Érico Veríssimo – Incidente em antares

Por Caio Lima

Acho que todo mundo que se aventura pela literatura produzida por Érico Veríssimo não faz lá muita ideia da dimensão do que é a obra do cara de primeira. Na real, nós nunca sabemos a dimensão da obra de determinado autor, até nos darmos o trabalho de ler. Mas existe aquele rol dos autores mais que consagrados e que você pega para ler com a perfeita noção da grandiosidade da obra do camarada. Aqui no Brasil isso rola muito com Machado de Assis, Clarice Lispector e Paulo Coelho (rçrçrçrç). Com o Veríssimo eu já não vejo esse hype todo. Todas as opiniões e indicações que recebi sobre o cara foram muito sólidas, concisas e sóbrias. É muito esquisito receber dicas assim, tão bem formatadas e que parecem resenhas. Isso me deixou muito curioso. Muito mesmo. Então decidi começar a ler Érico Veríssimo com o (quase) calhamaço ‘Incidente em antares’ e agora eu entendo o porquê das dicas sempre muito sóbrias sobre esse cara.

Lucidez é uma coisa muito difícil de se alcançar no processo de escrita que acontece durante um processo duríssimo de ditadura. Primeiro são as ideias que vão se embaraçando e, depois de desembaraçar esse novelo, vem os ideais com os quais se escreve. Não se empolgar, mantendo o texto numa linha de reflexão bem arrumadinha, é quase impossível. Manter as características da própria escrita e não parecer um destemperado e radical, para não falar comunista (RÇRÇRÇ), mais difícil ainda. Mas agora consigo compreender essa aura de lucidez em torno do Veríssimo. ‘Incidente em antares’ se mantém coeso e lúcido do início ao fim em suas quase 500 páginas.

Retratar o período do golpe militar não é fácil. Retratar como a população reage, em todas as classes, nichos e vertentes ideológicas, menos ainda. Criar um cenário exclusivamente para expor isso tudo de forma clara, esquece, né? Não! Nada disso! Antares, a pequena cidade que faz divisa com a Argentina, está aí para nos provar que em se tratando de recursos narrativos para analisar e sintetizar a história, Veríssimo é um dos melhores que eu já vi. Já impressiona pela criação de Antares, desde sua descoberta e sua divisão entre duas castas de coronéis que acompanham a história de tudo o que rolou pelas bandas do extremo-sul-do-Brasil-que-hoje-não-quer-mais-fazer-parte-do-Brasil.

Um dos méritos de Veríssimo é conseguir manter num universo genérico o pandemônio que se transformou cada cidade do país. As exaltações morais, a fragilidade do modus operandi brasileiro, a necessidade de responder a uma nova ordem econômica e social (que acaso tomasse o poder sofreria embargos econômicos que levariam o país a hecatombe), o poder da mídia nefasta e manipuladora, sempre interessada em municiar intrigas para beneficiar poderosos, e, por fim, a irresponsabilidade moral do brasileiro ao acreditar que ajudar os ricos vai beneficiar os mais pobres, sem entender que o aparelhamento do Estado, da forma que estava formatado, sempre beneficiou os coronéis e empresários em detrimento do povo.

Parece que as coisas só seriam capazes de serem modificadas se algo sobrenatural acontecesse, como sete mortos saírem de seus caixões e infestarem a cidade com um cheiro insuportável. Putrefação ao ar livre e jogar bosta no ventilador, novas modalidades olímpicas. Dos mortos e dos vivos. De traição à corrupção, a cidade inteira se vê desmascarada. Uma imersão moral acontece e, de repente, esses coronéis que comandavam a cidade já não são tão mais onipotentes assim ante o povo. Os mortos, que nada deviam a ninguém e só queriam o direito de serem enterrados o quanto antes, despiram os cidadãos de bem de Antares. As exigências de ordem, de moralidade e civilidade caíram por terra no momento em que todos tiveram suas máscaras arrancadas e viram o poço de corrupção em que cada um se encontrava.

Memorial Erico Verissimo -
Fotos do Érico Veríssimo

FOTO: Leonid Streliaev

Nessa guerra da moral e dos bons costumes, as diferenças ideológicas foram classificadas como crimes hediondos e jamais poderiam ser discutidas. Seria criminoso ser um vermelho/subversivo/comunista. Vai pra Cuba! Nem apontar para a grave falha democrática que é a permissão de uma vertente ideológica diferente, alternativa ao poder atual, é permitido. As privações de pensamento são muito piores que as privações físicas e isso é assustador. De repente, todos em Antares começam a perceber que existe uma doutrinação ideológica muito mais profunda que qualquer doutrinação, supostamente vermelha, já que não os dá o direito de escolha.

Mas após muito cansaço, muita força e num estágio de decomposição avançado, os sete mortos conseguem seu devido repouso. O cheiro acaba e o show também. De repente, Antares enterra seus antagonistas e tudo volta ao normal. Os desvios dos bons costumes que todos pregam voltam às caixas pretas pessoais. É mais confortável alimentar o Estado do jeito que está do que discutir sobre algo que já está feito, não? Uma pequena centelha se acendeu, mas não foi o suficiente. Nunca é. A vida continuou normal. Havia emprego, havia ordem, havia prosperidade e havia gente de bem. Antares é um reflexo perfeito do antagonismo brasileiro à transparência, a abertura das mazelas, para que haja uma profunda reforma social, e consequentemente política. E isso só começa quando cada um é capaz de reconhecer, se desprender e praticar, finalmente, a igualdade, a empatia e a solidariedade para que todos sejam capazes de exercerem sua cidadania com segurança e liberdade.

E, como se não fosse o bastante, Veríssimo tem a capacidade de tecer um retrato tão fiel do povo brasileiro em todas as suas camadas e ideologias, esparsas e não conciliatórias, que todo esse retrato que foi pintado encaixa, certinho, com o que está rolando hoje. A única diferença é que não foram colocados militares nas ruas, a manobra foi interna e muito bem arquitetada, sem alarde. Mas o inimigo comum reapareceu, agora na forma de partido. Os que bradam pelo livre direito de se expressar são cada vez mais silenciados pela grande mídia, que manipula e delega poderes de acordo com seus interesses. Heróis de barro são criados instantaneamente e arrancados do mapa quando não mais convêm. E o povo continua pagando a conta por tudo o que acontece, não lhe sendo permitido o acesso a uma educação ampla e formadora, mas sim uma educação altamente técnica e restritiva à amplitude e importância de questões que vivemos no cotidiano.

Assim, o cidadão não precisa pensar nessa coisa chata e suja que é a política, pode se importar apenas com seu trabalho e ganhar seu dinheiro mirrado e muito suado. Quem sabe seu filho não dá uma sorte e consegue uma vida melhor, afinal. Seus desvios de conduta para com o próximo, desde que bem escondidos, nem serão notados e, se ninguém viu, não é pecado. O morador de favela continua assustando. O homem de terno e gravata merece toda a admiração do mundo. Baixa cultura e alta cultura. Mesóclise e gíria.

Agora entendo o porquê de receber tantas indicações sóbrias sobre Veríssimo. Literariamente fantástico, ele é capaz de recriar o brasileiro em suas tristes facetas. E, tendo em vista o cenário atual, isso não é nada bom. Grupelhos, autointitulados de porta-vozes da democracia, buscam benefícios para uma única classe (a média, sempre a classe média) alegando estar perdendo espaço e, assim, retira espaço do semelhante. Não existe “quando o meu termina, o seu começa”. A fila tem um final e um formato de pirâmide, não é cíclica. E sabemos muito bem nas costas de quem a conta sempre estoura. Eles não tem face, não tem identidade, não tem cultura, não tem voz e, por fim, não tem espaço. São comunidades, coletivos, minorias. Se a sua democracia exclui essas vozes, esqueça um Brasil mais justo. Veríssimo foi além do governo ditatorial. Infelizmente, somos uma nação de ditadores e golpistas. Mesmo os que falam em democracia. Ao terminar de ler, me peguei com os mesmos olhos sóbrios das pessoas que me indicaram Veríssimo. Agora entendo o porquê.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: