Manning Marable – Malcolm X: uma vida de reinvenções

Por Caio Lima

Uns fazem história, outros contam história. Talvez essa frase seja uma definição muito oportuna entre um biografado e um biógrafo. Conduzir a história de uma pessoa tão maior que você mesmo é uma espécie de fardo voluntário. É uma espécie de bancada de negócios também, já que uma biografia bem montada constrói uma personalidade ou a desmonta em questão de poucas páginas e, bom, quem vai contestar o biógrafo que estudou tanto a vida dessa pessoa X para dedicar meses/anos da sua própria vida escrevendo sobre a vida dela, não é mesmo? A biografia é um subproduto literário que tem o poder de elevar expoentes até o infinito se pensarmos bem.

Só de falarmos em “literatura”, costumeiramente reservamos locais mais intelectualizados para contextualizar a obra de alguém, mesmo que esse alguém seja o Caio Castro (tenho vergonha do meu nome agora, como faz?), um cantor teen em início de carreira ou nossos queridos produtores de entretenimento para internet, mais conhecidos como youtubers. Por mais contestados que estes sejam a nível literário, eles geram muito lucro e de certa forma eternizam seu nome através da arte, gerando uma enorme divulgação através de um meio o qual os próprios nunca imaginariam estar inseridos, muito menos causar tanto impacto financeiro. Business first, babe.

Essa solidificação da literatura como propaganda e culto à personalidade não é de hoje. A cultura ocidental e todos os seus meios de controle dependem, por si só, de ídolos para se manterem estáveis. Mas num mundo que foi deixando de ser totalitário para se tornar mais “democrático”, entra em desuso utilizar uma única imagem como representação máxima. Somos seguidores de infinitas imagens que nos dividem, adulando um sistema cruel de normalização da ignorância e, pior, de subserviência a pessoas “melhores” que nós por natureza, apesar de não sabermos qual natureza é essa que torna alguém instantaneamente melhor do que eu, você e todo mundo.

Deter e estudar a informação, analisar os fatos e progredir pelo caminho sinuoso que uma vida tão invejada, perseguida e movimentada oferece. Talvez essa deveria ser a prática comum a nós todos, ao menos para investigar as pessoas que dizemos acreditar, quando naturalmente veneramos de olhos fechados. Falando de um biógrafo, isso deveria ser lei! E no meio de tantas biografias risíveis, me vem a biografia de Malcolm X, escrita por Manning Marable. Malcolm X não é apenas um homem, é uma lenda. Para quem está inserido no rap há muito tempo e convive com a manifestação quase que diária do seu nome em lançamentos da cena, é muito difícil não vinculá-lo a algo naturalmente superior e intocável. O X aqui é bem mais importante e representativo que o do Eike e sua teoria da multiplicação fracassada, diga-se de passagem.

Falar aqui do que representa Malcolm X é chover no molhado. Mas falar o que representa essa biografia de Manning Marable é essencial para que possamos entender que quanto mais humano for, melhor. Sermos próximos de Malcolm não é retirar sua importância, é dignificar cada um que acredita nas suas palavras como um igual, capaz de representar e fazer tanto quanto ele fez. É entender que legados existem para serem usufruídos e aperfeiçoados conforme a necessidade e a mudança dos tempos; e não como um fetiche inatingível.

Manning demorou 10 anos para escrever essa biografia e, além disso, montou o maior acervo sobre Malcolm X do mundo. A biografia torna-se, portanto, a condensação de tanta informação acumulada e (des)informação desmentida. Professor universitário de respeito, detentor de uma vasta obra literária sobre história, cultura e direito dos negros americanos, ele dedicou sua vida percorrendo o ideal de que sua militância acadêmica fosse capaz de atingir todos os negros sem exceção, o que abrange, não muito diferente daqui, a maioria da população negra que vive em situação marginal. Existe o extenso e árduo trabalho de pesquisa, existe o trabalho de condensar toda essa pesquisa num único volume e, ainda por cima, existe a transformação da linguagem, saindo de um livro denso e acadêmico, como deveria ser um livro fruto de um trabalho acadêmico de 10 longos anos com uma vasta equipe, para uma linguagem que abrangesse o americano comum, inserindo a academia para um público totalmente periférico. Isso é ativismo. Mais importante: isso é legado! O site com todo o acervo que Manning teve acesso está aberto ao público, tem o que vocês quiserem saber lá de graça. Surreal!

Mas disponibilizar tanto conteúdo assim, de uma vez, tem lá seus perigos. Isso pode desmistificar a indústria que alimenta a imagem de Malcolm que querem modular na cabeça das pessoas. Pode colocar em xeque, também, a extravagância de quem acredita que Malcolm era intocável pela sua grandiosidade e representatividade, como líder de uma seita, um profeta, um xamã. Não que devamos passar a vida inteira relativizando atitudes de pessoas, é babaquice passar uma vida inteira falando “olha, ele foi muito bom, mas fez xixi fora do vaso três vezes essa semana” ou “olha, ele foi uma pessoa ruim, mas teve um dia que tirou um gatinho de uma árvore, merece lá seu crédito por isso”. Enfim, o grande perigo dessa biografia (e a maior virtude) é mostrar o homem Malcolm X e tudo o que ele foi capaz de realizar dentro de todas as suas contradições, que não eram poucas.

Após um longo processo de leitura, de ter passado e repassado alguns capítulos desse livro, entendo e admiro Malcolm mais ainda. Mas não é por sua luta, apenas. Malcolm, mais do que ninguém, foi um homem de fases. Durante toda a sua vida mudou, e mudou muito. Sem medo de ser controverso, ele seguiu em frente. Desde o malandro e chapado Big Red até o consagrado mensageiro da integração racial e do pan-africanismo, percorremos vários caminhos, que na verdade nos levam a um lugar só: não se submeter a nenhuma força externa, mesmo nos momentos mais difíceis. Para que fique bem claro: não se submeter a nenhuma força externa não significa que ele era autossuficiente e que não havia, nele, outras influências. Significa, sim, que apesar de tudo o que o rodeava, ele foi capaz de canalizar sua visão de mundo e seguir adiante da forma que bem entendia, incluso todas as suas mudanças e contradições, certo?

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Claro que a vida não é feita apenas de suquinho de framboesa. Suas escolhas o levaram a uma perseguição implacável até sua morte, à depreciação popular, ao rompimento de vínculos afetivos fortíssimos e a relegar a própria esposa e filhas num segundo plano, se ausentando sempre que podia. Se isso tudo valeu a pena? Só o próprio poderia responder. Muitas atitudes que Malcolm foi capaz de tomar foram absurdas e temerárias. São coisas que eu nunca imaginaria, na verdade. A maior delas foi um encontro, quando ainda estava na Nação do Islã, para negociar com a KKK. É, isso aí mesmo, Malcolm negociou um acordo com a KKK. Dentre outras coisas, Malcolm aderiu, primariamente, a uma ideologia totalmente sectária, que via os homens brancos como demônios e excluía qualquer outra raça senão a do homem negro oriental. Também era machista, homofóbico, adúltero, entre outros. Ou seja, tem Malcolm pra todo mundo. Para quem o ama e para quem o odeia. E ainda tem bastante motivo pra justificar a sua opinião.

 A literatura não aponta ou propõe o que é certo e o que é errado. A literatura tem, por definição e função artística, fazer você pensar por sua conta, se arriscar a formar uma opinião e, o mais difícil de tudo, ter coragem de se desfazer de opiniões já formadas. O certo e o errado ficam à cargo do que você acredita ser certo e errado. E isso muda conforme o tempo passa. Da mesma forma que o autor de ficção faz proposições segundo seu ponto de vista, tudo aquilo que seguimos está intrinsecamente ligado ao modo como vemos o mundo e isso não cabe a ninguém julgar, senão nós mesmos. É algo sublime. Todos esses processos de incineração ou exaltação virtual que vemos hoje em dia, principalmente sobre nomes como Malcolm X, Che Guevara e Fidel Castro, os três maiores personagens da segunda metade do século XX e bastante próximos ideologicamente entre si, refletem esse processo perverso de ter de escolher um lado para seguir, quando eles mesmos se deixaram levar por devaneios e contradições durante toda a vida. Por isso, senhores, quem muito julga ou determina o que são outras pessoas, nada mais faz do que falar de si mesmo. Seus julgamentos são, mais do que suas atitudes, o conjunto da sua alma.

Manning é professor, negro, escritor e ativista. Isso não o impediu de ver claras contradições e mentiras nas muitas versões de Malcolm que passaram por ele nessa roda-viva que é a geração de ídolos-quase-deuses que no mundo se criou. Na verdade, todas essas atividades o fizeram questionar de forma muito severa tudo o que conhecia até então. O ser humano Malcolm X, sua visão de mundo e a influência que ele foi capaz de causar na vida de milhões de pessoas. Contextualizar isso vai muito além de emitir uma opinião como “ame-o ou deixe-o”. Existe um processo de recriação da história que abrange algo tão complexo e sutil, que não pode ser tratado nunca com imparcialidade. Aqui não reside uma biografia imparcial, muito menos uma visão relativista de Malcolm. Lembrem-se: informação e estudo produzem liberdade de pensamento, não pessoas que ficam em cima do muro. Cada linha escrita por Manning tem essa função, fazer com que pensemos sobre Malcolm X de forma objetiva.

Falar do autor da biografia, e não do biografado, pode parecer controverso, mas eu quis que fosse assim. Infelizmente não temos obras traduzidas, além dessa, do autor. Eu gostaria de conferir tudo o que esse cara escreveu. Infelizmente não percebemos, mas autores como Angela Davis, Maya Angelou, Bell Hooks, Marcus Garvey e outros grandes autores e ativistas negros não chegam até nós da forma que deveriam. Isso é inadmissível. Perdemos, cada vez mais, a capacidade de observar o mundo de forma democrática. As visões são unilaterais demais, seguimos tendências e ainda achamos que temos liberdade de pensamento. Por isso é importante falar de Manning Marable, mais até que da biografia em si. Por fortuna do destino, do trabalho e de um Pulitzer mais que merecido, ele foi traduzido para nós. Mas quanto ainda está coberto para nós? Quantas faces da história ainda não conhecemos e não somos capazes de interpretar livremente?

Malcolm descobriu a liberdade através do conhecimento, por isso nunca se importou em se contradizer e defender aquilo que acreditava à medida que seu desenvolvimento o fazia transgredir os padrões a que ele mesmo se impunha tão firmemente. Suas contradições foram exploradas para que se tornasse lenda, quando, na verdade, só o tornavam cada vez mais humano. Marable, tanto quanto X, buscou beber na fonte do conhecimento e entregou uma biografia escrita com a firmeza de uma pessoa livre, desprendida das convicções que nos impedem de olhar além do homem e explorar todo seu legado. Malcolm X foi um gênio de seu tempo, Marable outro. Está na hora de conhecermos ambos. O legado de Malcolm X está seguro, e livre, na biografia de Manning Marable.

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