Alfred Jarry – O supermacho

Por Caio Lima

Tudo é justificável. Isso não significa que tudo esteja certo, principalmente quando pretendemos falar sobre a regulação de assuntos que são tratados como tabus dentro de uma determinada sociedade num recorte de tempo específico. Boa parte da tratativa desses temas considerados subversivos/progressistas são suprimidos a uma marginalidade completa, até serem redescobertos e retrabalhados dentro da literatura, sendo mais específico ao objetivo desta análise, e tornam-se cânones. Outros, num grupo mais seleto, exercem domínio tão grande sobre a própria inventividade, que não conseguem, em vida, serem relegados à irrelevância nem sob a taxativa de uma empedernida loucura.

A literatura, quando à frente de seu tempo, tende a produzir no literato um saudosismo sepulcral, numa espécie de maquinização do espaço-tempo. Não pense você que é simples justapor toda a barbárie que promove o progressismo de uma literatura horizontal e cosmopolita para realocar tudo na natural verticalização em ordem de importância, classe artística e manjedoura cultural, contextualizadas de acordo com o léxico academicista de quem submete à literatura um tratamento dispensado somente a um animal em fase de domesticação; algo rígido, antinatural e sectário. Uma luta travada em duas frentes com o mesmo objetivo. Num flanco, o tempo e o ideal de fixação de uma razão ideológica e semântica, não sendo permissivo o uso da obra literária fora do seu contexto temporal num método designativo sobre a publicação efetiva da obra e a sua abrangência datada, o texto se cerca de referências até um ponto específico no futuro, sendo esse futuro o máximo de inventividade do autor em questão; e seria pura subversão aproveitar-se disso como referencial contemporâneo anos depois. No outro flanco, o espaço e a permeabilidade seletiva de ressaltar a marginalidade julgada como propulsora de manifestações populares, contraproducentes a interesses específicos dos que regem a intelectualidade como banquete e agem como verdadeiros convivas glutões ou monarcas implacáveis, únicos herdeiros hereditários das letras e, por vez ou outra, quando o inevitável bate à porta, permitem a um filho bastardo tomar parte da festa, não sem a promiscuidade da partidarização de interesses.

Vocês já estavam estranhando meu estilo de crítico literário profissional, né? Foi só pra fazer graça. Voltemos ao lixo, que o luxo lexical me enerva muito.

Alfred Jarry é esse filho bastardo que é aceito como irmão pela galera e estraga a festa de todo mundo. Pai do teatro moderno, criador da patafísica e um dos escritores mais subversivos e miseráveis que já pisou nesse mundo, ele é a tendência, o pilar de sustentação, que fundou todos os movimentos loucos, surreais, psicodélicos e subversivos que conhecemos hoje em dia. Jarry só representa a mudança na arte e no pensamento subversivo porque foi capaz de ver o tempo em que se dá a evolução do homem como algo mais cru e elástico do que as gerações subsequentes. E isso fica bem explícito em “O supermacho”.

alfred jarry

André Marcueil, nosso protagonista, acredita que pode quebrar o recorde de mais transas realizadas em apenas 24h na história, que são 70; feito realizado pela lenda do “Indiano admirado por Teofrasto”. Mas por trás desse recorde se passa muita coisa, e é essa muita coisa que vamos discutir aqui. O livro, apesar de curto, é um amontoado de referências, o que torna sua dissecação um tanto confusa e, para uma resenha completamente sem compromisso com a verdade (até porque a verdade não existe ohhhhh), é impossível englobar tudo. Tenham paciência.

Já no título há uma clara referência a Nietzsche e à ‘teoria do super-homem’, colocada às claras em ‘Assim falou Zaratustra’. Mas antes precisamos dar um passo importante. Todos sabemos que o niilismo é um movimento que foi apresentado ao mundo, fundamentalmente, dentro de uma corrente literária russa, sendo o seu maior expoente ‘Pais e Filhos’, brilhantemente escrito por Ivan Turguêniev. Niilismo nada mais é do que fazer da negação um modo de vida. A partir do sectarismo promovido pela cultura do homem, há a negação de tudo o que não está relacionado a essa cultura e, mais agravante, a negação do que ela pode se tornar. É o caminho para a autodestruição humana. Como diria Foucault, meu parceiro de resenhas junto com Camus: “o homem é uma criação recente cujo fim talvez esteja próximo.”

Quando Nietzsche declara a morte de Deus, seu trono é ocupado por toda a sorte possível de dogmas, valores morais, valores religiosos e ídolos de barro que o ser humano é capaz de criar. Esse homem-superior, ou último-homem, é um ser completo, cheio de si e das suas criações, que crê seriamente na sua autossuficiência. Estamos falando de uma sociedade estacionária, onde o homem se fecha cada vez mais dentro de si e daquilo que é oriundo da cultura que foi criada por ele. Trata-se de uma sociedade que vive sua decadência na forma mais profunda. Caso prefira, uma sociedade completamente niilista.

E é desse processo de autodestruição individual e social que alguns homens, sob uma ótica distinta, se aproveitam do momento para se livrar das amarras dos dogmas cristãos e dos valores éticos e morais vigentes. Então, eis que surge o super-homem. A evolução do homem, sem qualquer tipo de valor imbuído, embutido ou atribuído. Sem conceito de moral e ética e justiça e humanismo. Completamente dono de si, os super-homens determinariam uma nova ordenação social plena. Duas coisas aqui são primordiais, a primeira é constatar que não existiu super-homem nenhum até hoje, ainda estamos presos a tudo o que criamos; a segunda é que para a ascensão do super-homem, depende-se muito de uma sociedade estacionária, ou seja, onde a todos sejam atribuídos os mesmos juízos e valores. Essa é uma crítica ferrenha de Nietzsche ao homem europeu ocidental de seu tempo, da qual Jarry se apropria brilhantemente.

Jarry também é considerado uma das molas propulsoras da ficção científica. Asimov, por exemplo, enxerga que o futuro é a substituição do ser humano pelo ser robótico. A ascensão das máquinas se deve à destruição humana pelo próprio homem, já que máquinas nada mais são que uma criação humana. Portanto, uma sociedade que acredita piamente na tecnologia como modo de vida, tende a investir no avanço tecnológico em detrimento à sua própria existência. Se preferirem, podemos usar novamente a expressão “uma sociedade completamente niilista”.

Marcueil está inserido numa sociedade extremamente dogmática, mas diferente dos valores morais e da religiosidade arbitrados por Nietzsche, Jarry vê, num futuro próximo (o livro se passa em 1920), uma sociedade dominada pela ciência. Exatamente tudo pode ser substituído pela ciência pura, inclusive o que é mitológico e o que é sentimental. Sendo assim, até o sexo tornou-se algo maquinal. Por isso causa espanto quando Marcueil afirma poder quebrar o tão famoso recorde do “indiano admirado por Teofrasto” sem a ajuda de nenhum aditivo ou recurso científico além das capacidades supra-humanas a que pode ser elevado pela própria prática do ato. Aquela crença de que é possível elevar-se a um ponto sobre-humano sem a ajuda da ciência, deslegitimando a própria formação moderna do homem e retirando a atuação da tecnologia.

O médico, o engenheiro e o químico que discutem a possibilidade dessa quebra de recorde com Marcueil, duvidam da naturalidade das explicações de Marcueil para essa quebra maquinal de tabu e oferecem um produto desenvolvido exatamente para esse propósito, que substitui qualquer alimento e potencializa as capacidades físicas do ser humano a algo superior, como um semideus. Indo além, convidam Marcueil para presenciar um teste desse produto, onde 5 ciclistas disputarão uma corrida de 10.000 km contra uma locomotiva a 400 km/h numa bicicleta especial. Até que um corredor misterioso, numa bicicleta simples, aparece, tornando-se um grande ponto de interrogação e uma representação metafórica do que estava por vir. Esse é o recorte que Jarry precisava para fazer uma leitura de um pensamento que estava começando a se formar com mais força dentro de um estrato social superior que, evidentemente, define os rumos que a sociedade toma culturalmente. O homem moderno e sua antítese.

É sedimentada a morte de Deus, há a promoção de uma ordem dogmática fechada em si mesma e uma sociedade que tende a ser completamente estacionada nesses ideais, já que seus líderes são. É tudo o que Marcueil precisa para se alçar ao posto de supermacho, já que ele se sente apto a tal. Mas ninguém acredita no seu potencial de homem heterossexual orgulhoso e viril para conseguir isso sozinho. Muito disso decorre de que não há, numa sociedade tão estacionada na ideia de que a ciência pode produzir toda e qualquer coisa, caminho livre o suficiente para que alguém pense além do que já foi criado. Mas suas explicações improváveis de como o sexo e sua repetição incessante funcionam também não ajudam em muita coisa para melhorar esse quadro. Não mesmo.

As explicações esdrúxulas de Marcueil são parte da patafísica de Alfred Jarry. A patafísica é, sem sombra de dúvidas, a melhor vertente filosófica e científica jamais criada nesse planeta, já que nada mais é do que “a ciência das leis imaginárias e das leis que regulam as exceções”. Ou seja, tá tudo liberado. Até os versos fatalistas do Engenheiros do Hawaii “somos quem podemos ser/sonhos que podemos ter”, tornam-se objeto de desejo visto pela ótica patafísica. Mas saindo um pouco do absurdo, a patafísica não é nada absurda e é coisa muito séria. Uma série de autores que você conhece e admira são versados nessa arte. Pesquisem!

A patafísica de Jarry é algo sistemático no livro para explicar diversas coisas. A primeira delas, e sem sombra de dúvidas a melhor, é a teoria louca sobre como a vagina torna-se cada vez mais “nova” e “rígida” quando numa sequência quase incessante de relações sexuais e em como o homem consegue ter orgasmos múltiplos após uma certa quantidade de transas, a ponto de conseguir repeti-las por 70 vezes ou mais num período de 24h. Ou como um morto consegue, através de estímulos, manter-se pedalando em alto nível, mesmo quando já está em estado de putrefação. E a dádiva da patafísica não atua apenas na biologia, ela se mete no desenvolvimento tecnológico de forma muito pertinente, começando pelo químico e engenheiro que insistem com o tal suplemento alimentar que elevaria o ser humano de nível no que tange a desempenho físico.

Nesse caso, a patafísica torna-se, pelo seu ideal imaginativo, algo cômico, mas na realidade é uma atenuante de todas as tensões que Jarry propõe durante o livro. É claro que a patafísica é levada a sério. Eu a levo a sério, pelo menos. Mas essas explicações absurdas servem para chamar a atenção de como podemos definir uma sociedade muito bem através de um enredo desenvolvido em cima de tabus ou alegorias montadas na morbidez do exagero. No caso de ‘O supermacho’, temos a hipersexualização. Se você já leu Elvira Vigna (próxima resenha), por exemplo, não vai achar muito explícito ou espantoso o que foi escrito por Jarry. Mas o sexo e o seu trato instintivo, dogmático, hiperdimensionado em quantidade e subdimensionado em qualidade, expõe muito mais do que os olhos podem ver.

É meio óbvio, mas a primeira impressão que causa desconforto é em como o sexo determina papéis sociais muito distintos para homens e mulheres. Enquanto os homens estão acalorados discutindo sobre um recorde sexual, o único pensamento possível é em como fazê-lo, as condições das mulheres para fazê-lo; virgens, jovens e “apreciáveis”, como as de Hércules. A própria decisão das sete mulheres que deveriam se revezar para que o recorde fosse batido é uma mostra disso. Os regimentos sociais apresentam uma hierarquia muito clara e injusta do erotismo presente na sociedade. Enquanto a satisfação do homem ocorre após a realização do ato maquinal tantas vezes forem possíveis, a mulher encontra-se numa posição de uso e sujeição, num estado contemplativo, esperando que a teoria sobre suas vaginas esteja correta, apenas. Apesar do sexo ter se tornado algo mecânico, as posições hierárquicas entre homem e mulher se mantém muitíssimo bem definidas. É uma visão ocidental explorada na raiz da cultura que nos move, e a isso são feitas menções importantes, principalmente à cultura helênica.

Outra relação que a hipersexualização de Jarry expõe é a incapacidade de cultivar sentimentos e desejos de forma salutar, criminalizando-os, a ponto de desejos serem transformados em ações violentas sem precedentes. Essa é a história de Macueil e Ellen, que aceita passar as 24h com ele e quebrar o recorde do “indiano admirado por Teofrasto”, enquanto as sete moças escolhidas ficam trancadas num quarto. A materialização do recorde, para Marcueil, só se dá através de uma experiência muito subjetiva e implícita durante todo o livro, só lhe sendo revelada quando, ao final das 24h e do recorde quebrado, ele acredita ter matado Ellen.

Ali, vendo-a finalmente sem máscara, ele percebe que o nascimento do supermacho se dá através de uma emoção que o destituiu da representação física do seu desejo. Ou seja, enquanto havia a máscara Marcueil acreditava que o desejo era materializado no ato e no recorde proposto. Estamos falando de algo pura e simplesmente robotizado. Após a quase morte de sua parceira, ainda acreditando tê-la matado e a vendo sem a máscara, há o deslumbramento e a assimilação de que o desejo que ele sentia durante aquelas 24h não era materializado no sexo como objetivo, mas no desejo por Ellen, e que esse recorde só poderia ser quebrado com algo mais resiliente que a própria vontade de quebrar o recorde ou de transar pura e simplesmente.

A percepção de que o amor (e os sentimentos de uma forma geral) podem elevar o ser humano a algo além do homem é altamente danosa à ciência, que não consegue, mesmo nos dias de hoje, explicar o porquê desse fator sentimental ser tão preponderante na nossa existência. Então, já que não podemos explicar e controlar totalmente o que as pessoas sentem, há a repressão do desejo como regra social e, naturalmente, o desejo torna-se proibido, vindo à tona em exsudações geralmente ligadas à violência. Mas a violência pode ser justificada como uma quebra do protocolo comportamental, um descontrole ou falta de sanidade, quando é simplesmente a falta de conhecimento do indivíduo sobre ele mesmo, uma forma de libertação de uma pessoa que nunca soube o que é ser livre de verdade. Qualquer semelhança com a sua realidade é mera coincidência.

A revelação de Marcueil, quando ele finalmente abre a boca para gritar que adora Ellen, deu esse parecer a todos os presentes e, rapidamente, a ciência vê ali uma maneira de criar uma máquina que crie o amor nas proporções aceitáveis pelos padrões normativos sociais, ou seja, todos amariam, mas não a ponto de se elevarem a um status de libertação como foi o de Marcueil, já que o exemplo da violência proporcionada pelo excesso de desejo estava, também, ligado à ele. Logo ele torna-se refém da sua própria condição num sistema que beira a perfeição.

A tentativa de extrair e recriar o amor de Marcueil em outras pessoas falha miseravelmente e Marcueil morre, não como um humano, mas como um supermacho. Um super-homem que transcendeu qualquer limite imposto pelo homem e redefiniu os caminhos a serem seguidos pela sociedade. Uma pena a sociedade não estar ali para ver esse acontecimento, claro. Isso me faz voltar a Nietzsche e o seu ‘super-homem’. Apesar de tê-lo tomado como base, enquanto Marcueil acredita ter-se elevado à condição de supermacho por ser desprendido dos dogmas que formam a base cultural daquela sociedade, ele só o faz com Ellen. Reside uma subversão e um enfrentamento claro à teoria do super-homem aí. O desejo admitido e não totalmente explorado por Ellen, leva a Marcueil a um estado primitivo de excitação e, finalmente, ao êxtase da evolução. O que, na minha opinião, significa que o desprendimento do homem de todos os seus dogmas o torna, ao invés de algo evoluído, completamente primitivo e incontrolável. O supermacho de Jarry deixa a impressão de ser uma regressão afetada e inefável do homem, abrindo margem para a proposição de que o super-homem de Nietzsche, na verdade, talvez seja um retorno ao início do homem. Voltar 10 casas no tabuleiro da existência, entende? A luz que Nietzsche propõe, na verdade, só aconteceria se o homem retornasse ao começo e fizesse tudo diferente.

Entrando, mais uma vez, no mundo da ficção científica e das distopias, há em ‘O supermacho’ a proposição de uma realidade orquestrada para que funcione perfeitamente em torno de uma plataforma exploradora e que regulamenta a desumanização como única prática social possível, onde seus heróis, homens primitivos/evoluídos, são peças únicas na sociedade e são massacrados por esse sistema perfeito. Lembrem-se de ‘Laranja Mecânica’, ‘Admirável Mundo Novo’ e ‘1984’. Huxley trata esse homem como um ser primitivo, Orwell como um homem evoluído, Jarry se utiliza de uma curva senoidal para provocação e toda essa literatura se encaixa dentro do contexto “nietzscheniano” do super-homem. Focando em Jarry, além do benefício da dúvida quanto ao homem, a sociedade é colocada sob uma ótica fatalista. Um ponto essencial para toda a literatura subversiva produzida no século XX.

O mundo niilista previsto por Jarry em ‘O supermacho’, se alimenta de uma modernidade anos à frente da vivida por Nietzsche ou pelo próprio Jarry, mas não deixa de ser, sobremaneira, claustrofóbica, irônica e nociva aos poucos traços humanos que restavam à época. Jarry não viveu o suficiente para presenciar o eclodir da guerra e ver a predominância das suas ideias e explicações patafísicas por sobre a realidade do que foi a transformação da sociedade ocidental ao longo do século XX. Em sua breve existência desrespeitou qualquer limite intelectual. Thoreau teria um orgulho imenso de Jarry, o desobediente, afinal. A patafísica é tão correta, mas tão correta, que produziu o único super-homem, ou supermacho, do mundo moderno, e ele é mortalmente dependente e falho. ‘O supermacho’, o romance moderno, é atual há mais de um século. É o que eu sempre digo: “surjo mudado, mas o mesmo”. Um desafio à morte, tornando-se cátedra para a eternidade. Nos dias de hoje, isso nunca fez tanto sentido. Espero que enxerguem o sentido de Jarry quando o lerem, seja ele qual for. Senão lamento muito por vocês todos.

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