Gabriel García Márquez – Ninguém escreve ao coronel

Por Caio Lima

No maior clima de “vem, vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe, faz a hora/não espera acontecer”, esse é o tipo de livro que faz Geraldo Vandré se revirar no túmulo. A resenha é rapidinha, porque não dá pra esperar muito. Não pela espera em si. Acho que todos esperamos alguma coisa, mesmo os que fazem a hora. O problema é quando a espera se torna inútil, mas indissolúvel de quem a pratica. É aquela espera eterna por algo que nunca virá. Essa espera que faz você perder as melhores oportunidades da sua vida e, num caso extremo, a oportunidade de viver. Essa espera que afasta todos à sua volta e se apodera do seu todo. A ação de esperar é quase um deus perscrutador, controlador e malévolo. Podemos compara-lo, de certa forma, a Chronos. Mas ao invés de nos comer, a espera permite que o tempo nos coma.

Com o Coronel foi assim. Durante anos e anos e anos ele esperou a correspondência com a resposta do processo, validando sua pensão e garantindo um fim de vida confortável e saudável após uma vida dedicada ao Estado. Mas nunca aconteceu. Toda sexta-feira a lancha dos correios chegava, mas a resposta era sempre a mesma “ninguém escreve ao Coronel”. Nisso a vida passou. O filho cresceu e foi assassinado. Jovem, muito jovem. Deixou um galo de rinha que nunca lutou. A relação com a esposa endureceu. Os amigos se foram. Uns pela morte, outros pela espera. As únicas coisas que permaneceram com o Coronel foram a espera, a esperança e o galo, dócil que só.

GabrielGarciaMarquez

Gabo critica algumas questões da sociedade colombiana da época. A burocracia da máquina estatal, o desleixo com os pensionistas e como o coronelismo (sem a conotação militar) toma conta de todos os interesses que circundam as cidades pequenas. Trazem atraso e controlam os pequenos avanços existentes. Eliminam qualquer foco de resistência. Foi assim com Agustín, filho do Coronel. Morto por um policial. Agora, o médico recebe os relatórios na surdina, misturados com as correspondências de rotina e os jornais da semana. O Coronel lê tudo. Às vezes isso aparenta respeito pela alma do filho e uma centelha de rebeldia, de cansaço por tamanha espera. Mas é só mais um meio de esperar.

O Coronel espera a sua salvação financeira, enquanto passa fome. Não pode, por orgulho, mostrar que chegou a tal situação. Mas certas situações são insustentáveis. Não pela gravidade, mas pela espera. A espera definhou nosso nobre Coronel. E a sua atitude mais nobre no livro inteiro é: esperar. E o tempo vai corroendo todas as qualidade do Coronel. As habilidades vão ruindo e até andar se torna pesaroso quando se passa todo o tempo que existe aguardando algo que, possivelmente, nunca virá. A paciência acabou, a esperança minguou e a vida passou. Esperar é o fim de tudo. Nada mais resta de valor. Ao Coronel, só resta esperar pelo fim. Mas ainda dá para vê-lo por aí, esperando, com o galo dócil.

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