Thomas Pynchon – O leilão do lote 49

Por Caio Lima

A literatura costuma endossar algumas temáticas ou questões cheias de significados, mas via de regra há um aprofundamento dessas questões todas até o cerne do pensamento humano. É pesado. Você lê e sai com a cabeça doendo, numa crise existencial grotesca e, o pior de tudo, não tem absolutamente ninguém para conversar sobre o que leu que tenha sentido a mesma coisa que você, é impossível. Olha uma confissão em cinco linhas do porquê o Rede de Intrigas foi criado. Brincadeira, não foi só por isso. Enfim, fazendo contraponto a essa máxima da profunda exploração do ser humano e suas mazelas, virtudes e embaraços, há uma outra linha, que me agrada muito, de escritores que levam o ser humano a um estado de absurdo completo, desenvolvendo suas obras de uma maneira completamente livre de qualquer estereótipo. Seja no estilo de escrever ou nas ideias que são ventiladas através da obra, esses autores têm essa capacidade ilimitada de elevar o ser humano, e a vida de uma maneira geral, a algo bizarro.

Claro que isso não tira a complexidade e, muito menos, a profundidade da leitura. Mas o sentimento de estranheza é, sem sombra de dúvida, uma verve nova para o leitor comum. Sair da zona de conforto, ler pelas entrelinhas e todas essas coisas que vocês ouvem em palestras motivacionais para jovens empreendedores, mas que nunca pensam em aplicar em atividades básicas, tipo ler ou estudar, tá ligado?

Do século XX até os dias de hoje, em muito se pode falar do desenvolvimento de uma literatura que trata o homem num hemisfério absurdo ou surreal. É provável que nenhum deles seja mais famoso que Kafka. O universo kafkiano é repleto de referências e analogias estranhas e que passam batidas a um leitor desatento, muitas vezes achando a psicodelia de Kafka algo surreal, mas despretensioso. Nessa linha psicodélica, temos uma coletânea memorável de poetas, desde os clássicos poetas malditos, como Baudelaire e Rimbaud, até, numa aproximação muito tênue, o nosso Leminski, cercando a atmosfera de suas obras com uma mistura inexata e arrebatadora do lúdico e do lúgubre, aludindo sempre ao fantástico mundo dos vícios, amores e misérias imensuráveis. Por falar em vício, a geração beat é especialista em recriar o absurdo humano, principalmente nas mãos de Allen Ginsberg e William S. Burroughs, através do êxtase das sensações elevadas a partir de psicotrópicos fortíssimos que vão se alimentando do meio literário até chegar a Irvine Welsh e Chuck Palahniuk e seus brados contraculturais espalhafatosos. Alguns movimentos, por aparência ou fixação mercadológica, também carregam essa espécie de descarrego bizarro. A ficção científica tem muito disso, por exemplo. E outros autores retratam a vida como ela é numa irônia sem fim do absurdo, estou certo ou estou errado, Nelson Rodrigues? Mário de Andrade, com Macunaíma. O boom sulamericano com autores como Borges, Cortázar e Gabo, entre outros clássicos e não tão clássicos que carregam essa marca bizarra em diferentes níveis de intensidade ao longo da história.

Eu só fui atentar para esse viés literário com maior força após ter lido Graça Infinita, do David Foster Wallace. Gostaria de resenha-lo um dia, quem sabe. Mas, para quem deseja ler ou matar algumas pontas soltas do livro, a Camila, do Livros Abertos, fez uma resenha tão especial e cheia de pormenores, que vale a pena ser lida e relida. Graça Infinita elevou infinitamente meu tino para as referências e para o mundo particular de cada autor: processo criativo, crenças pessoais, artigos relacionados e até informações mais gerais. Num livro tão absurdo, com tantas estruturas narrativas diferentes, é impossível contemplar toda a concepção da obra de uma vez só. Ela vai batendo aos poucos e em épocas diferentes, pedindo releituras e material de apoio constantemente. Afinal, essa é a mágica da boa literatura bizarra, fazer você chorar montando as peças do quebra-cabeças. Buscando referências, eu cheguei a muitos lugares, autores e materiais diferentes, mas nenhum comparável a Thomas Pynchon e seu universo regido pela paranoia.

Pynchon é grafado como um autor pós-moderno. Ninguém sabe muito bem o que isso quer dizer. Nas muitas literaturas existentes, o pós-moderno é algo muito sem face e com milhares de conotações ideológicas, tanto que marxistas e libertários são muito contundentes com suas críticas e associações, algumas até bastante semelhantes. Ironia ou não, é um meio cheio de nuances e eu, não sendo conhecedor profundo e nem estudante de letras, filosofia ou qualquer cátedra que me dê autonomia para dissertar sobre isso, não me arriscarei indo para águas profundas e colocarei uma interpretação minha do que é o pós-modernismo de Pynchon, segundo pude acompanhar em ‘o leilão do lote 49’. Permitam-me a licença poética (sempre quis colocar essa frase num texto).

Existe uma espécie de ruptura do pensamento moderno após a segunda guerra mundial. Não só na questão de ordenação e polarização econômica e ideológica. A tecnologia num avanço constante e vertiginoso, as novas maneiras de se conseguir informação e até na forma como essa informação chegava ao consumidor, de forma apropriadamente ideológica e urgente, elevando a intensidade e, consequentemente, o significado de qualquer informação nova que surgisse, por menor que fosse. O deslocamento instantâneo dos sentimentos, podendo ser manipulados de forma conspiratória e constante, renova essa ideia da necessidade do avanço fugaz e urgente. O que isso quer dizer, basicamente? Que a grande transição do moderno para o pós-moderno é a intensidade com que nossos reflexos e habilidades trabalham. O olhar romântico sobre uma metade de século que caminhou sob revoluções e guerras ideológicas já não é mais possível. A informação e, principalmente, a manipulação da distribuição dessa informação, controlam o sentimento de revolta, desconforto ou satisfação das pessoas, por exemplo. Agora pare e reflita: você já reparou nas suas trocas de humor durante o dia? Ou quantas coisas você faz em áreas totalmente diferentes umas das outras? Então, esse é o mundo pós-moderno.

thomas-pynchon

Édipa Mass é vítima dessa loucura pós-moderna. Após receber a responsabilidade de fazer o inventário de um ex, Pierce Inverarity, ela entra de cabeça na busca do significado de Tristero, um serviço postal underground e que tem uma trompa postal como marca registrada. Nesse processo de investigação asfixiante, ela roda algumas cidades da Califórnia e esbarra com um monte de gente que, supostamente, estaria ligada à Tristero. O grande problema é que no fim das contas ela só encontra dúvidas e sua vida como terra arrasada. O marido se torna viciado em LSD, o amante foge com uma adolescente namorada de um dos caras da banda, seu analista fica louco e o dramaturgo, sua última esperança de ajuda, se mata. E, no fim das contas, tem o inventário do Inverarity, que é os EUA. Nada fácil, Édipa (suspiro de desolação).

Eu não sei a pessoa que colocaria o nome da filha de Édipa, mas caso exista alguma, torço para que ela seja estéril. Nesse caso, eu fui procurar um pouco da história de Édipo e no meio de toda a tragédia encontrei um ponto que, talvez, tenha sido a intenção de Pynchon ao dar esse nome a sua heroína. Caso não tenha sido, ao menos me ajudou a construir essa resenha, o que está de excelente tamanho. No caso, Édipo encara a esfinge e a derrota dentro do seu próprio jogo. A esfinge é um rito de passagem: ou você acerta a charada e ela abre o caminho, ou você erra e fica empacado. Enquanto houver a necessidade de atravessar tal caminho, o homem continuará tentando. Esse é o motivo de tantos ficarem loucos com o enigma da esfinge. É como estar perdido e andar em círculos eternamente, até a loucura. Édipo derrotou a esfinge, Édipa não.

A manifestação simbólica da tragédia grega não está tão longe assim do mundo pós-moderno retratado por Pynchon. Os dois se reconhecem muito bem, apesar de não se encaixarem. E o autor sabe disso. Ele usa o passado como uma alegoria do futuro, mesmo tendo a certeza de que ambos não se assemelham em forma. Nem poderiam. As condições de cada época não geram equivalência, nem mesmo partem do mesmo princípio, apesar de terem, em dados momentos, processuais semelhantes. A fixação de Édipa à sua rotina e sua vida, fazem dela uma refém de um tempo que já passou a partir do momento que ela recebe a notícia do inventário e enxerga a Tristero como uma grande conspiração, tirando-a do mundo real sob os mandamentos de eventos fantásticos e irreverentes da paranoia e elevando sua condição de perseguição a uma experiência tão alucinógena quanto o uso abusivo de LSD pelo seu marido. Essa transição entre dois mundos que Édipa bate de frente constantemente é seu enigma da esfinge.

A afirmação aclamada de Marx “a história se repete, primeiro como farsa, depois como tragédia” pode ser taxada como um grande erro (mas é uma frase bonita) se acompanharmos a evolução do homem e das formas de ordenamento social ao longo da história, já que usar a história como simulacro não é exemplificar ou emular no passado uma situação equivalente no presente. Pontos podem ser semelhantes, mal comparando, até o resultado final pode ser, mas a história é continuamente escrita e não repete capítulos. Por isso que ficamos perdidos junto com Édipa ao rememorar a história do serviço postal Tristero. Nada é conclusivo ou explica muita coisa de seu funcionamento atual, se comparando a sua origem na Europa e seu estabelecimento nos EUA no meio do século XIX. Essa sensação de estar à deriva junto com Édipa é proposital. Causa um desconforto extremo pesquisar sobre o passado de alguma coisa tentando justificar ações no presente e não conseguir tornar as duas realidades, passado e presente, concomitantes. Isso agrava o estado de desespero e aumenta essa tensão de sentir algo prestes a te engolir sem poder algum de defesa. Bem-vindos à paranoia de Pynchon.

Tudo o que foi dito aí em cima nos ajuda a entender o contexto do livro e, consequentemente, da linha que Pynchon adota para criar seu ambiente paranoico, já que, segundo informações, essa é uma constante da sua literatura. Mas entender a heroína é fundamental para revelarmos o quão grande foi Pynchon nesse livro. Essa interposição de pessoas e fatos aleatórios que levam Édipa a acreditar que o serviço postal Tristero é alguma conspiração grandiosa e, mais para o fim, pessoal, pode ser explicado sob diversas óticas. Uma delas pode ser uma relação entre o que acontece à Édipa e a teoria da heterotopia de Foucault. Heterotopia é a teoria que versa sobre espaços não hegemônicos, falando de forma muito simplificada, ou seja, lugares que você encontra tudo ao mesmo tempo. Ao longo do livro, Édipa encontra todo o tipo de gente, em todos os lugares de San Francisco, onde ela passa as 24h mais alucinantes que eu já vi na literatura, com algum tipo de relação muito particular com o serviço postal Tristero. Ou seja, você não consegue distinguir um comportamento ou um padrão de quem usa o serviço. Ele é usado por todos, em qualquer lugar e sob qualquer aspecto. Não conseguir construir um padrão para conseguir informações é tão devastador quanto conseguir informações de todos os lados possíveis. E se apoiar nessa profusão de “sinais” torna o poço de Édipa completamente sem fundo.

Édipa eleva-se a uma realidade improvável, aproveitando sinais controversos e migalhas de informação para reforçar a conspiração Tristero e, consequentemente, sua paranoia. Todo o mundo que Édipa conhece desmorona sob seus olhos, enquanto ela permanece presa nessa realidade criada a partir do símbolo da trompa postal, mesmo sem nada que conecte as pontas soltas que ela tem nas mãos. Ela perde tudo da vida que deixou para trás e também não consegue sair do lugar para descobrir o que é Tristero. O que sobra para Édipa? A paranoia.

Além de toda essa maluquice filosófica que eu disse, há ainda um mar de referência dos anos 60 no livro. Muitas mesmo. Jogadas sem dó. Lendo com atenção dá para pegar muita coisa. Essas metáforas que ambientam os EUA dos anos 60 e alguns marcos da história americana e da cultura europeia clássica, trazem uma maneira nova de ver a história em si. Como eu disse lá em cima, esses caras bizarros amam fazer com que a gente passe mal tentando desvendar tudo o que eles colocam nos livros. Mas essa análise não está fora de todo esse contexto filosófico do livro e do pós-modernismo como um todo, seja lá qual definição adotarem. Toda essa geração de Pynchon sofria do mal de Édipa, estavam todos perdidos pela nova ordem do mundo. De repente o mundo virou do avesso, as coisas começaram a acontecer rápido demais e as pessoas começaram a sentir coisas demais e a fazer coisas demais e a pensar coisas demais, até o que não deveriam pensar de tão bizarra que era a ideia.

O que sobra quando, para acompanhar o novo e desconhecido, perdemos o velho que era nossa base? Nada. Foi o que sobrou a Édipa. Foi o que sobrou para toda uma geração que foi submetida à transição violenta de uma época. É o que sobraria para toda nossa geração acaso a ordem das coisas mudasse de forma quase que instantânea. Viver na paranoia, para a paranoia e de paranoia. A história não se repete, já que nada voltará a ser como antes. A transição de eras não respeita seu tempo e o que você pensa. A história é o ente mais imperialista que existe e todo dia é acrescentada de páginas novas e não muito bem escritas, passando milhares de pessoas para um estado de letargia e paranoia. E resistindo ao tempo, como uma obra-prima da literatura deve resistir, Pynchon nos fez olhar o passado de forma crítica, analisar nosso presente e entender o que esperar do futuro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: