Stendhal – O vermelho e o negro

Por Caio Lima

Por muitas vezes uso como abrigo algumas metáforas ou analogias criadas instantaneamente por esse cérebro obscuro e cheio de declives para o nonsense. Não é para ser diferentão, não. Mas é difícil soltar uma resenha sobre pontos diversos que eu percebi durante a leitura de um determinado livro sem ter qualquer tipo de apoio. Caso eu não o faça dessa forma, talvez minhas resenhas se tornem um grande emaranhado de parágrafos vazios, ou seja, uma grande perda de tempo. É por isso que hoje eu farei isso de novo e com um clássico. Acaso não gostem, deixo aqui meu sincero “só lamento”.

Contextualizando ‘o vermelho e o negro’ historicamente, muitos defendem que essa seja a maior obra da literatura francesa do século 19. O que não seria absurdo algum, se pararmos para pensar bem. Mas elevando a conversa para a literatura francesa da época, Stendhal tinha como “concorrentes” caras como Victor Hugo, Balzac e Dumas. Então não estamos falando de torrada com pasta de maionese e atum, estamos falando de canapé com caviar aqui.

Numa breve comparação, o choque entre a literatura produzida por Stendhal e a produzida por Victor Hugo vai muito além das palavras. Os dois oferecem retratos das situações política e social da França tão vívidos e tão diferentes, que formam duas alas de pensamento completamente distintas em forma, concepção e, principalmente, em sensibilidade. Essa concepção centrada na força plena do indivíduo ante ao social de Stendhal, contrapondo a plenitude da sociedade na formação do indivíduo de Victor Hugo, transforma, para nós leitores, a literatura francesa numa espécie de ‘o vermelho e o negro’ também.

Me atendo a Stendhal para não estender muito a conversa, o livro em questão conta a história do jovem Julien Sorel, filho de carpinteiro que possuía uma capacidade fora do comum para guardar informações, um poder de oratória fortíssimo, uma beleza quase feminina, além de ser apaixonado por literatura e ter uma ambição um tanto quanto alta. O reconhecimento de sua capacidade intelectual, acompanhada de sua ambição, o fazem almejar formas de sair do estado de pobreza e subserviência em que foi criado. As únicas maneiras possíveis são através da igreja ou das armas. Daí se dá o nome do livro, batina preta de padre ou uniforme vermelho do exército. Mas isso todo mundo está cansado de saber, claro.

Logo Julien começa a perceber que não é uma simples escolha entre o vermelho e o negro que o tirará de sua situação para ascender socialmente. O livro relata uma coleção de vermelhos e negros que nosso protagonista tem pela frente. E nesse determinismo sobre qual caminho seguir, as escolhas de Julien sempre vão se renovando e aparecendo de diferentes maneiras, colocando-o em xeque, mesmo já tendo determinado, visivelmente, sua predileção pelas armas. Visto sua habilidade natural para a coisa e a veneração, que vem de Stendhal, por Napoleão Bonaparte, a quem o autor serviu durante as guerras napoleônicas e tudo mais.

Esse bonapartismo marca a tendência de Stendhal, durante todo o livro, de denunciar de forma suave a corrupção que se alastrou pelo país com a negociata de cargos políticos e benefícios ou contravenções deliberadas, lugar comum nesses jogos de poder. Dando a entender que a democracia é um jogo de poderosos e para poderosos (ou seja, que ela não existe), Stendhal acumula em suas linhas um sério remorso sobre como o antigo imperador fora injustiçado e em como essa tomada de poder pelos detentores do capital prejudicou a ascensão dos pobres. A trajetória de Sorel e os saltos que ele dá entre o vermelho e o negro são provas cabais disso.

Esses saltos que Julien realiza tentando se equilibrar nessa busca por ascensão, mostram outra dimensão, agora literária, de Stendhal que, pelo meu pouco conhecimento e rápida pesquisa que fiz, era algo novo na literatura da época e que, muito provavelmente, ajudou Stendhal a galgar seu espaço na cena literária de uma França iluminada por caras completamente centrados na ideia de um governo democrático capaz de atender às demandas sociais, tentando agrupar os reflexos ainda existentes da grande revolução para o bem comum. Esses caras escreviam, principalmente Victor Hugo, com classe e muito bem ritmados. Qualquer um que já tenha lido ‘os miseráveis’ sabe que é um livro vagaroso, que faz um mapa social incrível e que tem toda a descrição dos esgotos de Paris, por exemplo. Stendhal fez um bocado diferente, saca só.

O tempo nos é extremamente relativo, certo? Todo mundo já ouviu falar da teoria da relatividade de Einstein, né? Então, quando estamos completamente imersos na leitura não vemos a hora passar. Foi o que aconteceu comigo nas últimas 250 páginas desse livro, por exemplo. Li e nem senti que li. Em compensação, quando pegamos algo que não nos envolve por inteiro, lemos 10 páginas em 1h que mais parece uma eternidade. Isso porque ficamos ali no celular conferindo o horário, se chegou alguma notificação e vendo as redes sociais.

Stendhal usa dessa relatividade do tempo para construir sua obra de forma muitíssimo exagerada, até. Percebam que os momentos de maior tensão ou êxtase no livro passam voando, em poucas páginas, com parágrafos curtos e diretos. De repente está tudo ali e você que se vire. A tensão do leitor aumenta junto com a do livro, é uma descarga só. Da mesma forma todo o processual até esses momentos de tensão, é muito vagaroso, principalmente na primeira metade do livro. Parágrafos grandes, capítulos grandes e dá, realmente, aquela impressão de que o próprio autor não escreveu aquilo muito animado.

É muito evidente que Stendhal tem um estilo de escrita muito mais livre de estilística que toda a escola francesa da época. Ele deixa bem claro que é um homem simples, inclusive. Então já não seria a coisa mais simples do mundo ele criar cenas e diálogos que transferissem toda a burocracia dos grandes salões nobres de duques e marqueses da França, sempre às voltas com seus jogos de poder, enriquecimento e corrupção, ou da doutrina taciturna e bem regrada dos mosteiros, para o papel. Mas ele foi até o limite para fazer que o leitor sentisse essa burocracia na pele. São realmente longos todos os momentos em que Julien opta pelo negro. Tudo demorado, lento e burocrático.

Em compensação, nos poucos momentos em que Julien tem contato com a parte vermelha da história, a parada fica muito cabulosa. É rápida demais. E se não fosse pela clara ideia de que Julien preferiria sempre ter escolhido o vermelho em todas as opções que faz durante o livro, sentiríamos um grande vazio ao invés de aproveitarmos de sua satisfação, mesmo que rápida.

Essas constantes mudanças de velocidade narrativa aliadas ao jeito livre de Stendhal escrever, proporciona algo que transcende o plano das ideias e toca muito mais o leitor do que as palavras ou o tema central do livro. Há a perda da realidade física e caímos num plano que não há como contabilizar o tempo. O leitor se perde no tempo literalmente, focando intuitivamente nas sensações. A felicidade de Julien, por exemplo, se torna física para o leitor a partir do momento em que deliberadamente fazemos questão de esquecermos o tempo e, mais importante que isso, paramos de raciocinar sobre Julien e passamos a pensar como Julien Sorel.

O exercício de justaposição utilizado como artifício para que cortemos nossa linha de raciocínio é algo um tanto quanto autoritário, mas necessário para entender como Stendhal defende certos posicionamentos completamente paralelos aos famosos autores da época. Então, de repente, defender um monarca não é mais tão absurdo ou assustador assim e as idas e vindas entre democracia e monarquia daquele período da história francesa tornam-se extremamente naturais (ou menos complicadas de entender, daí depende da sua empatia, imersão e coisa e tal) para nós, leitores do século 21 embevecidos com nossa noção completamente deturpada e autoritária de como as coisas devem funcionar não só para nosso país, mas também para o resto do mundo. O tempo, manipulado por Stendhal, deu novos ares à literatura francesa e colocou em xeque uma vertente intelectual ampla e que arrastava seus tentáculos pela nova França, ou França pós-revolução.

Manipular o tempo é, também, manipular o que sentimos, quando e como vemos as coisas e o que traduzimos por certo e errado. Quantos Juliens já não leram esse livro e se pegaram pensando que não aguentariam viver numa sociedade tão blasé, afinal? Eu sou um deles. Você que está lendo agora, também pode ser. Olha que louco você se imaginar numa situação que não concorda! Literatura e seus pequenos milagres.

Dessa forma, ‘o vemelho e o negro’ deixa de ser uma obra sobre uma escolha e torna-se um grande simulacro da vida vista por Stendhal, onde as escolhas se repetem em diferentes níveis e formas, e isso emulará todo seu tempo. Por definição, então, o tempo encurtará ou aumentará de acordo com a sua satisfação. Não duvido que, acaso Julien conseguisse seguir pelo “vermelho” e conquistasse tudo o que quisesse, o livro teria menos de 200 páginas e seria daqueles livros para se ler numa sentada. Só não faria muito sentido. Nem teria repercutido tanto, óbvio.

O negro nem sempre é opção, é necessidade. A vida nem sempre dá as opções. O indivíduo deve se adaptar ao que lhe é ofertado ou não conseguir nada, e isso pode ser interpretado como uma espécie de o vermelho e o negro, claro. No fim das contas, com todas as divergências possíveis entre obra e ideia, Stendhal carrega para dentro do panteão dos grandes autores franceses de todos os tempos, um novo elemento até então utilizado de forma separada ou subutilizado: a relação entre escolha, o que sentimos e tempo. O quão grande somos é uma determinação do quão satisfeito estamos, mesmo que a satisfação discorra de forma trágica como foi com Julien. É interessante pensar nos limites que somos capazes de explorar e por quantas vezes optamos pelo vermelho ou pelo negro ao longo do tempo. Numa reflexão rápida, fico feliz em dizer que meu tempo é curto.

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