John Steinbeck – As vinhas da ira

Por Caio Lima

Narrar a história é algo muito complicado. Principalmente pela falta da existência de verdades absolutas. Pare para pensar e veja que tudo o que você constrói acontece a partir do seu ponto de vista. E se você se considera um ser humano melhor hoje, mas que pagava mico no passado, é porque sua visão de mundo mudou. A história é inconstante, imperfeita e regida por nós. Alguns se destacam mais que muitos outros por seus feitos. Sobre os ombros desses, uma carga muito maior é depositada. São heróis e vilões. Assassinos e justiceiros. Ditadores e libertadores. Gênios e loucos. Cada biografia, cada livro de história e cada ficção criadas, nascem da ambiguidade do poder e da inerente relação entre quem narra e quem lê a história, sempre sob certo ponto de vista muito específico e individual.

Recai sobre os ombros do escritor o julgamento apropriado sob o ponto de vista do leitor. Autores são, de certa maneira, personagens com destaque na história. Eles possuem o grande poder de suscitar questões sem terem seus raciocínios interrompidos por numerosas e intrincadas páginas. E, mal ou bem, isso estimula o raciocínio crítico por parte de quem lê. Viajamos, aqui, fora de um ambiente onde tratamos do certo ou errado. Isso é um processo muito individual e, reconhecidamente, minhas opiniões sempre estão colocadas ao longo de cada texto. Desta forma, o pensamento, convertido em palavras, transita num prisma de sentidos até nos reconhecermos, momentaneamente, numa dessas faces.

Não existem palavras ou situações indizíveis, mas existem coisas que não precisam ser ditas. John Steinbeck é um desses caras capazes de apresentar as mil faces da história, mesmo sem descreve-la. Isso gera bastante ódio. Não dizer, não explicar, não exemplificar. É “falta de educação” se desdizer, mas não dizer… aí é pecado. E é nessas milhares de coisas não escritas, mas contidas em ‘As vinhas da ira’, que fazem desse livro uma das coisas mais tristes, pesadas e bonitas que eu já li na vida. Sim, triste e bonito. Até a tristeza possui seus traços. E se a vida realmente for como Tom Zé cantou: “tristeza não tem fim/felicidade sim”, eu é que não vou ficar aqui esperando momentos de felicidade para achar algo bonito, não é mesmo?

A saga da família Joad é famosa. O livro é um best-seller, o filme é famosíssimo e virou música também. Nada mais americano que isso, aliás. Pelo menos dessa vez o fizeram com uma obra de excelência. Também não dá para dizer que esta seja uma história inédita ou incomum. A migração forçosa das famílias do interior dos EUA para a costa já foi retratada pelos mais diversos ramos literários possíveis, sendo tema principal ou servindo como pano de fundo para algumas obras. A intransigência do Estado, com o famigerado new deal, após a crise de 29. A maneira que o Estado teve de não assumir responsabilidade com a população em troca do avanço tecnocrata sistemático de investidores privados. Não pequenos empresários. Esses pequenos empresários estavam quebrados também e viraram reféns. Falamos dos grandes mesmo, bancos principalmente. Nada como um colapso para reinventar a economia e beneficiar só a quem “merece”, tem “espírito empreendedor” e é capaz de ser “criativo e audacioso” em meio à crise. Esse capitalismo que deu certo me enche de alegria.

Eu havia comentado num artigo que nossa ideia de sucesso é sempre baseada em sofrimento e que atingimos o sucesso quando conseguimos transferir nosso sofrimento para o maior número de pessoas. É aquela história do tanto quanto for possível, saca? Steinbeck é muito mais articulado do que eu para falar sobre isso, é claro. E, haja visto a diferença de gerações, não evoluímos tanto assim como sociedade. Essa é uma reflexão que pesa muito em tempos de crise, tipo esse que vivemos hoje. As mudanças propostas para que a economia gire e o país volte a crescer, o famoso plano de austeridade, nunca abarca necessidades sociais básicas.

O corte é na carne de quem tem muito pouco ou nada para contribuir. Sempre! Mas existe um agravante nesse período da história americana e que pode, muito bem, se assemelhar ao nosso atual momento: o avanço tecnológico para aumentar a produção de forma imediata. No miolo dos EUA foi isso que rolou. Tomaram as terras dos pequenos produtores, transformaram tudo numa grande propriedade e colocaram máquinas para fazer o plantio e colheita, gerando uma massa de desempregados e sem-teto. Isso está prestes a acontecer aqui. Na real, é o próximo passo do golpe. Mas isso são só conjecturas que eu não gostaria de deixar de fora da resenha.

john steinbeck

“Enquanto houver ira, haverá gente procurando trabalho.” Essa frase está mais para o final do livro, solta em algum parágrafo. Pode parecer despretensiosa, mas ela traduz muito bem tudo o que não foi escrito por Steinbeck. Não há, em nenhum momento, mostra de insatisfação pessoal de qualquer personagem no livro. Existem impressões das personagens, do próprio narrador, mas nada conclusivo. Nem contundente. Ao longo do livro, todos guardam para si essa ira que os acomete. As impressões de exaustão física, psicológica e emocional são latentes, é algo muito sensível. Mas a família Joad não se dá por vencida e ninguém fala a real insatisfação e a ira que os move. Do vô até as crianças, todos eles possuem no seu âmago uma ira, uma força crua, brutal e motriz que os leva até onde for preciso em busca do que há de mais rústico como definição de existência.

Aprofundar no homem até a raiz que o consolida como ser e concluir que o nosso básico está na busca incessante pelo trabalho em detrimento dos demais luxos aos quais nos damos direito. Essa é a ira que move a família Joad. A edificação do homem se dá pelo trabalho que pode realizar. Independente do meio de ressarcimento que a ele seja garantido. Mas a capacidade de realizar atividades constrói e transforma o homem no que ele é. É possível que você não enxergue isso hoje por não ser uma constante muito aparente no nosso mundo moderno, pois possuímos recursos para mudarmos o nosso meio de trabalho e seguirmos produzindo, mantendo uma relevância tal qual a sociedade necessita. Mas imagine na década de 30, uma família de pequenos agricultores que sobrevive do próprio trabalho e isso lhes é tirado. Se lhes removem o trabalho, lhes tiram a vida.

Os ideais da área técnica, engenharia e tecnologia, são sonhos distantes vendidos a preço de ouro para, na verdade, formar trabalhadores a serem pagos a preço de banana. Isso se for possível fazer o curso. À distância. Como preparar profissionais qualificados, que produzam bem, num rápido congelamento de atividades básicas e simples, para virar o jogo e investir na implantação de atividades altamente tecnológicas? Isso não existe. Não há equilíbrio nas ações. Nem lógica. A não ser que a lógica seja favorecer a poucos, muito poucos.

Capturando algumas lembranças soltas, voltar às raízes do homem que é dignificado pelo trabalho que tem, por mais simples que seja, é um desafio muito grande dentro do ramo literário. A literatura, bem como toda arte, é marcada por ser uma atividade proveniente do ócio. Poucos são os que realmente valorizam o trabalho do autor. E dentro desse contexto que se permite ao ócio, nós temos obras geniais que precisaram ser muito trabalhadas para chegar a esse estado de excelência literária. Sendo, talvez, a maior delas, o grandioso Oblomóv e suas quase trezentas páginas deitado, inerte, vivendo do ócio. Usar esse medo intrínseco e natural ao ócio de forma inteligente para passar esse recado de que o trabalho literário o dignifica a ser provedor de uma mensagem o coloca, de certa forma, numa posição deveras delicada. É um jogo de risco se fazer provar em tempos de crise.

Ao criticar todo o sistema americano, selvagem e implacável para com seu próprio povo, Steinbeck garantiu para si um séquito de haters implacáveis. Não à toa, também. Nem o Exército da Salvação escapa à sua caneta afiada. E as críticas são duríssimas. Bancos, empresários, sindicatos, policiais e governantes. Nada escapa à mira implacável de John Steinbeck (sessão da tarde feelings). E o pior de tudo é que ele era contemporâneo ao new deal. Ou seja, ele era louco. Ou um gênio. Daí depende da tua opinião. A parada é que John Steinbeck bateu muito pesado em muitas questões, mas o principal motivo desse livro estava completamente implícito. O que seria de você sem seu trabalho? O que seria de você se não fosse capaz de atuar como parte produtiva da sociedade? Como você se sentiria se não pudesse realizar nada de produtivo? Pela necessidade de ser alguém, produtivamente falando, a família Joad engole seco todas as desgraças possíveis, transformando sua jornada numa odisseia regada à indiferença, poeira e frustração. E é essa a essência do homem e é onde é canalizada sua ira.

É de ficar com a pulga atrás da orelha, sabe? A família Joad foi desumanizada ou, na verdade, ela permaneceu mais humana do que nunca? Eu já parei para pensar e não cheguei a uma conclusão, de fato. Me tornou espantoso o fato de eu ter muito tempo para pensar sobre isso sem me tornar ocioso. Como dá trabalho entender Steinbeck. Pior, como dá trabalho não cair nas suas armadilhas durante o livro. Num livro que bate tão fundo nas nossas dores. É muito bonito captar a beleza e a complexidade do ser humano nas entrelinhas. Pelo trabalho, pela comida, pela vida e pelo que há de mais bonito após a ira, a tristeza. Ahhh Rosasharn, você bem sabe disso.

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