Marie Ndiaye – Três mulheres fortes

Por Caio Lima

A televisão estava ligada num filme de época enquanto eu tomava café da tarde. É sempre bom ir para a faculdade sem um rombo no estômago. E, enquanto como, a mãe fala para a filha que ela não deve mostrar demais, é sempre melhor deixar o rapaz imaginando a moça e tudo o que ela poderia oferecer a ele. Cenas clássicas de casamentos arranjados na aristocracia de algum país ocidental. Rapidamente me lembrei de Marie Ndiaye e o livro que eu acabara de ler, ‘Três mulheres fortes’. Calma, Marie não escreveu um romance de época, bem estilo Jane Austen. Não foi dessa vez, aos esperançosos. Quem sabe um dia. Ou não. Mas ela emulou bastante esse conceito bem casto de não mostrar demais e deixar o rapaz imaginando. Mas, pelo andar da carruagem, ela não me parece gostar muito das mocinhas indefesas, dos rapazes valentes e das matronas experientes e sabidas da sociedade.

Igual a um filme antigo, Marie utiliza nos três contos que compõem a obra, a visão de um homem sobre histórias nada felizes. Há um quê de vitoriano, uns traços góticos e aquela coisa exagerada de ‘Os sofrimentos do jovem Werther’. São três contos lúgubres, asfixiantes, intrigantes e nada esperançosos numa Paris moderna em tempo, antiga em modos. Todos os três tomando o homem como o centro das atenções. O homem sofre, se desespera e é mártir. É o comum, talvez. Na minha mente, esse concatenar de ideias entre cinema, literatura e costumes não cola muito. Fica capenga, sabe? Não pela arte. Não que não seja arte. Não que ela não possa fazê-lo. Mas fica algo preso, singelo e expresso.

Eu até poderia pensar “bom, são contos, o título tá meio nada a ver, mas também é mais uma daquelas autoras experimentais e excêntricas que a Cosac lança e não encaixou com meu gosto”, mas não. Eu não conseguiria passar assim. Na minha cabeça não faz sentido nenhum. A conta não fecha. Veja bem, Marie escreve de uma forma moderna, rápida, ágil e objetiva. Os contos se arrastam, vegetam, num arremedo de tristezas, sob apenas uma perspectiva. Não há cabimento entre a escrita e a estrutura. Ação e ideia completamente diferentes. Uma não é fechamento da outra. Das duas uma: ou eu não entendi o livro, ou havia algo implícito. Como eu sou bastante turrão, com certeza havia algo implícito, como a moça de um filme antigo deixa para o pretendente.

Metaliteratura é a técnica de você falar sobre as implicações do livro dentro do próprio livro. Um exemplo bacana é ‘A menina que roubava livros’. A menina fala, o tempo inteiro, sobre como os livros que ela lia alteravam seu universo. Isso é, de forma muito (MUITO) básica, metaliteratura. Se você não sabia, já pode tirar onda nos seus círculos sociais de leitores e parentes baba-ovo. E o que metaliteratura tem a ver com Marie Ndiaye, filmes antigos e minha pulga atrás da orelha? (Ah, minha mente sórdida… sempre me dando trabalho).

Marie, ao escrever os três contos, sempre coloca o narrador se misturando ao protagonista. É um bololô desgraçado, mas que fixa muito bem o ponto de vista masculino da história. Nada mais comum, mesmo nos dias de hoje. Na verdade, ela reforça muito esse poder do homem de guiar uma família de acordo com as suas ambições e sentimentos. Essa capacidade inefável do condutor da casa, da moral e da família em conduzir, inclusive espiritualmente, todos ligados à ele, independentemente do tipo de vínculo gerado. Já pararam para observar em como os humores das nossas famílias giram em torno de um expoente masculino? Mesmo quando há uma esposa que cria os filhos sozinha, sempre há essa aura do pai, do esposo, do homem. Marie é insistente nisso.

Marie-NDiaye-l-exilee-volontaire

Conforme o desenrolar das histórias, vemos que todos os homens sofrem por “serem homens”. Existe uma prisão interior que se chama ‘Unidade Penitenciária Macho Alpha’. Essa unidade força a tomarem decisões rápidas, lancinantes e decisivas. Mas a pressa é inimiga da perfeição e do bem-estar, portanto, na maioria das vezes, essas decisões sacrificam o próprio homem e a todos que estão vinculados a ele. É claro que essa prisão espiritual, fruto de uma cultura milenar, dá ao homem a salvaguarda necessária para que ele acredite piamente que aquilo precisava ser feito, abstendo-se das consequências. Até na nossa forma de fazer política, 500 anos atrasada, é assim, vide às reformas arbitrárias aprovadas sem consentimento da população. São homens tomando decisões pelo simples fato de serem homens. Mas para quem convive, é dependente e cria laços com esse homem, fica um vazio completo e quase nunca notado. Uma mudança radical. Cortar na carne sem chances de restituir o que foi tirado. Uma jogada de risco quase sempre malsucedida.

Mas a roleta russa da vida é muito mais cruel que a original, ela te deixar ali, sofrendo, nas sombras, sem que ninguém te note. É aí que entra a “metamulher” da metaliteratura (sim, eu acabei de subverter o sentido de metaliteratura) de Marie Ndiaye. É como um filme antigo, onde sempre há a donzela para o cara valente e destemido. Esse cara se arrisca sem pensar no dia de amanhã e a donzela, cheia de amor e zelo, fica apavorada, sem saber o que fazer. Você sempre pensa nos grandes desafios do cara, mas as dores que a moça carrega sempre são deixadas de lado. Afinal, ela não travou batalha alguma, não se arriscou, não deu tudo de si por uma ideia, mesmo que esdrúxula.

Uma mulher que, ao escrever, simula as consequências das atitudes do homem na própria mulher, mas ninguém vê. A não ser que você entenda o método de Marie, você se compadecerá do homem. A metamulher que Marie desenha é, simplesmente, a mulher comum. A mulher que segura a barra do pai e do marido. A mulher que abdica da família por falsas promessas. A mulher que perdoa esse homem e o enxerga com compaixão e tenta, por si só e pelo próprio causador disso tudo, reestruturar e redescobrir o sentido de tudo. Conhecemos mulheres assim aos montes. Só aqui na minha rua tem algumas. Mas a gente nem nota. A gente nem quer saber o tamanho do piano que essas mulheres carregam.

Marie fala de si e fala de todas as mulheres, porque é necessário falar. Imagine o quão pesado é o fardo de ser válvula de escape, ser apontada como causadora, ter de carregar esse estigma e ninguém, absolutamente ninguém, em pleno século XXI, reparar que há protagonismo aí. Não são meras coadjuvantes no meio do “errei tentando, pelo menos”. São vítimas de escolhas visivelmente erradas, mas empurradas goela abaixo por uma necessidade de ser, por um apego a uma liderança que dizem ser natural.

Marie, nas suas personagens, protagoniza os contos. Não só por ser essa metamulher, mas por sua excelência ao escrever. Uma concepção moderna num ritmo de filme antigo. Para mim, isso pode ser chamado de metaliteratura. Um filme antigo que se repete. Autossuficiente. Que gira sob os mesmos aspectos após quase um século. Esse filme procura as películas antigas todos os dias, conversando com suas versões ultrapassadas. Ora porque os tempos mudam, a velocidade e os outros filmes vêm como um rolo compressor e é preciso inovar. Ora porque o roteiro precisa ser o original, nada pode fugir ao script. Como manter esse equilíbrio? Difícil, mas se mantém até hoje. Inexplicavelmente. Mas Marie se fez metamulher, já que ela não poderia mudar o roteiro original. E ao produzir essa metaliteratura (minha licença poética, relembrando), ela me fez enxergar de outra forma os filmes antigos. Uma pena o roteiro ser sempre igual. Marie Ndiaye é resistência.

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