfeitos teriam sentido? Fatidicamente, ou felizmente, a roda gira e são as mudanças que nos fazem evoluir. É tanta lenha pra queimar no moinho da consciência que só mesmo o amor e a curiosidade pra nos fazer seguir adiante nessa caminhada rumo à liberdade.
    Caio, beijo no fígado!
    E já quero mais resenhas. (:

    Curtido por 1 pessoa

  2. Esse livro está na minha lista, mas, ultimamente, li alguns envolvendo traição, então preferi dar um espaço e ler depois. Quero conhecer o estilo da autora, mas imagino que seja sensacional, com uns bons socos no estômago. Desse ano não passa!!

    (Carol)

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