Ernani Ssó – Como o diabo gosta

Por Caio Lima

Resolvi experimentar uma coisa nova e estou escrevendo essa resenha ao som do novo CD do The Outs, Percipere. Não conhece os caras? Joga no Spotify, Deezer ou qualquer outra plataforma. Psicodelia made in RJ da melhor qualidade. E essa onda psicodélica é para escrever um livro tão psicodélico quanto subversivo e, infelizmente, a crise passou aqui em casa e eu não posso comprar ácido. Pode não parecer, mas tudo que escrevo, escrevo no silêncio absoluto, por isso essa resenha tem ares experimentais. Igual a um programa piloto de TV que passa 15h de uma terça-feira, só concorre com o Vídeo Show. Ou seja, se você não tiver audiência, é porque o programa é uma bosta mesmo.

Ernani Ssó é muito conhecido pelo trabalho que faz com livros infantis, mas só conheci a literatura desse cara de sobrenome sofisticado e solitário através do livro ‘Como o Diabo Gosta’. Achei um baita título, foi um dos últimos lançamentos da finada Cosac Naify e falava sobre o período da ditadura militar. Um enredo que promete. Após ter lido os livros do B. Kucinski, lançados também pela Cosac, fiquei tentado a provar todo o acervo dela relacionado ao período da ditadura.

Vou falar a real, é um livro que eu só captei a essência muito tempo depois de lido. Não é um livro fácil. É afogado em devaneios de um cara chamado Camilo. Ora ele não sabe o que fazer porque a Bruna, o grande amor da vida dele, o abandonou. Ora ele tá num churrasco no meio do nada com um primo esquisito que se embebeda e não sabe se comportar. Ora ele tá tentando fugir da casa de umas velhas, tias de uma suposta namorada ninfomaníaca dele, que querem sugar todas as suas opiniões e são meio que monstros(?!), o deixando numa situação mais que claustrofóbica. Entende que é difícil captar qualquer ideia nesse contexto todo? É truncado ler. Ernani escreve muito bem, mas a gente fica igual caixeiro viajante nos saltos cronológicos que a trama dá.

Ernani-Ssó

Mas depois de um tempo, eu comecei a me pegar pensando no livro e qual era a real ideia que o Ernani tinha ao lançar essa odisseia à avessas. E eis que chego à divina conclusão: todo mundo que é fora do padrão, é feliz. A sociedade é corrompida nessa loucura de manter-se firme e forte nos padrões aceitáveis de comportamento segundo a constituição, a igreja e os indicadores de status social, mas ninguém é livre e a sociedade é uma mini fábrica de monstros horrendos, cheios de desejos retraídos e frustrados pela normatividade social. Assassinos em série, políticos demagogos, fanáticos religiosos e essas explosões repentinas e sintomáticas que mostram tudo de ruim que esses padrões dessa sociedade doente nos oferta diariamente. Mas classificam isso como loucura. É mais fácil viver assim.

Camilo vê, a todo momento, a “loucura” do mundo e somos levados a ver com os olhos dele o quão doente somos. Infelizmente nada mudou. Do período da ditadura, onde a voga era o patriotismo e o cidadão de bem, chegamos aos dias de hoje e a sociedade teve avanços mínimos. Um padrão de beleza, de vestir, de pensar e de ser humano cisma por se impor sobre o diferente. Somos uma fábrica de intolerância, raiva e medo. Ao passo que somos extremamente burros. Asnos. Acéfalos. Não conquistamos nossa liberdade, pois estamos preocupados demais em como a sociedade vai nos julgar ou em como a economia vai girar. Se você acredita em Deus, de coração, a culpa nem é sua, mas Deus não te suportaria.

Obrigado, Camilo. Depois de um bom tempo eu consegui te entender, meu camarada. Eu sou rodeado de monstros e, admito, também sou um monstro por muitas vezes. É difícil me livrar de todos esses vícios comportamentais. A literatura tem me ajudado a melhorar constantemente, mas ainda assim é difícil. Difícil admitir que o sistema está aí, cada vez mais forte. Depois não reclamem dos loucos. Arbeit macht frei nicht.

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