Ciclo de palestras sobre mulheres – Medusas//UFF

Por Caio Lima

A literatura, como toda arte, deveria estar inserida em todos os ambientes possíveis. Isso tornaria as relações mais fáceis e sensíveis. É uma das funções que a arte desenvolve tão bem, afinal. Isso nos permitiria, por exemplo, não nos sentirmos estranhos em meios que não tratam única e exclusivamente das nossas demandas, necessidades e reinvindicações. Melhor ainda, seria ter sensibilidade suficiente para respeitar e adquirir o máximo de informação possível no meio. Isso ajuda a entender o próximo e traz para si uma série de reflexões necessárias, senão urgentes.

É por isso que o Rede de Intrigas esteve no I Ciclo Acadêmico de Palestras sobre Mulheres, realizado na UFF Aterrado, em Volta Redonda, pelo Coletivo Medusas. E, para quem pensa que não há nada de literário nisso, muito se engana. E, não, não falo isso pelo fato de ter montado uma banquinha com o Sebo Rede de Intrigas lá. Apesar de terem me dado essa oportunidade gigante de divulgar o blog e faturar um cash para investimentos aqui no blog mesmo, e aqui já vai meu primeiro agradecimento ao Coletivo, não é esse o aspecto literário da coisa. Tudo que é literário nesse evento, vem embasado nas trocas de experiências que eu tive a honra de ter com as pessoas. Aprendizado e gratidão resumem o evento.

Se você acredita que eu vou destrinchar todas as palestras aqui e ficar dissecando toda a gama de assuntos abordados nas palestras, veio no lugar errado. Primeiro, há o fato de que eu jamais conseguiria aglutinar num texto tudo o que aprendi e garantir que todo o meu aprendizado englobaria as demandas das mulheres. Isso não rola por falta de empatia, que fique bem claro. Mas existe um período e um processo muito particulares de assimilação e prática ante tudo o que foi discutido ao longo do dia. Depois, por muitos momentos, principalmente na parte da tarde, me foi atrativo trocar experiências com as pessoas durante o evento. Em eventos assim, acreditem, trocar ideia é tão imprescindível quanto as palestras em si. Muitas vezes é até melhor.

Voltando ao ciclo de palestras, as meninas do Medusas montaram um programa bem extenso. Para um primeiro evento, isso é excelente. Foi uma maneira de demonstrar o quão o Coletivo Medusas está atento aos diversos interesses dentro de todos os braços que os próprios grupos feministas apresentam. Isso é muito, muito, muito difícil. Tanto que foram nove mesas e, parando para pensar, dentro do meu parco conhecimento, faltou alguma coisa. Não, isso não é defeito. Na real, isso só ressalta o quanto as medusas trabalharam para que esse evento pudesse alcançar o maior número de informação possível. Louvável!

Por serem um coletivo formado por mulheres que seguem várias linhas diferentes de feminismo, imagino que tenha sido desafiador elaborar um dia inteiro que as descrevesse como movimento. Foi uma bela entrada na cena, fazendo jus ao apoio acadêmico e às expectativas geradas. Eu, particularmente, não havia visto um coletivo tão novo (o Coletivo Medusas iniciou as atividades há um ano, mais ou menos) conseguir abrir espaço dentro de uma universidade para um evento acadêmico, reunindo palestrantes muito conceituadas dentro da cena e, de quebra, valendo umas horinhas complementares. Isso é grande demais. Para um coletivo tão jovem, é fantástico.

O nível das palestrantes que o Rede de Intrigas acompanhou foi altíssimo. Se fosse para elogia-las, o texto ficaria até chato. Como ressalva, a última palestrante, do projeto Mulheres Encarceradas. O projeto é bem conhecido e havia uma expectativa alta, até entre as próprias medusas, de que esse seria um encerramento com chave de ouro. Mas infelizmente a representante do projeto não preparou o que iria apresentar e, com o improviso, algumas informações relevantes não foram passadas da forma que deveriam e a conversa ficou solta, tensa e extremamente fragmentada.

Lógico, esse foi o primeiro evento acadêmico do coletivo e nem tudo são flores. As principais reclamações foram acerca de atrasos entre uma mesa e outra, ocasionados pelo final de uma mesa estar ligado ao começo de outra, gerando uma correria absurda e um grande estresse para as convidadas, para os inscritos e para a organização também. E isso é bem grave, já que a última mesa terminou bem depois das 20h. Como eu fechei o dia para o evento, isso não me incomodou tanto, além do cansaço natural de um dia inteiro em movimento e trocando informação. Outro problema foi a duração e o encaixe das mesas. Num espaço de 1h, as convidadas tinham 45 minutos para falar e 15 minutos para responder dúvidas.

Outro ponto que seria muito interessante pensar para os próximos eventos, é colocarem uma mediadora junto à convidada. Isso ajuda, como no caso da última mesa, a palestrante manter uma linha de raciocínio ou se desfazer de algum embaraço. Um bom mediador sempre melhora a mesa e facilita as coisas para o público também.

Algumas sugestões devem ser feitas para que isso melhore, se é que o Rede de Intrigas tem relevância para isso. Colocar menos mesas por dia, aumentando o tempo para 1:15h e com um intervalo de, pelo menos, 20 minutos entre as mesas. Isso deixa o dia mais fluido, menos cansativo de organizar para o próprio coletivo, as palestrantes tem tempo para falar, o tempo para dúvidas é mantido e as pessoas inscritas, ou ouvintes, tem tempo de sair com calma, se organizar e preencher, assinar ou seja lá a burocracia que for, sem perder parte do evento e sem ficar na correria. Todos saem felizes e ninguém tem que ficar na correria, reclamando ou ouvindo reclamações alheias.

Aqui no Rede de Intrigas tem muita coisa sobre como resistir através da literatura. Eventos assim são a principal forma de demonstrar que essa resistência vive e está cada vez mais ativa, se sobrepondo à tendência de cárcere que esses tempos apresentam. Desde o esforço para unir, num dia de eventos apenas, diversas vertentes do feminismo até as experiências carregadas pelas inúmeras mulheres que pararam e dividiram suas experiências com o Rede de Intrigas numa conversa informal, por mera curiosidade ou pela necessidade de, no meio de todas aquelas pessoas circulando, pararem e falarem sobre quão gratas estiveram ao ver o evento acontecendo, a empolgação após uma baita mesa e sobre como é bom ver uma banquinha com livros ali, no meio de um ciclo acadêmico. Isso transpassa e eleva o evento para além de um evento que vale horas complementares numa agenda acadêmica. São as vozes mais emocionantes e esperadas por quem se propôs a participar do evento da melhor forma que poderia, ouvindo e sentindo as pessoas, tentando captar e sentir a emoção e o sentimento de liberdade despertado pelo evento em si. É isso que faz um evento ser grande, o envolvimento das pessoas.

No mais, tecnicamente, a tendência é que os eventos do Coletivo Medusas sejam cada vez mais bem sucedidos, tanto em arranjo quanto ao captar público. O espaço foi aberto e o primeiro evento é considerado, pelo Rede de Intrigas, um sucesso. Há um desejo muito grande de manter a assiduidade e de que o Coletivo Medusas também participe das nossas tramas. O espaço está aberto. Máximo respeito pela iniciativa, pela realização do evento e pela coragem e empenho ao fazê-lo. Muito obrigado pelo espaço aberto, medusas. Sucesso! E um agradecimento mais que especial a todos os que pararam, conversaram e dividiram suas experiências. Vocês não imaginam o quão literário é isso!

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