Deixem os robôs para as fábricas

Por Caio Lima

Eu, às voltas com minhas leituras amontoadas, vivo inventando projetos literários e deixando pronto um arsenal de resenhas para o blog. Sabe como é, né? Vai que rola uma semana corrida, tudo dá errado e, de repente, o blog fica lá, às moscas. Isso não é legal. Eu levo essa parada muito a sério para deixar as coisas correrem soltas desse jeito. Essa semana eu comecei mais um, muito específico, que é a leitura de ‘Em busca do tempo perdido’, do Proust, o cara que escreve parágrafos tão longos quanto bonitos. E me peguei pensando em fazer um diário de leitura, uma parada com metas e toda subordinada. Mas desisti na hora. Não rola comigo. A literatura, para mim, tem um valor intrínseco muito latente para definir metas. Claro, rolará uma parada toda especial aqui para o blog ao fim de cada um dos sete livros que compõem a saga mais caudalosa da história da literatura, mas não vai ser algo tão regrado assim.

Indo na onda de tentar colocar metas, fui para Petrópolis e decidi levar somente ‘homens em guerra’, do Andreas Latzko, e ‘o vermelho e o negro’, classicão que estava pegando no meu pé desde setembro. Do Latzko, só faltava o último conto, tranquilo e favorável. Um dos grandes livros do ano e provocou uma revolução aqui no Rede de Intrigas que vocês não fazem ideia, nem vão fazer por agora. Do Stendhal faltavam umas 250 páginas ainda. Bagulho estava neurótico. Eis que no ambiente sempre chuvoso da serra, dei cabo do calhamaço mais dolorido de ler no decorrer desse ano. Não se enganem, faz jus ao status de clássico e rolará aquela resenha mafiosa aqui no Rede de Intrigas. Não sei se foi o clima da serra, se eu que estava muito inspirado, mas fluiu. Li as 250 páginas com um prazer enorme.

Literatura, antes de função, é prazer. E o prazer é uma coisa complexa, cheia de picos e nuances que nem mesmo nós entendemos. De repente, bate aquela vontade e pronto, você termina 250 páginas de um livro que estava num ritmo bastante vagaroso, rápida e facilmente. Mas vocês já repararam que a absorção da leitura prazerosa é muito maior, que quando lemos algo por obrigação? Isso é bem óbvio, eu sei. Talvez. Não tanto, vai. Eu fico imaginando essa galera que tem parceria com todas as editoras do planeta e não consegue ler o que realmente quer, para meio que suprir uma demanda de livros recebidos, que precisam ser lidos e resenhados rapidamente, já que o mercado exige cada vez mais velocidade nas respostas. Ou aquelas pessoas que seguem fielmente as dicas de blogueiros e só leem o que já foi lido, e opinado, por outros. Assim não caem na tentação de ler algo que, por ventura, não venham a gostar. Imagina perder tempo com um livro que fulano não gostou, cruzes. Ou, pior, os alunos do ensino fundamental e ensino médio que são obrigados a ler, tanto no colégio quanto, principalmente, para vestibulares, livros que eles sequer conseguem contextualizar. Pior ainda, fazem uma leitura rápida, tentando absorver o máximo possível daquele arremedo de palavras soltas que estão numa outra conjuntura, completamente estranha, para responder uma ou duas perguntas de uma prova gigantesca! E cada prova tem sua própria lista de livros! (Milhares de exclamações!)!

Os tempos mudam, os hábitos nem tanto. Hoje o tempo é dos números e dos gráficos irrefutáveis. Inclusive, o Dallagnol está ministrando um curso sobre isso, online e totalmente de graça. Não percam! Voltando, as estatísticas mostram tudo o que acontece a todo o momento e é impossível refutá-las. Argumentos irrefutáveis geram autômatos. E é uma sociedade de leitores autômatos, pragmáticos, quadrados e técnicos que estamos criando. Mais uma vez, vemos uma crescente onda de recortes niilistas, onde um livro sobre teoria política tem valor muito maior que um livro de poesia, por exemplo, pois é a economia que faz o mundo girar e a poesia é coisa de desocupado que não está nem aí para o futuro, só querem saber de fazer ciranda para protestar contra o governo golpista e acampar na praia do sono.

Isso não é uma condição única e exclusiva do nosso tempo. Isso é cíclico. Aqui no Brasil, então… acontece de ano em ano. Só muda a forma. Mas é certo que a sociedade sempre tem que estar num estado de inércia intelectual e sempre combativa entre iguais. Somos os maiores reguladores de um regime democrático que não nos serve. Isso acontece, dentre diversos motivos e técnicas de manipulação de massas, porque não sentimos prazer algum em desfrutar da única coisa que todos podem produzir à sua maneira e difundir de forma gratuita e interminável, nossa cultura. Dentro desse contexto de cultura, a literatura é o movimento que sofre cada vez mais com essa lobotomia generalizada. Erros de interpretação simples, a necessidade de sempre ser literal, reto, conciso e estreito. Não há oportunidade de defesa para quem desperta dúvida. Alimentar a dúvida é o grande crime social. Tem dúvida disso? Pegue qualquer notícia de qualquer portal no Facebook e abra os comentários.

Se há uma tendência geral, mesmo naqueles que dizem lidar com literatura por amor, a girar em torno de um ciclo, torna-se simples a dedução de que a liberdade promovida pela literatura, como arte que é, tem sido amplamente cerceada. Mas é mais bonito falar que é chato ou desnecessário, assim você só se preocupa com o que interessa. Falar sobre literatura não interessa. Impor sua opinião e se fechar num círculo comum, sim. Ver a cultura, na sua manifestação mais individual, simples e livre, ser podada dessa forma é a maior comprovação de que a sociedade está sofrendo com um sério problema de identidade. Não nos reconhecemos mais, mesmo com um espelho gigantesco na nossa frente e nas nossas estantes.

Se esse quadro é reversível ou não, eu não sei. Aparentemente, não. Essa onda pragmática em tempos de crise econômica é muito forte: o mercado editorial precisa lucrar desesperadamente, o número de brasileiros leitores está diminuindo e a receita disso tudo você vê na vitrine das livrarias. Fica meio rap de mensagem, saca? Tipo aqueles grupos que só falam do menor da favela que busca redenção na sociedade durante um disco inteiro. Mas é necessário haver resistência para mostrar que literatura é um prazer, acima de tudo. E que, com prazer, somos capazes de ir muito mais além do que pela obrigação. A literatura precisa de mais leitores assim, que sintam prazer ao ler. Sem preconceitos ou círculos fechados. Se a arte imita a vida, sabemos onde vai parar uma pessoa que sente prazer com a arte que produz e que consome. No mais, deixem os robôs para as fábricas.

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