Distopia em Black Mirror

Por Caio Lima

Todo mundo está aí vendo Black Mirror e se espantando com essa relação paradoxal entre comportamento e tecnologia. Esse tipo de realidade totalitária e indissolúvel é assustadora, claro. Ninguém gosta de estar preso a alguma coisa ou alguém, a não ser que você não perceba que está preso à coisa, certo? A tecnologia é algo assombroso por conta disso, é impossível perceber o quanto somos dependentes da tecnologia, aliada à comunicação global e instantânea, até ela ser cortada, vide casos de bloqueio do whatsapp, ou um acontecimento muito fora da curva, tipo aquela brincadeira que meninos se enforcam e um morreu, daí veio aquela corrente de programas iguais ao da Fátima Bernardes discutir os limites da tecnologia, principalmente para as crianças.

Black Mirror vem mostrando os extremos disso aí, aparentemente. Fazendo projeções do nosso presente e de um futuro regrado pela nova ordem tecnológica, a série vem cheia de situações intrigantes mostrando que ninguém está a salvo do poder que a tecnologia é capaz de oferecer. Nem o primeiro ministro inglês. Então, a tecnologia se mostra tão soberana que não dá folga nem a quem detém o poder. Qualquer um que saiba, minimamente, controlar a rede, é capaz de mudar a ordem do mundo que vive. Ninguém mais possui privacidade para nada, muito menos liberdade. Todos os desejos são guiados pela tecnologia, através do entretenimento e das redes de comunicação de massas.

Isso me fez retomar algumas distopias e obras de ficção científica clássicas para tentar contextualizar meu ponto de vista sobre a série. É meio impossível não aliar a série a Aldous Huxley. Sim, ao autor. A série apresenta pontos fortíssimos de toda a sua obra, claro que o principal é a dominação pelo prazer, a ditadura perfeita, apresentada em ‘Admirável mundo novo’. A tecnologia é capaz de condensar todo nosso prazer num espaço muito reduzido, uma das principais características da série.

A tecnologia ganhando luz própria me faz lembrar Asimov e seu incrível gosto por robôs, a ponto de achar, falando bastante por alto, que robôs seriam o futuro da humanidade a ponto de domina-la e substitui-la muito bem, obrigado. No caso, essa trinca formada pela rede, entretenimento e comunicação é o futuro robótico de Asimov. Podemos citar, também, Phillip K. Dick e sua mente perturbada. Ele foi autor de uma obra bem extensa e que versa muito sobre inteligência artificial e sistemas integrados que tem vida própria (quem nunca assistiu Minority Report aí?) e acabam tomando o controle de tudo, como verdadeiros déspotas em cabos de rede.

Muitos outros autores como Margareth Atwood, Ray Bradbury e, o maior deles, Orwell, escreveram sobre uma ditadura cruel, perfeita e cíclica. Cíclica porque até seus rompantes aparentam ser previamente programados, fazendo os ciclos passados parecerem uma fase de treinamento para a verdadeira ditadura perfeita, que é sempre a atual. O sistema é capaz de absorver, exterminar e melhorar seu meio de subjugar as pessoas. Somos como ratos correndo naquela roda e com um pedacinho de queijo pendurado, pra ficar mais cruel.

Não citei muitos autores aqui, apesar da literatura sobre esses temas ser vasta, mas todos esses que citei, tem, em comum, o fato de levarem três fatores muito humanos ao escrever: o medo, a liberdade e a esperança. Trabalhar essas três palavras pode ser muito mais difícil do que aparenta. Apesar de estarem intimamente ligadas, são palavras que possuem significados pessoais demais para serem levadas ao pé da letra. Se juntarmos o fato de que essas pessoas não se sentem controladas pelo sistema, pois sentem prazer nele, fica mais difícil ainda utilizar do argumento de que devem sofrer para procurar a verdade. Se fosse assim, a opus dei já deveria ter dominado o mundo há séculos. Podemos elevar o nível da conversa para desbaratinar pela filosofia de que prazer é liberdade, mesmo quando há uma sensação de prazer programada, e não estaríamos tratando, assim, de uma distopia tecnológica mais. Mas aí não teria esse texto aqui e nem hype nenhum.

A questão é que, mesmo literariamente no seu sem fim de páginas e tempo para escrever, é impossível dar o sentido exato da liberdade para quem se mantém alinhado ao sistema. Se você falar o que pensa realmente, essas pessoas não vão entender o que estão lendo. É como briga política de facebook: se você não é capaz de explicar sua posição da forma mais geral e simples possível, não se manifeste. Se você pensar um pouco, não há como ser determinista quando se fala de pessoas. A sociedade é composta por infinitos pensamentos que, tolhidos, são condensados para um bem-estar social comum. Ninguém está 100% satisfeito. Quando há alguém 100% satisfeito, há despotismo.

Assim, escritores preocupados em denunciar uma onda crescente de despotismo e servidão, ao invés de fazerem valer seu ponto de vista de forma combativa, decidiram aplacar seu discurso e procuraram um ponto comum para que pudessem validar seu discurso entre as massas dominadas, que é o que interessa, afinal. Reduzir a um ponto comum é simplificar demais as obras dos caras, mas para esse texto vale uma só, beleza? Voltando, para conduzir a argumentação de dominação iminente, todos esses autores utilizaram o ser humano de forma primitiva. Isso não é tão intuitivo assim. Na verdade, é bem revolucionário. Imagine você equiparar um ser completamente inadequado para o ambiente moderno ao homem urbano e social. Pois é, inusitado e complicadíssimo.

Essa inadequação do ser humano ao avanço radical da modernidade (não digo tecnologia. Vejam bem, modernidade e tecnologia são coisas completamente diferentes), como é hoje, é o que mais me assusta em Black Mirror. Não por ser minha maior preocupação pelo que foi mostrado na série. Mas por, justamente, não ter sido mostrado de forma clara, contundente. Para mim, não foi sequer mostrado. Dentro da série qualquer homem está subjugado à ditadura tecnológica, seja pela servidão, seja pelo desejo de poder. Ao mesmo tempo que há uma denúncia exposta ao absurdo, há uma inanição ao valor do homem ante à tecnologia crescente. Não como luta, já que falamos de ditaduras perfeitas aqui, mas como valor do homem em relação ao mundo que se transforma. Os pontos de mutação do sistema são criados pelo próprio sistema embevecido de si mesmo e de sua capacidade de mutação. Um sistema lógico que atua fora da própria lógica.

A partir do momento que sua advertência toma esse caminho, significa que já estamos dentro do sistema e correndo contra o tempo para cavar nosso próprio espaço como autômatos. Uma denúncia que não permite investigação, muito menos uma mudança de hábitos sequer. Esse é o real perigo da ausência de uma exposição aprofundada sobre o homem, retomando tudo o que já conhecemos nele. Os capítulos são, de certa forma, muito reais. Espionagem, vazamento de informações, reputações aniquiladas, prisão tecnológica, servidão voluntária para meios de prazer instantâneos, grupos de hackers, desafio ao eterno e tudo mais. O mundo está um caos e no meio de um processo de revolução que se estica desde a revolução industrial. Mas, repito, deixam o papel do homem em xeque. Não só o homem autômato, ou nossa corrida contra o tempo para sê-lo. Mas o homem que opera a máquina. Ficam lacunas vazias sobre o homem que é capaz de controlar os sistemas de informação e o que é controlado. Seria uma espécie de seleção natural, talvez. Os que nascem para comandar e os que nascem para servir.

A tecnologia seria a forma final da manifestação do ser humano. É o que aparenta pelos episódios. Ela é capaz de encerrar os jogos de poder a partir do ilimitado número de informações que é capaz de fornecer e se torna cada dia mais fácil ter acesso a essa tecnologia. Assim, numa guerra de egos geral, o ser humano seria causador da sua própria extinção, acaso tomemos o ponto de vista de que a humanidade é vil e inescrupulosa. Sendo assim, Black Mirror jamais seria capaz de atuar como advertência, mas como afirmação. Afirmando a faceta nazista e narcisista do ser humano, o que estamos fazendo aqui, então? Entramos numa questão dialética muito forte: se somos maus, porque lutamos? se estamos sendo subjugados pela tecnologia e não nos resta opção, porque a denúncia? se renegamos nossa própria natureza, porque nos preocupamos?

Voltamos ao medo, a esperança, a liberdade e ao homem primitivo que citei aqui, presentes nos clássicos literários. Aprofundar o sentido disso nos faz pensar sobre em como é importante nos identificarmos com o próximo a ponto de não o fazer aceitar servir a ninguém que não seja a ele mesmo. Se você é capaz de olhar, ler, ver ou ouvir algo que te coloque como dono de si, mesmo quando não existe solução aparente e concreta (caso da grande maioria das distopias), desperta reflexão, empatia e mudança, por mínima que seja.

Ver o sistema ser retratado num plano absurdo me despertou autocomiseração e desprezo desde o primeiro minuto. Aquela coisa de “é isso aí que a gente merece mesmo, tá certo”. As pessoas comentam e reconhecem a realidade distópica que viram e continuam mergulhando de cabeça dentro dessa realidade cada vez mais virtual e tecnológica. Sem mudar hábitos ou estimular outros tipos de interação. Nada de reflexão. Parece que as pessoas estão esperando acontecer tudo o que se passa nos episódios (algumas coisas já até aconteceram, é só pesquisar) para dizer: “black mirror já havia previsto isso lá em 2016”. Esse mesmo fenômeno que acontece com Os Simpsons e a eleição do Trump.

Afirmar e advertir tem funções completamente diferentes e, para mim, Black Mirror funciona como afirmação. Afirmar o futuro da tecnologia é, pelas entrelinhas, admitir condições inerentes ao ser humano que são imutáveis daqui em diante. Isso causa desconsolo, além de não provocar mudança. Constatar que o mundo é corruptível e que a tecnologia tem o poder de modificar a ordem do mundo que conhecemos (é um processo em andamento, como eu disse acima), ok, mas quais os hábitos seus você foi capaz de analisar sob uma ótica de mudança? Depois não vale usar a série como uma espécie de oráculo. Ela fez o fácil para adquirir audiência e caiu no clichê que todos caem hoje em dia: determinar o medo, a esperança e a liberdade.

Black Mirror funciona muito bem como bom entretenimento, mas peca ao defender um ponto crítico como uma determinação inexorável da nova era globalizada sem levar em conta o ser humano, mesmo num ambiente em que nenhuma retaliação pudesse dar certo. Se há o crivo de um futuro distópico, é um erro causal dizer que a série foi feita como alerta ou advertência ao que está acontecendo no mundo em sua relação cada vez mais íntima com a tecnologia. E foi isso que eu observei nos comentários feitos em resenhas e redes sociais: a determinação de um futuro desolador, não importando a condição individual de ser humano, nem aquele ser humano primitivo que eu tanto falei. É uma sala de espelhos, daqueles que distorcem você de todas as maneiras, que impressionam e tudo mais, mas você sai de lá de dentro a mesma pessoa. Viver no absurdo é diferente de constatar. E o sistema não é absurdo. Absurdo é, como diria Camus, viver acima do sistema. Elevação, loucura, consciência. Não importa o nome, só trate como absurdo o que merece ser tratado. Por isso, se meu texto lhe parecer absurdo, ficarei extremamente feliz.

P.S.: quando utilizo o termo “homem primitivo”, é uma licença poética que faz referência ao resgate das qualidades mais básicas do homem, sem estar sob o jugo das normas sociais modernas.

P.S. 2: lembrando que eu assisti apenas a primeira temporada. Assistirei as outras temporadas e, acaso mude minha visão sobre a série, farei um texto comentando aqui.

3 comentários em “Distopia em Black Mirror

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  1. P.S. Não assito Black Mirror, mas adorei o texto, afinal, as distopias tem em sua genealogia cretina várias semelhanças com a realidade que desejamos desconstruir.
    Já quero o texto comentado mencionado acima. 😉
    Byeeeee

    Curtido por 1 pessoa

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