Jorge Amado – A morte e a morte de quincas berro dágua

Por Caio Lima

Há quem diga que a morte é o fim de tudo. Há quem diga que é o (re)começo, como um portal pelo qual passamos para ressurgirmos numa nova vida, com novas chances e novo tudo. Se falarmos de morte simplesmente como mudança, quantas vezes somos capazes de morrer nessa vida? Não, a resposta não é uma só. Nós já morremos algumas vezes e morreremos outras vezes mais. Por exemplo: o Caio que tinha vergonha de publicar o que escrevia, morreu, para surgir esse Caio aqui, que escreve e torna seus textos cada vez mais públicos. E é nessa sequência de mudanças e passagens que a vida molda nosso caminho. Para além desse período que passamos aqui, respirando e sentindo o coração bater mais forte quando percebemos que fizemos cagada, eu não sei. Isso é uma visão muito particular da crença alheia e, admito, não sou nada religioso para optar em tais questões. Mas pensem um pouco, a nossa expectativa de vida é de 80 anos mais ou menos, certo? Então dá para falar de bastante coisa que acontece nessa vida aqui.

Jorge Amado escreveu sobre ‘a morte e a morte de Quincas berro dágua’. Duas mortes, isso mesmo. Joaquim era funcionário público de carreira, respeitado e pai de família, o famigerado “homem de bem” que algumas pessoas amam defender e tentam, sem muito sucesso, ser. Quando sua filha, Vanda, decide casar com Leonardo, uma versão 2.0 de Joaquim, Joaquim sai de casa e se torna Quincas, sofrendo sua primeira morte. Lenda do subúrbio baiano, Quincas é o completo oposto de Joaquim, boêmio, despreocupado e inconsequente, até que morre de novo. E a história se passa toda em torno da memória e do velório de Joaquim e Quincas, essas duas personalidades tão distintas.

Antes de falar sobre a morte em si, vocês já puderam perceber no parágrafo acima que Quincas viveu os dois lados da moeda. Ao longo dessa novela, isso acontece por diversas vezes com Quincas. Ele sempre, mesmo depois de morto, está à mercê do duplo, ou seja, dos dois extremos da balança, e não há dúvida de que ele sempre opta pelo lado profano, sujo, da coisa. Isso é mais do que perceptível.

Novelas desse tipo, muito bem configuradas e polarizadas de maneira ideológica, podem funcionar como um grande laboratório para o autor e ‘a morte e a morte de Quincas berro d’água’ não foi diferente para Jorge Amado. Dividindo a história de Quincas em dois extremos, Jorge Amado tipifica o sentido de certo e errado na sua visão altamente subversiva para a época, o que, naturalmente, coloca a cena do underground baiano num patamar acima em questões de solidariedade, ética, compaixão e amizade. Fica muito evidente que a mistura calorosa, urbana e intensa dos subúrbios de Salvador moldam uma imagem de uma aceitação, naquele meio caótico, muito despropositada e natural. A ausência de julgamentos e estereótipos, apontadas por Jorge Amado como principal característica desse tórrido cenário, tem um poder quase místico de reacender as pessoas para a vida, sem estigmas e padrões socialmente impostos. Você é o que você e isso basta. Agora chega mais e desce uma branquinha, sacou?

Jorge Amado nem esperava uma ditadura plena, como foi a civil-militar em 1964, quando escreveu essa novela, mas já residia no imaginário tão instável do brasileiro “médio” essa ordem instaurada dos bons costumes reacionários, mais fortes do que nunca, que privavam a manifestação livre de outros estilos de vida. Estilos esses misturados e representados, de certa maneira, pelos becos baianos onde Quincas fez sua fama. Mais do que a crítica às pessoas de bem, essa ode a boemia funciona como uma grande ironia para inflamar o pensamento progressista do qual ele compartilhava.

jorge amado

Mas não para por aí, não. Ao estabelecer essa relação de duplo, fica bastante evidente que o autor sente, nesse laboratório em formato de novela, que há uma expatriação das formas pós-modernas de se convencionar os movimentos diversos que surgiram após a segunda guerra mundial e a polarização de vertentes ideológicas antagônicas, tomando por uma ingerência essa diversidade ideológica. Torna-se urgente a retomada de um pensamento passado, mais básico e razoável, onde há o certo e o errado apenas. Sabemos muito bem o progressismo defendido e praticado por Jorge Amado, por isso não é de se espantar que os becos sujos da Bahia sejam lugar de muito mais conforto, verdade e simpatia que a ordenação familiar e os dogmas sociais praticados por uma família comum.

Eu tenho falado muito sobre o início do período pós-moderno, se não me engano essa é a terceira resenha seguida em que toco no assunto, mas não é despropositado. As movimentações do mundo pós-moderno foram extremamente benéficas no sentido de ampliar e aprofundar causas e objetos de estudos dos quais realmente precisávamos ter mais conhecimento de causa. Porém, o excesso de informação e a nossa incapacidade para captar e dar uma rápida resposta ao que está se desenrolando nos impede de interagir, assim, logicamente, nos separando. Mas essa separação não acontece só no físico, acontece nas propostas ideológicas e isso quebra, principalmente, os movimentos de minorias. Reparem em quantos movimentos ideológicos são divididos os grupos hoje em dia. Não dá nem para contar direito. Essa proposição de Jorge Amado, olhando de forma engraçada, mas afetuosa para os que vivem completamente à margem, tem um poder representativo muito grande na demonstração de que, no fim, as liberdades solicitadas por cada um dos grupos sociais que afloraram e adquiriram independência ideológica, lutando num cada um por si, possuem as mesmas bases. Repare bem nas relações que Quincas estabelece nas ruas baianas, é quase um “classes trabalhadores, uni-vos” o que está, para mim, implicitamente proposto, mas com um sentido bem mais profundo que a luta de classes original.

É meio óbvio que hoje o caldo entornou quase que completamente. O que nos resta é contemplar que todo grande escritor é, antes de qualquer coisa, um visionário. E essa “ode ao sujo” enxerga no periférico o senso de união e a saída de uma sociedade completamente excludente e preconceituosa. Preconceito esse demonstrado com muita ironia e força pela família de Joaquim, quando preferiu dá-lo como morto ao invés de dizerem que ele os abandonou. Afinal, como escapar da infâmia que geraria admitir que o patriarca da família foi ganhar o mundo e cair na esbórnia? Nunca! É preferível mata-lo do que admitir a ausência de afeto e carinho numa instituição familiar normal e extremamente dogmática.

Outra linha de pensamento comum e que nos passa despercebido é o desconforto para com o pobre. Vejam bem, Joaquim era um funcionário público de carreira exemplar, mas não era rico. Tinha vida tranquila, mas não havia luxo. Começou de baixo e, se parar para pensar, seu avanço não foi tanto. Parece que sim porque vemos a vida de Joaquim se desenvolver ante uma sociedade completamente desigual. Mas não parece haver indício, ali, de uma família que passasse férias na Europa, por exemplo. Sua realidade era muito mais comum e próxima desse submundo do que sua família acreditava. É uma reflexão importante para que tenhamos a perfeita noção de que a depreciação do olhar da classe trabalhadora que Jorge Amado ambicionava explorar não era uma relação de viés econômico pura e simplesmente, mas sim comportamental. As pessoas que acreditam serem prósperas num sistema reacionário não possuem um padrão de vida esplendoroso, mas seguem toda a doutrina social que as fazem pensar que o progresso é, também, compartilhado por elas. O processo para que haja o velório de Quincas é expositor dessa questão sem muitas dificuldades. As alegorias impostas ali pelo autor dão a perfeita noção de que há uma proximidade muito grande entre a origem dos personagens, mas que há um muro construído através da manifestação desses hábitos, separando-os.

Nesse sentido de demonstrar a afeição de Quincas pelo underground e seus amigos de rua, Jorge Amado acaba unindo o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Através de suas reações durante o velório, encaramos diretamente a opinião de Quincas sobre a própria vida. O que é fantástico, porque nos dá margem para discutir uma coisa muito interessante: o duplo da morte.

Vocês, com certeza, já ouviram o ditado “morreu e virou santo”, certo? E isso acontece para todo mundo, sem distinção. Pois é, amigos, a morte é o ritual ocidental mais ambíguo que existe e as mortes de Joaquim e Quincas provam isso. A morte serve como um instrumento para mostrar o quão frágeis somos, mas também reside nela o eterno, ou a continuidade da propagação de uma faceta a ser lembrada e espalhada indiscriminadamente. Joaquim, logo que dado como morto pela família, estrategicamente, tratou de ser o homem exemplar, chefe de família e funcionário padrão. Não havia uma mácula na sua vida inteira e sua morte foi, com certeza, algo muito muito triste, já que um homem santo, exemplo de vida, havia partido. Em contrapartida, Quincas foi o maior boêmio de toda a Bahia. Lenda do subúrbio, amigo para todas as horas, personalidade generosa, caridosa e indefectível. Cachaceiro de primeira, galã dos becos sujos e patriarca da malandragem. Percebem como a morte pode ser manipulada para tornar o indivíduo eterno? Joaquim e Quincas, apesar de serem a mesma pessoa, possuíam personalidades completamente diferentes. Mais diferentes ainda após se apossarem de suas memórias para recriarem sua imagem e distribuí-la por aí, como a grande figura que, pelo que conta o livro, ele inevitavelmente foi.

Mas o que torna mais interessante a questão da imagem que a morte é capaz de proporcionar da pessoa e de seu sentido duplo, é que, nesse caso, o duplo é comum a qualquer outro duplo colocado por Jorge Amado. É uma maneira de falar da inevitabilidade da morte e de que algumas muitas coisas são de ordem natural e comum à todos nós, reles mortais cheios de diferenças comportamentais e ideológicas. Assim voltamos a questão das diferenças dogmáticas, das separações pós-modernas e do quanto isso não vale minimamente à pena se sua luta segue solitária e ineficaz ao cativar outras pessoas.

Por fim, essa foi a minha primeira experiência com Jorge Amado. Prazeroso e irônico, o cara é sensação do baile da literatura nacional com certeza. Não são todos que tratam assuntos tão delicados como a morte com tanta leveza e desprendimento. Muito menos os que são capazes de fazer críticas sociais tão ferrenhas dentro de uma obra que, com letras capitulares, alcança 110 páginas mais ou menos. Que loucura, vocês devem estar pensando, uma resenha gigante dessas para uma novela tão curtinha. Admito a empolgação, mas ora, vejam só vocês se esse não é o duplo do grande escritor: não é necessário escrever muito para fazer com que nós, leitores, consigamos perceber a profundidade das ideias. Ou nem foi tão profundo assim, mas esse é o duplo da empolgação do leitor: achar coisas que nem estão escritas. E são duplos e duplos e duplos que se sucedem. Nada simples, mas não é tão desarvorado assim, vai.

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