Sobre Rael da Rima, primeira diss, Fidel morto e desejos

Por Caio Lima

Essas duas últimas semanas foram bem movimentadas de uma forma geral. Eu fiquei atolado de coisas para fazer, os mc’s Rashid e Rael da Rima lançaram dois dos raps mais explosivos do ano e Fidel morreu. O que tudo isso tem a ver? Absolutamente nada. O que minha mente acha que todos esses acontecimentos têm a ver? Absolutamente tudo.

Rashid e Rael são parte da minha formação como fã de rap e de música, num plano mais geral. O primeiro lançou, talvez, o single do ano com a “Primeira diss”. Diss é uma música que um rapper faz atacando outro rapper, sacou? Mas essa diss é diferente, Rashid escreveu a diss para ele mesmo. Se colocando a frente do espelho e atacando sua própria obra e seus próprios erros, como largar a mãe em Minas, seu Estado de origem, para tentar ganhar a vida em São Paulo. Terminando com uma frase emblemática, ele reforça o sentido que atacar outra pessoa pelo que ela é e você não concorda que ela seja, é como atacar a si mesmo. Você manipula sua arte e talento para explorar a imagem de outra pessoa. Rael lançou seu novo álbum e veio com a pesadíssima “Minha lei”, contando com toda a galera que fez parte da lendária rinha dos mc’s em SP, num grande e belo tributo. A mensagem da música é tão forte quanto a do Rashid e coloca o dedo na ferida de muitos com a seguinte pergunta: você está disposto a pagar o preço por correr atrás daquilo que você acredita? Vejam bem, a essência das duas músicas é uma só.

Talvez o rap seja o ambiente artístico que mais emule a vida real (ou virtual) de hoje em dia. Fãs preconceituosos com outras manifestações artísticas tão subversivas quanto a cultura hip hop, conservadores, a ponto de serem antissemitas, e que transformam os mc’s em figuras de adoração, acima do bem e do mal. Muito provavelmente, Rashid e Rael ganharam muitos haters com esses dois sonzaços que lançaram.

Ao ouvir sobre essas duas músicas logo me lembrei de Notorious B.I.G. quando disse “just practice what you preach”. Me peguei pensando na genialidade dos caras capazes de viver sob as vestes de suas crenças, mesmo quando seus fãs e seus haters estabelecem uma relação caricata e dicotômica de você. Muitos pisam em ovos, quando outros só são o que são e a vida é como um rio que passa, caudaloso e cheio de pedras, piranhas, jacarés e cobras d’água.

O fato é que nessa realidade virtual cada vez mais real, as pessoas falam o que pensam e ficam boquiabertas quando as mesmas palavras são dirigidas contra elas. É como se quando saísse da minha boca, tivesse um sentido completamente diferente de quando saísse da sua. E assim dois lados se atacam, sendo que nenhum dos lados tem realmente a vontade e a necessidade de desejar a desgraça do outro. Ou seja, a internet inteira é uma diss, mas diferente dos raps, as palavras não são usadas de forma inteligente para fazer ameaças. Só olhar o nível dos posts nas redes sociais…

Somos todos ditadores a partir do momento que não permitimos que pensem diferente do que pensamos ou, pior ainda, quando não permitimos que desejem a nós o que desejamos a eles. Lei do retorno, ação e reação e o famoso “só deseje ao próximo aquilo que desejaria a ti mesmo” parecem nunca terem sido citados nos vídeos motivacionais que essa galera ama assistir.

Pior ainda é acharem que a história é unilateral e que determina bons e maus. A história só tem definição onde acontece alienação. Fidel é a prova morta disso. Para muitos um ditador sanguinário, pedófilo, estuprador e canalha. Para outros foi um libertador, desafiou as forças imperialistas americanas durante a vida e fez de Cuba um país com condições mínimas de se viver, mesmo sofrendo embargos comerciais terríveis. Na real, ele foi as duas coisas. E o peso dado a cada uma delas é relacionado a sua crença política-quase-religiosa. Mas diferente de todos os que opinam, ele é parte inerente da história mundial. Ele simplesmente praticou o que pregava e todas as suas contradições são parte disso. Desafiou a morte e matou muito. Desafiou um império e foi ditador de um país pobre, mas com o melhor IDH da América Latina. Se contradisse inúmeras vezes, afinal, era um homem com o poder de decidir o destino de milhares de vidas nas mãos e ainda tinha que orientar seus interesses nesse entrevero.

Quando Rashid faz uma diss para si, ele se coloca como seu maior antagonista. Isso serve para que você perceba que é o maior antagonista de si mesmo e que ninguém vive numa bolha de comportamento regular. O que fazemos com o poder que nos é imbuído é fruto de nossos desejos, que voltam até nós na forma de reputação, boa ou ruim, e de ações contrárias tão fortes quanto as nossas. Se você não é capaz de aguentar a carga do que deseja, fico feliz por seus atos terem a relevância de um comentário de internet qualquer.

Rael versa sobre a perseverança e resiliência de se manter fiel ao que acredita. Mas cita isso com a graça da mudança, de acompanhar “sua lei”, o rap, através das suas constantes mutações e reconstruções. Muitos se perdem com as mudanças, com as condições aplicadas que o mundo oferece no presente por preferirem conviver rememorando o passado confortável ou se manter alinhados a desejos que não podem realizar. Quem sente a ameaça constante do socialismo praticado antigamente sofre muito disso, por exemplo. O socialismo como base política e econômica de governo já não existe desde os anos 80 sem que haja uma ruptura nas suas bases mais clássicas. Fundamentalmente, é uma teoria falida. A globalização enterrou o sonho socialista. Mas Cuba persistiu. Resistência ou burrice? A questão é que persistiu. Cubanos nos EUA votam em Trump e comemoram a morte de Fidel, Cubanos em Cuba se sentem saudosos pela morte de seu líder. E aí, em quem você acredita? Será que sua opinião é mesmo a correta? Será que você tem necessidade de provar e ameaçar quem discorda de você? Ué, se sim, então não vivemos numa democracia de fato.

Desejar o que não se pode ter é natural. Somos feitos de utopias, por mais que nossos desejos estejam em perfeita razoabilidade com a nossa situação social, financeira e tudo mais. Desejar o que você não pode fazer se torna algo contraproducente para você e para quem mais esteja envolvido, além de te colocar na paranoia de provar estar certo sobre tudo a todo momento. Isso vale para mim, para você, para o Rashid, para o Rael e para o finado Fidel. Sejam menos guardas dos desejos de outrem e apontem para seus próprios desejos. Talvez, assim, mais seja feito do que falado, e a manifestação dos nossos desejos como realizações sejam algo um tanto maiores que comentários ameaçadores em redes sociais ou jornalismo barato.

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