Nobel é pra quem tem

Por Caio Lima

Eu cresci ouvindo todo e qualquer tipo de música, mas rap é algo que transcende essa esfera do gostar. Vocês podem falar “aaaah mas o Caio disse que suas duas músicas preferidas são ‘hurricane’ e ‘black dog’, como pode ele gostar mais de rap?”. Rap é algo que vai além da experiência musical e lírica. Desmembrando e traduzindo, rap é ‘ritmo e poesia’. E eu levo isso muito a sério. Escrever rap é algo que vai muito além de uma letra com x recursos num beat y e, juntando tudo, existem carros de luxo, drogas, bebidas e clubes de strip-tease. Não, nada disso. O rap é uma expressão literária muito forte. Inclusive, para quem não sabe, uma boa fatia da minha estante são referências extraídas do rap. Essa parcela envolve tudo. Ficção, biografia, filosofia, sociologia, geografia, história, poesia e quadrinhos. O rap, para mim, é e sempre será uma experiência muito mais literária que qualquer outra rotulação que o mercado possa usar. A capacidade de desenvolver, dentro ou não de 16 linhas, relatos sobre tudo, fazem do bom rapper um grande contador de histórias. Contar histórias. Dar oralidade à literatura.

Quando vi Bob Dylan anunciado como o vencedor do nobel de literatura desse ano, fiquei extasiado. Parecia um sonho o que estava acontecendo. É, de certa forma, uma realização de todos que militam ou simpatizam com a poesia marginal e todas as formas em que a poesia é capaz de ser perpetuada e utilizada. Sim, a literatura não funciona apenas pelos livros. Papel e tinta são meras formalidades. Lindas formalidades, aliás. Dou muito valor aos livros. Mas muitas das melhores experiências literárias que tive não estavam no papel, sem registro algum fora a memória. Se formos remeter ao passado, a literatura era completamente oral. E obras, como a própria bíblia, foram contadas e recontadas de forma oral até assumirem sua versão em papel. Com Homero, a mesma coisa. Podemos falar de culturas inteiras que se perpetuaram através da oralidade, como celtas, saxões e os próprios índios. Se pararmos para pensar, hoje em dia lançaram audiobooks, rolam saraus vida afora e outros tantos eventos e recursos literários que não necessitam, de forma alguma, do objeto livro ou de qualquer regulação dogmática, limitando a literatura a um certo nicho ou padrão.

E é exatamente por essa facilidade de se transmutar de forma e se perpetuar em todas as classes, tipos e gêneros de pessoas, diferente da música, do cinema e da pintura, como exemplos, que existe um prêmio nobel de literatura. A simples capacidade de se comunicar já dá o suporte necessário para que a literatura exista. Mas se quiser ter uma experiência particular, papel e tinta resolvem. É simples. Você pode traduzir para qualquer língua, pode contar para alguém, colocar em braile e tudo vai dar certo. E o poder disso é impressionante!

Dylan apareceu em meio à loucura dos anos 60, no auge da luta pelos direitos civis. Movimentos diversos apareciam a cada beco e, perambulando pela vida, grudou na galera da geração beat. Acho que isso é referência literária o suficiente, fora o talento natural, para colocá-lo num patamar diferenciado de compositor. Aparecer nesse ambiente, claro, sempre por baixo, o fez percorrer o sonho de todo poeta marginal. Sabe essas letras escritas em dez minutos num guardanapo e que entram para a história, frutos de um momento monumental de inspiração? É isso. A forma, o estilo, o conceito. Tudo era diferente do usual. Escritos liricamente instigantes produzidos da inspiração e talento de um jovem que emergia como, futuramente, um dos maiores artistas multifacetados da história. Com linhas que eram poesia pura ou poesias que soavam como música.

A questão é que, muito além do talento musical, as letras de Bob Dylan revolucionaram a forma de escrever música e poesia. É um retrato daquela geração beat mais persuasivo que Kerouac, Ginsberg e Burroughs. Aprendeu com os mestres para perpetua-los em canções. Tomar noção disso me fez pensar muito na minha relação com o rap. Eu sempre considerei os grandes mcs, poetas. Depois de poder conviver um pouco mais de perto, passei a acreditar veementemente nisso. Sabe o Sabotage, o poeta do canão? Então, é poeta sim! E essa semana sai um álbum póstumo dele. A única coisa que eu parei para pensar quando soube é “cara, o que será que ele deixou escrito? Quantas linhas incríveis eu terei o prazer de ouvir?”. Caras assim são músicos, mas, acima de tudo, militantes da literatura.

Me deixa extremamente feliz que a academia luxuosa, rica e poderosa do prêmio nobel tenha pensado na literatura como algo que vai muito além do papel. A literatura tem dessas coisas. Está inserida em todas as artes e, provavelmente, boa parte das outras artes ruiriam sem ela. A literatura é flexível, amorfa. O mais engraçado disso é que, hoje, quem a trata assim, em sua maioria, são os que tem menos acesso à ela. A necessidade faz o homem, já dizia o ditado. Se os livros não chegaram, eles fabricam as próprias letras e fazem à capela, declamando ou em cima de um beat feito pelo mestre Ganjaman.

O nobel de Dylan representa muito mais que um prêmio por sua obra. Acho que ele já deve estar enjoado de receber prêmios, até. Olho com olhos mais profundos, de quem vê como a poesia está sendo capaz de movimentar mentes há mais de uma década. O nobel de Dylan é, sem sombra de dúvida, uma justa homenagem aos que não podem escrever suas poesias e as cantam. Aos que não possuem valor literário e insistem em escrever, nos cadernos, coisas melhores que 90% dos poetas que eu já li na vida. O Sant escreveu: “nem todo sorriso é feliz/nem todo choro é triste/nem toda saudade é má/nem toda fé persiste/ já faz um tempo que eu não oro/todo dia eu choro/e o silêncio do lado bom não garante que ele não existe”. Como é que eu não enxergo isso com valor poético? Além de tudo, existe técnica. Perfeita. Bem aplicada.

Dylan ousou e reinventou a poética da música americana. Escreveu clássicos que até hoje me inspiram. Mas, na real, eu me amarro em ver esses caras que reinventam poesia todos os dias apenas para batalhar numa roda de rima pequena. Os caras que estão crescendo no rap. Os caras que já são referência e fizeram do rap o que ele é hoje. O nobel de Dylan é o nobel de Sabotage, o poeta do canão. Espero que os críticos do prêmio possam perceber o quão maior é a literatura ante ao se laurear alguém que não se enquadraria, na opinião alheia, nos padrões da literatura. A literatura não tem padrão e não tem limites. É a arte mais livre de todas. E permanecerá assim. E essa semana ainda vou ouvir Sabotage cantar suas letras. Quero muito ouvir o que ele deixou gravado. O cara tinha muita coisa para falar. Salve Dylan! Salve Sabotage!

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