Pós-ópio

Por Caio Lima

Eu parei de assistir televisão há um bom tempo. Não que eu fosse assíduo telespectador e, numa onda de esquerdismo momentânea, quisesse mostrar como sou mentalmente evoluído e não sou manipulado pelas bravatas da rede globo. Eu só nunca curti muito mesmo. Mas esses dias dei um pulo em Itaguaí para fazer a vistoria do GNV do carro e na recepção estava passando o programa matinal da record. Eu estava lendo, mas as reportagens me chamaram a atenção. A primeira falando sobre um jovem negro morto por um policial, apenas pelo fato de ter pulado o muro de uma escola para jogar basquete à noite. A segunda sobre um policial morto por bandidos, cujas características se assemelhavam às do jovem morto na primeira notícia. E, por fim, a aquisição de uma lancha pelo Rodrigo Faro no valor de seis milhões de reais.

Para registro: as duas primeiras notícias foram rápidas, 3 minutos e só. Miojo. Voltei a ler e ainda falavam sobre a lancha.

A primeira reação que eu vi foi a de indignação. Num momento de crise, com o brasileiro poupando o que pode com medo de perder o emprego, acaso já não tenha perdido, é deselegante mostrar o quanto um apresentador de televisão pode ostentar com seus rendimentos milionários. A segunda reação que me chamou a atenção, ressaltou a deselegância em descortinar a vida do cara desse jeito. Afinal, ele trabalhou e conquistou o bem e ninguém tem o direito de invadir a sua privacidade dessa maneira. A última reação que merece observação aqui é a de satisfação. É muito esquisita essa história de assumir a titularidade da satisfação de alguém que você não conhece, que depende diretamente da sua atenção (audiência) e que adquiriu um bem que você jamais poderá usufruir, seja a convite dele ou pelo seu próprio esforço.

É sintomático que as três reações não levaram em conta as duas primeiras notícias. Você não liga para o que já lhe é natural. A violência é algo cada vez mais naturalizado. Percebam em como é natural falar que a favela perto da sua faculdade é pior do que a favela da faculdade do amigo. Rola até um comparativo entre as atrocidades cometidas. Um tira onda com o outro enquanto tomam cerveja e falam sobre como é natural correr de tiroteio e se proteger do arrastão dos pivetes ali da praça XI. Não há sensibilidade para com a desgraça de quem está na mesma situação que você. A retórica nunca varia. Vai de “se estava lá, é porque boa coisa não estava fazendo” para “essa história está muito mal contada”, passando por “bandido bom, é bandido morto” e fechando com “lá no meu bairro tem desses aos montes, tem que matar tudo mesmo”.

Mais paradoxal que isso, é a relação que essas pessoas tem com a palavra prosperidade. Sabe essas coisas todas sobre ser alguém na vida? Ser chamado de doutor pelo porteiro, de patrão pela empregada e de chefe pelo funcionário? Há torcida por isso. O sonho de ver um filho importante, circulando pela alta sociedade e cercado de mimos, criados e dinheiro. Atrelada à prosperidade há sempre o usufruto do trabalho de outrem. A reposição do seu sofrimento para chegar ali, pelo sofrimento de outras pessoas. Quantas mais, melhor. Esses sofrimentos o tornam mais próspero. Talvez, um dos seus funcionários seja visionário a ponto de conseguir transformar seu sofrimento em vários sofrimentos alheios e seja um homem de sucesso, tanto quanto você o é. Mas é difícil. É raro achar verdadeiros guerreiros capazes de ascender às camadas mais desejadas pelos brasileiros. Os que conseguem, normalmente, herdam essa capacidade. Não intelectual, mas financeira.

É lógico que isso é entretenimento. Existem Datenas preparados para explorar e naturalizar as dores das pessoas que não tem condições, nas regras atuais (há 500 anos as regras são atuais) do “jumanji da evolução”, de prosperar. O show tem que se vender para poder se pagar. Mas a televisão mostra, sim, o que acontece. Podemos acusar de tendencioso? Podemos, claro. É muito tendencioso. Mas está ali, claro, evidente, descrito e mastigado. Mesmo com as palavras do repórter, dá para assistir e conseguir entender o que aconteceu por conta própria. O estudante foi assassinado a sangue frio por estar no local errado, na hora errada e por ser negro. O policial é mais uma vítima de uma guerra sem precedentes e sem razão. Ambos os lados são sucateados, pisoteados e colocados de lado pelo Estado. Apenas são usados de maneiras diferentes. Isso acontece do lado da casa de muitos. E muitos naquela sala de espera falariam isso naturalmente, acaso eu perguntasse.

Após as três notícias voltei a ler meu livro, mas essa última reação de realização ficou entranhada na minha cabeça. Como ficar feliz com uma lancha de seis milhões que você nunca verá na vida, conquistada à base da sua atenção e servidão intelectual, e não se entristecer com, talvez, dois conhecidos mortos? Que dúvida cruel. Que questionamento terrível. Mexer nesse vespeiro não é legal, mas já cheguei até aqui, então continuo. A dor do questionamento me fez repensar meus hábitos para que eu achasse toda essa cena tão perturbadora assim. Talvez minha relação com a literatura seja capaz de me explicar um pouco esse quadro. Acredito que o maior poder que a literatura tem é o de sensibilizar. Quando lemos um livro com atenção, existe a ação individual e insubstituível de sentir cada personagem, cada passagem e todo o contexto descrito ali. Cada um sente à sua maneira, mas sente. A sensibilidade abre portas a novos sentimentos diversos. Articula novas zonas de interesse. E invadem todas as convicções, quebrando-as. E aí está o ponto crucial da literatura: desfazer convicções.

Desfazer convicções é, de repente, sentir tudo o que lhe é ofertado de uma só vez. E, parando para pensar, é algo difícil controlar. Mas lidar com os sentimentos requer paciência mesmo. É um processo vagaroso e perturbador, que fica ali martelando e tirando suas noites de sono para lhe colocar posições, deveres e direitos no mundo. E, pensando nisso, sucumbi à triste realidade. Aquelas pessoas não eram capazes de se sensibilizar com as duas primeiras notícias, por não saberem sentir pelo semelhante. Não há possibilidade de se justapor a algo que lhe é indiferente. O exercício individual de se sensibilizar, foi substituído por um exercício de sentir direcionado a quem realmente merece.

Felizmente, através dos tempos, vozes se levantam para apoiar os seus semelhantes. São chamados “movimentos sociais” ou “coletivos”. Alguns conseguiram, através dos tempos, vitórias enormes. Outros sucumbiram ante a dura realidade da visão coletivizada de quem merece respeito da sociedade. Mas eles existem. Não são mitos. Nem lendas urbanas. Mas sua força reside na sensibilidade para com o próximo. Na necessidade de dar ao próximo a liberdade de respeitar a si, ao invés de cultivar uma autocomiseração inescrupulosa. Ser livre para ser o que quiser e ser sensível a ponto de enxergar a necessidade do outro de ser também. Direitos, deveres, dívidas, espaço, voz, atitude e sensibilidade. Refletindo sobre essas questões e a urgência de relações mais sensíveis e livres, que o Rede de Intrigas vai correr atrás de levar a literatura para os mais diversos meios, programas e coletivos sociais em busca de ouvir as mais diversas vozes. Vamos ver o que sai dessa mistura e o que podemos fazer para mudar um pouco o clima do baile. Tá tudo muito frio. Mas relaxem e podem ficar tranquilos, o Rede de Intrigas é o fervo.

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