Fazer sentido é para os fracos

Por Caio Lima

O mais legal de escrever um artigo é que, a cada semana que passa, fica cada vez mais difícil escrever algo inédito. As resenhas não são mais fáceis, mas me dão um porto seguro, que é o livro. Sempre posso voltar para o livro e continuar a desenvolver. Mas essa coluna de domingo não me permite esse luxo. Todo domingo é uma coisa nova. Back to zero. Apesar da dificuldade de explorar um tema por semana, eu me torno cada vez mais sensível aos acontecimentos cotidianos. São esses acontecimentos, notícias, notas e fatos que me dão assunto suficiente para preencher os domingos do Rede de Intrigas.

Enxergar as coisas de forma literária tem me ajudado a traçar algumas linhas de raciocínio que eu jamais pensaria em condições naturais, ainda mais nas atuais condições. Acaso não houvesse mergulhado profundamente na literatura, muito provavelmente eu estaria hibernando numa dicotomia travestida de mundo, país e bairro. Não que esteja errado. Só não está completo. A vida não é um cara ou coroa ou um banco de apostas. A vida é liberdade e liberdade é uma palavra tão cheia de significados, que eu não seria capaz de falar sobre qualquer outra liberdade, senão a minha liberdade de pensamento e de ação.

Não que eu seja totalmente livre. São várias as amarras do sistema. Algumas são muito confortáveis, aliás. O pensamento tacanho nos é muito lógico, inerente à nossa tendência natural para a inércia. É como se Newton fosse mais antropólogo do que físico. Suas ideias são maiores que o físico. Suas ideias são maiores que a física. A liberdade de pensamento me fez chegar a essa conclusão, um tanto óbvia, talvez, mas existem tantas coisas óbvias que passam desapercebidas que talvez revelar-lhes que Newton é muito maior que a matéria, cátedra ou física, seja um ato contra esse sistema que me amarra e assim eu acabe saindo da inércia. A necessidade de liberdade acaba falando mais alto nesses casos. Preciso de espaço.

Eu gostaria de ampliar e criar espaços para os livros, as páginas e as capas duras. Mas eu compreendo que essa criação não seria de todo livre. Um espaço criado por mim, seria um espaço com a minha identidade e, apesar das pessoas que admiram meu gosto por livros, não atingiria a todos de forma igual. Eu curto capas muito esquisitas, odeio folhas brancas e vocês nunca veriam os mais vendidos por lá. Se eu ampliar esse espaço para as ideias, novas ideias sempre seriam bem recebidas, desde que não contassem com um comportamento tacanho, mesquinho e totalitário. E assim eu me mantenho na inercia, com um pensamento tacanho, mesquinho e totalitário. Me agrada a criação de um espaço meu para leitura, livros e ideias. Da mesma forma que me agrada ser um poço de contradições.

Contradições fazem parte do processo. São elas que te colocam contra a parede e fazem você pular o muro das antigas convicções para descobrir um mundo novo. Não tenham medo de entrar em contradição, desde que você não seja um político em meio de campanha. Se você for um pastor com um projeto de poder político ou um professor de história que ignora o quão nocivo pode ser seu projeto se alguma coisinha der errado. Nos anos 80 deu e a gente sabe como o mundo está hoje, né? É muito complicado não entrar em contradição, eu acho. Mas são as contradições que revelam uma das coisas mais bonitas que existem, que é o respeito pela própria necessidade de mudança.

E se mudar é necessário, se respeitar é mais ainda. É um exercício espiritual bastante virtuoso e honrado. Isso soa meio oriental, talvez até seja. São umas das muitas referências que eu pesquei pelo caminho, apesar de ter lido, ao meu ver, quase nada de literatura oriental. Erro meu. Mas as coisas boas impregnam na gente e criam raízes mais fortes do que podemos imaginar. Coisas ruins também impregnam, mas não combinam com respeito. Não faria sentido alguém respeitar minhas mudanças, contradições e espaço, e sair por aí espalhando pensamentos atrasados e mesquinhos como um político. Ou como eu mesmo sou capaz de produzir. Ninguém está livre disso. Aí a liberdade não se torna mais tão legal assim, porque até mesmo a sagrada liberdade cai em contradição e exige, toda hora, mudanças na sua interpretação e respeito por cada uma delas.

A literatura é assim, um espaço amplo e criativo. Foi ela que me ensinou que todos esses parágrafos se encaixam, sim. Talvez você leia e não veja sentido algum. No futuro eu posso pensar que essa foi a coisa mais idiota que eu já escrevi e me tornar a pessoa mais inerte do mundo, contradizendo tudo o que está escrito aqui. Não tem problema. Problema será se faltar respeito. Problema será se me faltar liberdade para mudar através das minhas contradições. Problema será se eu me tornar um político e fazer das minhas contradições uma grande arma para agradar a gregos e troianos. A literatura une, contradiz, muda, aceita, respeita e liberta. Isso não significa fazer sentido. Isso significa que você é capaz de pensar por si só. Sem usar terceiros como muletas. Quanto à fazer sentido, bom, fazer sentido é para os fracos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: