Andreas Latzko – Homens em guerra

Por Caio Lima

Arte não tem forma. Não existe uma concepção ideal de arte, esteticamente falando. Nem intelectualmente também. Mesmo que você não ache bonito, interessante ou correto, sempre haverá alguém que comprará a ideia do artista e, ainda bem, não podemos fazer nada a respeito disso. A literatura, como manifestação artística, também tem seus milhares de estilos e grupelhos que funcionam como guardinhas do “suprassumo literário” atuando numa visão bem específica e, consequentemente, excludente. O livro resenhado aqui foi publicado anonimamente e sofreu censura durante um longo tempo, afinal. E se a vida imita a arte, essas manifestações gratuitas de repulsa, desprezo e indiferença não funcionam apenas no meio que nos interessa que funcione. Automaticamente, a repulsa, o desprezo e a indiferença sofrem declinações e se adaptam à vida como ela é. Você não percebe. Não se percebe o que é habitual. Quando o hábito é comum a um grupo muito grande, se torna uma convenção generalizada e, consequentemente, correto.

O processo de combate ao vício comportamental é muito mais complicado que o processo de se desvencilhar de quaisquer tipos de drogas, lícitas ou não. Pergunte a um ex fumante os momentos em que ele sente mais falta do cigarro. Normalmente são momentos regrados pelo hábito. Após o café, lendo o jornal pela manhã ou tomando cerveja. Pessoas que, após muito tempo sem cigarro, ainda cruzam os dedos quando conversam ou permanecem ansiosas, irrequietas, após beber café. São pequenas coisas, quase imperceptíveis para nós, que revelam um estado de “cura” tênue.

Hábitos são adquiridos toda semana. A gíria que, após muito repetida, é falada a cada frase, o jeito novo de amarrar o tênis, um jeito mais confortável de sentar no ônibus, se sentir indiferente ao ver um mendigo na rua, olhar torto para um moleque que “parece um pivete” ou tentar diminuir, com desprezo, a luta de alguém, seja lá qual motivo essa pessoa tem para lutar. Tudo isso são hábitos. Não ler é tão hábito quanto ler. Ignorar é tão hábito quanto aprender a escutar o próximo. E, no contexto, há uma exceção à regra. Destruir, ou desconstruir, é mais trabalhoso que construir. Tratamos de conceitos que são inatos, que acompanham nossas famílias e ramificações sociais desde sempre. Como último recurso, usar situações extremas ajuda. Numa sociedade tão resistente às mudanças, há de se devolver na mesma moeda.

Nem todos possuem a mesma classe de um Stefan Zweig ou um Romain Rolland para falar sobre esses péssimos hábitos que adquirimos e somos propagadores constantes (e que levaram a Europa à guerra), e, ainda por cima, serem sucesso de vendas no mundo inteiro. Aliás, imagine uma coisa: como deve ser decepcionante para um autor que era, à época, o mais vendido do mundo (caso de Zweig) e, de repente, ver o mundo entrando em colapso de novo, indo para outra guerra mundial? Essa é a maior prova de que o hábito de leitura não é, de forma alguma, um medidor de consciência ou coerência nos posicionamentos que tomamos. Existem pontos subjetivos que precisam ser mais estimulados e analisados pelo leitor.

Se a classe, a fama e a liberdade de escrever sobre a degradação dos valores mais humanos que existem, não foram suficientes para dimensionar os horrores da guerra para seus numerosos pares de leitores, há de se tentar uma via subversiva, marginal, direta, que ilustre um quadro de um ser humano que age não por instinto, mas por hábitos que adquiriu e cultivou tão profundamente, a ponto de reconhece-los como valores. Levando-se em conta uma linha de raciocínio, a qual rege a obra dos autores humanistas, que toma o ser humano por um ser bom em essência, certo? Continuando.

Numa época em que a literatura considerada humanista ascendia com autores como Zweig, Rolland e Gorki. Um movimento cheio de autores consagrados, participes da política e de outras expressões artísticas, que construíram, através dos seus escritos, uma expressão humana envolta de uma erudição palpável. Nada estaria, assim, acima ou abaixo desses homens, a não ser a própria essência do ser humano e o condizente a seus valores mais puros e construtivos. Latzko chega num outro panorama, com o pé na porta, escancarando a dor de quem viveu a guerra na pele e contando, em ‘homens em guerra’, como o homem comum participava e municiava a guerra.

Andreas Latzko estava lá na primeira guerra mundial. Viu tudo o que aconteceu sem ter porquê. Milhões de pessoas envolvidas numa guerra que não oferecia nem o “benefício” imperialista aos países envolvidos. Ego, nada além de ego. E quando há poder sobre massas, o ego torna-se isso: um mundo em desvario, infestado de homens que deveriam tornar-se soldados de uma hora para outra para lutar numa guerra que não deveria existir. Essa vivência no cerne da insanidade do homem, rendeu a Latzko o terror de enxergar um estado de desumanização avançado, com homens comandados por uma classe programada para os campos de batalha e para cumprir ordens que defendam o ícone a qualquer custo, mesmo que o custo seja o extermínio como resultado final. Rendeu, também, uma válvula de escape sincera para todos os horrores que viveu nos campos de batalha, a literatura. Um caso clássico de trauma, observação e transcrição. Que sorte Latzko ter a coragem de publicar seus contos. São muitos os que escrevem e não conseguem prosseguir com o processo de externar suas impressões, voltando todo o trauma para si. Dostoiévski, Strindberg e muitos outros gigantes são famosos para além da literatura de ficção pura, inserindo em sua obra seus traumas, problemas e temores no papel. Latzko, sem dúvida, merece estar nesse patamar.

Os seis contos do livro giram em torno do homem que estava efetivamente na guerra. Do soldado, do médico, dos camponeses em seus vilarejos e dos próprios oficiais das forças armadas, apesar que esses achavam que, por causa da patente, eram homens diferenciados, que detinham e desfrutavam de poder. Falar do homem comum da forma que Latzko o tratou, com crueza e severidade, é se ver no meio de um mundo distópico. Os valores humanos, tão consumidos na forma de literatura, perdem-se completamente a partir do momento que a guerra se faz presente. Uma situação extrema. Voltamos aos hábitos construídos por uma doutrinação que erradica a contestação e tornam impunes, através da lei e de qualquer crítica pessoal ou crise de consciência, os atos cometidos em guerra. Todo aquele processo de desconstrução que elevou esses autores a serem os mais vendidos do mundo, é perdido.

A prática da crítica é tão absurda quanto ter mínima consciência para com os seus, aqueles que usam o mesmo uniforme, mesmo capacete e lutam ao seu lado. Latzko convive com homens treinados para apreciar o cheiro de sangue misturado à pólvora e que sentem tesão no embate até a morte com o inimigo. Essa deposição de virilidade e do heroísmo intrínseco ao pensamento da guerra, em troca do desmembramento da própria vida, impõe a Latzko a necessidade de produzir um registro seco, claro e muito visual, até no campo das ideias, para que enxerguem, de uma vez por todas, a monstruosidade da guerra e que os verdadeiros espólios jazem inertes no campo de batalha, sem vida e sem valor, a não ser o da contagem do batalhão, que diminui drasticamente.

Existe amizade, compaixão e até momentos de paz no front. Mas a guerra não permite que os restos de humanidade perdurem. O que floresce ali, ali morre. O inimigo e as obrigações de guerra não permitem que a humanidade se manifeste por muito tempo. A insistência resulta em separação forçada e reparação imediata, forçando mais ódio e mais guerra. O ambiente lúgubre torna-se pessoal sem muito motivo para isso. É um sistema fechado, transformando tudo o que é inconsciente em ódio direcionado a um inimigo que você não conhece, nunca viu e não conheceria se não fosse pelos interesses muitíssimo escusos de pessoas que você também não conhece, mas defende, prontamente e com ardor, com a própria vida se preciso.

Latzko retoma, nos seis contos, como a desumanização que ele vivenciou é o resultado da formação de uma sociedade viciada através do comportamento. São ideias inculcadas em pessoas, capazes de faze-las idealizar uma realidade que não as remete, muito menos estarão aptas a habitar esse espaço algum dia. É uma visão de poder platônica. Nação, honra e servidão fiel e irrestrita, são, apenas, justificativas imberbes para reproduzir o que qualquer homem treinado para a guerra realmente busca: seu nome, quando pronunciado, deixar nas pessoas aquela sensação de poder, força, autoridade e medo.

Claro que isso tudo não foi Latzko que descobriu. A servidão pelo medo é uma tática mais antiga que os primeiros homens a habitar nosso querido planeta água. Medo é um dos nossos reflexos mais instintivos, aliás. E animais reinam, através dos tempos, colocando medo nos outros. É algo de fácil observação, mas com efeitos catastróficos e profundos para a formação do ser humano. O medo nos é natural, mas a construção individual de um estado de medo constante, produz monstros que somente reconhecem o medo como meio de obter essa noção de poder que a ele sempre foi vendida.

O que Latzko trouxe foi, justamente, o relato seco numa época em que o discurso era tomado por uma aura intelectual muito ativa, mas muito cheia de parcimônia. Havia uma guerra em curso, pessoas se matando e atrocidades acontecendo! A voz ativa do autor rompe essa barreira entre a arte e a guerra, e une, num momento chave, a pessoa e o contexto. A manifestação da arte como um simulacro do horror que acomete os campos de batalha e do homem criado nas bases do medo e do poder, carrasco do seu semelhante. Essa é a chave da obra e o que levou Andreas Latzko a ser reconhecido por toda a classe humanista da época. Tanto que o livro é brilhantemente prefaciado por Stefan Zweig e ainda tem um apêndice de Romain Rolland. Não é pouca coisa ser citado por esses dois caras.

O mais interessante em relatos desse tipo é a atemporalidade e a adaptabilidade do registro. Ao longo da história podemos fazer diversos recortes do homem viciado que Latzko descreveu. Por exemplo, não é necessário ter uma guerra para reconhecer que o mundo, hoje, gira em torno de polos ideológicos completamente estagnados e que tendem à prática da servidão com base no medo. Há uma ideia de poder platônica arraigada nas pessoas de cada canto que se tem notícia no mundo e que as movimentações políticas e econômicas não resolvem problemas, são apenas peças movimentadas para a manutenção de um sistema que segue uma linha bastante constante. Isso soa semelhante à guerra, não? A diferença é que as armas são substituídas por maletas, contratos e apertos de mão. Fere olhar que os homens em guerra de Latzko são todos os homens que lutam, não se importando em assumir o papel de vilões, para tomar posse de um espaço no poder que consideram seu por direito inato ou adquirido. E, ao analisar bem, esse poder não significa absolutamente nada na ordem das coisas. É sempre assim, fogo amigo trocado.

O ambiente da guerra é um estado de exceção dentro da própria insanidade que o mundo se tornou. De forma análoga, é um manicômio. Tanto em forma quanto o resultado final disso, emulando Simão Bacamarte, em ‘o alienista’, escrito por Machado de Assis. Aparece um mais louco que todo mundo e toda a atenção é voltada a ele. Porque é esse louco mais louco que mostra tudo o que os outros loucos estão passando, mas com mais energia, com mais intensidade. Um soco de realidade. E ninguém pode ver, na loucura dele, todo o sofrimento que os outros loucos estão passando há anos. Desse louco há de se cuidar logo. Enquanto isso, os menos loucos continuam ali, de lado, mantendo a ordem sem atrapalhar ninguém. Boa parte se rebela contra o mais louco para que tudo continue como antes. No final, colocam nos livros de história que loucos somos nós, ao acharmos a guerra uma insanidade. Guerras movem o mundo e são necessárias. De repente, desde crianças, somos todos formados nos moldes do alienista machadiano: julgamos tantos loucos, que loucos somos nós e a guerra é algo processual, corriqueiro, natural e, mais uma vez a pior de todas as loucuras, necessário.

É difícil aceitar a resolução de que ser humano, na forma primitiva e pura da palavra, não é comum. Que as disfunções sociais e de valores são tão gerais, que perdeu o sentido tomar algumas ações básicas de tratamento com justificativas até muito “bem embasadas”. Vivemos num estado de sítio de consciência, onde nos é permitido não refletir sobre a atitude que tomamos, mas que repliquemos sempre a mesma atitude de forma indistinta. Como um comediante com bordão sem graça, mas que, não importando a situação, é preciso colocar o bordão no final do quadro, senão não soa genuíno. É o hábito que gera dependência de poder, que gera medo de não fazer acontecer, que gera desprezo pelo novo, que gera servidão e conformismo.

Muito além da primeira guerra mundial, Latzko analisa qual guerra os homens travam através dos tempos. Mais humano que isso não existe. Num registro simples e cheio de sentimento, é impossível não se sensibilizar e relacionar as suas raízes comportamentais com o seu ambiente. Só assim desabamos do pedestal que nos colocamos como homens modernos, para reconhecer que não conseguimos estabelecer nem as relações básicas com as pessoas do nosso convívio. O homem da guerra não é um produto da guerra. A guerra é seu absurdo, é o evento em que ele tem total liberdade para extrapolar todas as suas habilidades acumuladas e concentrar os velhos e surrados maus hábitos que recebeu durante sua formação no “combate ao inimigo”. Permanecemos assim, de uma maneira geral. Continuamos avançando no tempo sem olhar para o passado de forma crítica. Sorte nossa que Latzko não é mais censurado, muito menos desconhecido. São seis registros em homens em guerra, lancinantes. Seis registros que incomodam profundamente. Sabemos, enfim, que ainda somos homens em guerra.

Um comentário em “Andreas Latzko – Homens em guerra

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  1. Caio, obrigada pelo texto, já estou apaixonada pelo livro. Vi ele numa editora online e salvei para comprar posteriormente, e com sua explanação, obviamente que irei comprar. Parabéns pela bela e emocionante escrita. Beijos!

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