Frederic Manning – Soldados rasos

Por Caio Lima

A guerra sempre foi vista com olhos de nobreza. O desenvolvimento do homem e suas virtudes plenas alcançam seu rendimento máximo e ultrapassam os certames comuns para um estado de elevação espiritual e comportamental jamais conquistados. É ali, naquele campo enorme e, ironicamente, claustrofóbico que as raízes dos valores mais nobres e céleres do ser humano se excedem numa demonstração desesperada e oportunista da fibra moral e do caráter do homem. É ali, no meio dos morteiros, tiros e granadas que o homem realiza sua maior introspecção e divide-se num flagelo divino, pois luta para si, por sua nação e por todos os princípios nos quais acredita. No clima tenso, em meio aos gritos dos homens feridos, é que o soldado se destaca e é capaz de elevar-se à uma condição semelhante a de um nobre, sobre-humano, se sentindo tão importante quanto seu rei deve se sentir. E assim a guerra se manifesta como o elo entre o homem e o mais puro estado que ele poderia alcançar, num forçoso processo de seleção natural onde não são os mais fortes que sobrevivem, mas os mais arrebatados, colocando-se em paridade a Ares, divindade helênica, deus da guerra, pois Hércules já foi ultrapassado há tempos. C’est le guerre. Mais non.

Frederic Manning já não era um adolescente quando foi à guerra. Crítico literário reconhecido e poeta, após muitos anos, em 1929, resolveu publicar um romance baseado nas histórias que viveu e observou durante a primeira guerra mundial. O Soldado 19022 ganhou o mundo revelando uma guerra sem glamour ou feitos heroicos diários. Na verdade, nada de heroico acontece durante esse livro. Se você procura um romance inspirado em fatos vividos por um herói, lamento dizer, mas Manning era apenas um soldado raso que escreveu sobre outros soldados rasos. Para compreender Manning e seus olhos de poeta, há de se buscar na essência do seu referencial o porquê de ‘Soldados rasos’ ser, definitivamente, a grande obra da primeira guerra, senão de todas as guerras, que eu tive a oportunidade de ler.

Todo capítulo é iniciado por recortes de peças de Shakespeare. Mais do que a linguagem, o grande ato subversivo da obra shakespeariana é dar voz igualitária a senhores e gente comum, modulando um pouco a pirâmide social que dita a importância dos acontecimentos e delegando influência a personagens que retratassem a base do povo, ou seja, nem o menor personagem das tramas de Shakespeare é um completo zero à esquerda. Isso explica, por exemplo, o efeito espantoso do discurso de ‘Henrique V’, talvez o discurso mais famoso do mundo. O clamor e seu reconhecimento através das gerações se dá porque há, de fato, uma elevação do espírito dos soldados comuns, que combateriam junto ao seu rei como iguais. Shakespeare fez um retrato da alma da guerra, ou no que acreditavam sê-la, mais humano. Manning capta essa essência para observar o front e colocar no papel a história de Bourne, uma espécie de alter ego. De forma alguma ele é tão encantador como Shakespeare foi capaz de ser, mas reside no seu olhar lúgubre, quase depressivo, a força da guerra sobre o homem comum. E, da mesma forma que em toda obra shakespeariana, isso não reside na nobreza inata, tanto como status quo quanto como virtude, mas quem ascende à ela.

Estruturalmente, a narrativa de Manning conduz Bourne de forma despretensiosa, tanto quanto suas atividades no front. Mas não que Bourne fosse preguiçoso ou desatento, muito pelo contrário. Sempre solicitado por algum setor diferente, era tido como exemplo de retidão como soldado, sendo, por diversas vezes e à contragosto, elegido a oficial, mas sempre procurando uma via para recusar a promoção, pois se sentia melhor como um soldado comum, junto dos seus. Essa despretensão de Bourne (e consequentemente Manning) pela vida na guerra, nos arrasta para dentro de um universo até então novo dentro de toda a “literatura de guerra” de um modo geral. Sempre muito denso, as peças motoras da guerra que Manning participa vão se montando em torno das atividades comuns dos homens que compõem o exército britânico na França. Nada de muito especial, nunca. Treinamentos, homens feridos, transferências de setor, morteiros explodindo, deslocamento de acampamentos, mortes, uns tragos clandestinos e noites mal dormidas.

Saindo do século XVI, e de Shakespeare, e mergulhando no século XVII, e mudando completamente o tópico também, podemos explicar esse marasmo estrutural através da física de Isaac Newton com a Primeira Lei de Newton, a famosa Lei da Inércia. Nela, Newton diz que um objeto que não sofre a ação de qualquer força permanece em seu estado natural: ou parado, ou em movimento retilíneo uniforme. Toda a tramitação burocrática, que refletida no próprio ambiente das trincheiras, é a tônica da organização militar. A guerra é um grande jogo de xadrez sem tempo determinado para cada jogada. Nesse MRU (Movimento Retilíneo Uniforme) que é a organização/movimentação do exército, sobra um tempo que não é capaz de ser preenchido a partir do momento em que identificam a não necessidade de tantos trâmites para que as coisas funcionem bem ou se mantenham no lugar. O aparecimento de lacunas de tempo cada vez maiores a serem preenchidas e a própria sensação do quão vagaroso é fazer uma guerra, retirando aquele ideal do heroísmo e da ação ininterrupta, provoca um sentimento comum de desânimo. E meios de se aprofundar nesse desânimo não faltam no front. A princípio, essas maneiras de extravasar aparentam aleatoriedade, mas podem ser explicadas por um estado da (falta de) consciência que funciona como elo entre o homem, a guerra e seu sentido.

A depressão, em diferentes níveis, é um ponto chave para mergulhar na obra de Manning. A realidade lúgubre em que habita Bourne é fruto de uma desconstrução consistente de alguns sentimentos que nos são comuns e aparecem como necessários em situações tão extremas quanto uma guerra. Passamos longe da indiferença aqui. Sua própria aversão às patentes militares e suas constantes reclamações/manifestações sob as condições da guerra e a injustiça dos oficiais, inferem a ele esse senso de justiça social dentro da organização militar, retirando qualquer suspeita de que esteja alheio aos acontecimentos. Trata-se de um estado de espírito mais profundo e, por isso mesmo, muito mais difícil de ser trabalhado na literatura. É a perda do medo e, consequentemente, da esperança, causados pela afetação direta das liberdades mais básicas. Ou da esperança de tê-las o quanto antes. Ou medo de não tê-las nunca mais. A afirmação do ócio e a inutilidade do cumprimento dos exercícios de guerra, misturados a essa sensação de que não adianta esperar por mais nada, transformam a voz comum de um livro de guerra para algo mais simbólico e próximo do front.

Espinosa define que “a esperança é uma alegria instável nascida da ideia de uma coisa futura ou passada, do resultado da qual duvidamos numa certa medida”, e “o medo é uma tristeza instável nascida da ideia de uma coisa futura ou passada, do resultado da qual duvidamos numa certa medida”. Numa primeira conclusão, é evidente que a esperança e o medo são inseparáveis. Um é incapaz de existir sem o outro, porque possuem a mesma origem para que sejam realizadas as suas proposições: a dúvida.

Essa “alegria instável”, sem a dúvida sendo o fiel da balança para que haja a esperança, torna-se “alegria plena”. Ou seja, saímos de um estado de expectativa iminente e passamos para uma esfera mais sólida, pois nessa ideia reside o usufruto do estado de alegria no presente; já não há mais passado ou futuro para pensar, apenas o presente a ser desfrutado, agora! Da mesma forma acontece com o medo; se retirado o permanente estado de incerteza, colocamos de lado esse elástico temporal entre passado e futuro, realizando a sensação no presente, contemporânea ao sentimento em sua plenitude.

Desespero, por definição, é não ter esperança mais. Pode ser definido, também, pela consumação do medo. Eis o elo que precisávamos para continuar. Longe das fugas mirabolantes ou dos atos heroicos irracionais (ambos são desespero também, mas aí chegaríamos em outras esferas da discussão filosófica), a desesperança de Bourne é a plenitude da sua realidade. Quando seu medo é materializado no teu presente e há a perda total da boa esperança, larga-se mão de qualquer noção de satisfação ou melhoria, mesmo que num curto prazo de tempo. Trechos recorrentes que tratam a guerra como já vencida, mas sem data para terminar, são a síntese perfeita desse fatalismo depressivo de Manning e a manifestação sincera de alguém desesperado, mas já conformado com seu estado de eterna espera por um ponto final. É um poço sem fundo no qual Bourne afunda e nos leva junto. Essa imersão no desespero, como recurso narrativo, mexe profundamente com a nossa cultura imediatista no exercício da leitura, configurada por problemas que se interligam, todos, com a ansiedade, a necessidade de saber tudo logo. Criando uma redoma de espera insatisfeita e conformação depressiva, somos regidos para dentro de uma rotina de leitura psicologicamente cruel e física. Isso é genial!

Mas essa empatia para com o estado depressivo crescente de Bourne só pode ser realizada através da observação de alguém cuja a sensibilidade é, de fato, uma característica inata e muito latente. A expressão “enxergar com os olhos de um poeta”, no século XX, não poderia ser delegada a mais ninguém, senão Frederic Manning. Bourne é usado como espinha dorsal para interligar tudo o que ouviu e observou na guerra. Manter uma narrativa sólida com esse nível de exposição emocional, sem perder o fio da meada e sem perder a conexão e a ordem de todos personagens ali lançados, preservando a força e importância de cada um deles, não é, definitivamente, coisa para qualquer um fazer. É talento, inspiração e, quem sabe, um encontro mediúnico com Shakespeare.

Nada disso adiantaria se a narrativa não fosse movida por uma linguagem de fácil acesso e cheia de recursos muito bem manipulados. Sendo o livro um expositor de toda uma classe, cabe ao autor conseguir reproduzir sua escrita de maneira a fazer esse intercâmbio entre o soldado e a literatura. E Frederic Manning o fez com maestria. É claro que ele sofreu censura, teve várias partes do seu texto recortadas para que pudesse ser publicado e a versão original do texto só chegou às livrarias no fim dos anos 70. Ainda assim, existe uma essência impossível de ser contida na narrativa de Manning que, mesmo com o texto picotado pelos editores, causou revolta ao falar da guerra de forma tão popular, colocando sua visão proletária e depressiva das trincheiras.

Outros, grandes, trazem consigo o medo e a esperança como marca registrada. Apesar das constatações sobre o estado psicológico da guerra e sua influência na formação do homem, a esperança não deixa que essas obras desenvolvam totalmente o potencial destrutivo da guerra e o medo não deixa que os valores básicos do homem sejam explorados acima de todos os males. São autores encobertos por dúvidas e as dúvidas fazem flutuar, dentro da própria narrativa, a extensão e a magnitude do fenômeno no homem e na sociedade. É como se sobrasse sentimento e faltasse substância. A dúvida é necessária, porém a guerra é feita de certezas, de plenitude. Isso enriquece, inclusive, o debate filosófico sobre o que é, de verdade, a guerra.

A obra de Manning foge, e muito, desse contexto dúbio, e é sólida e constante, como num samba de uma nota só, sendo caracterizada pela ausência do medo e da esperança, bem como pelas ausências das paixões e dos arrebatamentos. Ausência é uma palavra que define muito bem essa odisseia moderna. A guerra retira muito mais do que é capaz de retribuir às pessoas. Enquanto a literatura tenta construir o homem dentro do ambiente da guerra, Manning vai desconstruindo cada camada dos soldados que habitam seu livro. De repente esse festival de ausências começa não só a fazer sentido, mas também revelam que o homem da guerra não é bravo, não é um herói helênico e não é um animal que age por puro instinto. O homem da guerra torna-se, numa rotina de autocomiseração, depressão e descontrole, nulo. Nesse ponto, não há compensação futura da vida, do Estado ou da família que o restitua. A guerra não é uma cicatriz remanescente, é ferida aberta. Não existe mais medo da guerra. O estado desse novo homem é inviolável e pleno. Ele vive com o que restou da guerra, sem medo ou esperança.

São a “ausência como certeza” e a “desconstrução do homem” que regem as vozes e o comportamento dos soldados, principalmente de Bourne, nossa espinha dorsal, durante toda a narrativa. Intrinsecamente ligado aos soldados está a ausência de ação no livro. Não são narradas grandes batalhas, nem precisam ser. Não porque não havia batalhas a serem travadas. Havia muitas. É a tônica de uma guerra, afinal. Mas os soldados caracterizam-se pela função, um cargo tão somente, não pela vontade de lutar. Seus espíritos não são movidos pelo combustível da glória a qualquer custo. Estes só querem que tudo acabe o mais rápido possível. Tanto faz os meios, só o fim da guerra, ou só o fim, interessa. As batalhas e a glória da guerra ficam a cargo de quem foi moldado a pensar somente nisso, ignorando a própria saúde mental ou a existência de traços humanos nos seus subordinados.

O absurdo reside na guerra dos que enxergam que sua liberdade plena é proveniente das realizações conquistadas nos campos de batalha. Tratamos, assim, de um estado de consciência que prega o princípio da amoralidade e se eleva para a satisfação integral como a virtude básica. Camus explica isso em sua filosofia do absurdo, que eu sempre utilizo por aqui, aliás. Manning mostra o estado de pessoas que vivem alheias e, pior, a mercê das reservas morais de quem atinge esse estado de consciência nas trincheiras. Pressuposto isso, concluímos que esse livro vai além de um registro de guerra. Essa é uma obra de protestos.

As pequenas guerras internas travadas entre soldados e oficiais do exército inglês reforçam, como dito, que a desconstrução do homem é gradativa e incapaz de gerar indiferença, mas sim manifestações claras de vazios provenientes de uma depressão profunda. Outro ponto são as maneiras de extravasar ou externar os vazios que são sentidos no cotidiano vagaroso da guerra, que são bem diferentes em forma, mas possuem uma fundamentação básica, pois os soldados se reconhecem entre si não só pela classe, mas pelo vazio, pela semelhança dos seus dramas e pela indiferença com que são tratados. Sendo assim, há a identificação do espaço gigante que existe entre eles, soldados, e seus oficiais. São duas guerras diferentes e nada paritárias. Há, de uma maneira latente, a subversão da forma que a guerra é contada através dos tempos na literatura de ficção, principalmente. Há um descenso claro em relação ao brio do homem da guerra. Na verdade, não há brio nenhum nesse livro, senão qualquer coisa que possa ser considerada “o desejo de que tudo acabe logo”.

Escrever sobre a guerra é fácil desde que sua literatura esteja de acordo com o mercado. Clássicos serão sempre clássicos e, muitos deles, foram censurados em diversas épocas por diferentes motivos. Voltando a linguagem e ao texto em si, temos aqui um dos livros mais subversivos da história. Sem exagero. Talvez nem Manning soubesse disso ao escrever. Muitas das vezes, ao colocarmos sentimentos puros no papel, podemos ser o ponto de partida de uma revolução, sim. Não existe um estágio de nirvana aqui, de ninguém. É uma luta crua e cruel pelo fim. O fatalismo com que a palavra “fim” é tratado no front amplia, e muito, seus significados para um acontecimento além do fim da guerra. Todo e qualquer final possui o mesmo sentido. Triste.

A história é recheada de obras subversivas que se tornaram atemporais, mas poucas são as capazes de permanecer tão subversivas a ponto de descerem os degraus da forma em que são moldadas e escritas. E diferente de outras obras, aqui temos a inserção de uma abordagem muito aguda, nova e, ainda assim, muito palatável da guerra. Sentimos o peso das palavras de Manning como se fossem nossas palavras e, por isso mesmo, não sabemos o porquê de nos sentirmos vazios, mas passamos a questionar essas ausências virais que passam do livro para nós e passamos a enxerga-las de forma cotidiana. Algo acontece para lá da simples identificação com o livro, é como se fôssemos os próprios soldados e tentássemos procurar por mais outros. E na tentativa de identificar outros soldados iguais ao que eu estava me descobrindo, o registro logo me trouxe a lembrança de um conhecido da força aérea alemã que foi combater no Afeganistão e no Iraque há poucos anos atrás. Ele voltou exatamente como um dos soldados que Manning descreve no livro: vazio, ausente e à espera do fim.

Literatura plena, sem abstrações. Não pensem vocês que a plenitude de estado dentro da literatura é imiscuir-se de uma discussão ampla. Aferir um estado de espírito contrário a grande maioria das literaturas existentes é abrir um novo ponto para se discutir literatura, literatura de guerra e a própria guerra em todos os seus desdobramentos.  Isso é contracultura no seu nível mais elevado. Isso é arte.

Frederic Manning não escreveu o maior libelo humanista sobre a guerra, muito menos a obra de maior impacto visual, com batalhas, atos heroicos e horror. Sua preocupação foi a de retratar as ausências tão garantidas quanto o soldo miserável dos soldados, de escrever sobre lacunas que vão deixando de ser preenchidas gradativamente pela ação de um tempo que parece nunca passar. Sua visão sólida sobre o vazio da guerra vai contra a corrente da literatura subversiva que acusa e cobra, colocando pimenta na ferida. Manning já não se vê capaz de cobrar nada, afinal, sua espera de nada vale quando não se sabe quando será o fim. Sua desesperança já não permitia o medo agir na sua escrita mais, proporcionando um embate sublime entre as ausências que sentia e a eternidade do seu maior registro. No fim, é dessa ausência de tudo que o poeta se faz presente. A plenitude do momento colocado com sentimento. Guernica da literatura. A depressão como agente de criação. Coletivizar o íntimo. Tornar íntimo um meio tão coletivo. Manning é fascinante por ter escrito uma obra gigante sobre um dos maiores processos de inanição do mundo; e dele mesmo.

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