William S. Borroughs – Junky

Por Caio Lima

William S. Borroughs era extremamente reacionário, amante de armas e um dos criadores da geração beat. Já começo assim para mostrar que o movimento que desencadeou Woodstock e foi berço de caras como Jack Kerouac e Allen Ginsberg era uma loucura mesmo! Como todos os outros ali, Burroughs foi um ferrenho usuário de drogas, principalmente da nossa grande amiguinha libertadora de mentes e destruidora de lares, heroína. E é aí que a gente começa a desenrolar o nosso livro de hoje, amigos. O famosíssimo “Junky”, primeiro livro do mestre Burroughs e, talvez, sua maior obra. Pra frente teremos um longo debate que envolve uma série de coisas.

A primeira polêmica, mas não a principal, começa quando Borroughs diz ser uma obra autobiográfica, o que alguns desmentem e o Nelson Rubens da época devia se deliciar (Ok! Ok!). Isso não influencia em nada essa resenha aqui, mas é bom saber que até o povo paz e amor da geração beat gostava de um confete bacana, de dar uma aprimorada no currículo (igual os candidatos à prefeitura do RJ fazem, dizendo que tem mestrado na UFF, graduação na França. Deus tá vendo, pastor).

O livro é muito mais simbólico que qualquer fato possivelmente inverídico dado como autobiográfico. Numa sociedade reacionária e inflamada por uma política antidrogas que incitava cada vez mais a violência e a demonização de certos nichos da população, Burroughs narra sua história por becos sujos e barracos lúgubres em busca das experiências que ele pôde obter através de drogas cada vez mais pesadas. Essas experiências o levam aos mais diferentes resultados dentro da sua própria criação, o que proporcionou Junky e Almoço Nu, até as próprias descobertas sobre sua sexualidade, já que numa parte da sua vida ele começa a ter relações homossexuais, mesmo sendo casado e amando perdidamente sua esposa.

Uma das coisas que eu aconselho ao se pegar um livro para ler é contextualizar a história. Bons prefácios e textos de apoio ajudam muito nisso e vão fazer com que você se sinta mais envolvido no livro e consiga extrair o máximo que puder dele. Por que eu estou dando essa dica? Porque hoje, apesar de vivermos numa sociedade bastante reacionária, é muito mais comum vermos contadas através de diferentes plataformas romances gays. Também, hoje, os movimentos que pedem a legalização das drogas, principalmente da maconha, são muito acessíveis. Talvez Junky, hoje, valha muito mais como registro literário, já que ele possui algumas particularidades narrativas que nasceram com a geração beat, do que como uma maneira de protestar sobre as políticas aplicadas nas questões das drugs e da sexualidade. Para quem leu Trainspotting, Junky não chega nem perto da contundência e da realidade dos nossos dias, por exemplo. Mas para a época, isso era devastador, a mesma coisa que Marcha da Maconha e “Kit Gay” nas escolas hoje em dia, por exemplo. Né, bolsominion?

william-burroughs-in-paris.ca-1962.papers

Vamos definir um ponto aqui: consumimos muitas coisas que nos colocam numa posição de dependência e que são legalizadas, correto? Mas temos plena consciência de que remédios devem ser utilizados somente sob receita médica, que se formos sair para beber, não precisamos beber até desidratar e tomar aquela glicose básica (lembrando que a bebida alcóolica foi proibida durante muito tempo nos EUA, sendo o principal foco do tráfico na época de Al Capone) e que temos que maneirar nos doces para não criar cáries, crianças (imagina se descobrem que açúcar também vicia). Então é de comum acordo que todos nós nos drogamos de alguma forma e que isso não afeta, e por vezes até melhora, nosso rendimento dentro de nossas atividades cotidianas.

Durante todo o livro Burroughs busca uma coisa só, mas é aquela coisa quase impossível. Ele é dependente químico, isso é fato. Ele admite a vontade de continuar a se drogar, não só pelas experiências, mas pelo gosto. Ele acha bom, verdadeiramente bom, o que ele sente quando se droga. Mas ele busca o controle sobre sua necessidade de droga. Ele quer usar e acha que pode manter um meio termo entre a sua satisfação com a heroína, com todas as experiências atreladas à isso, e manter uma vida comum. Isso seria pedir demais?

Dentro do que foi o movimento beat, a liberdade do indivíduo para com o próprio corpo e a liberdade de pensamento é o que rege cada aspecto de suas reinvindicações. Dentro disso encaixamos o livre uso de todo o tipo de drogas e o culto ao amor livre, sem distinção de gênero. Se isso é certo ou errado, é algo muito particular e tende a esbarrar em diversos pontos de vista. Criminalizar o amor e o uso de quaisquer substâncias a qualquer indivíduo é uma fórmula, historicamente comprovada, que não funciona. Ao passo que adotar um único conceito de liberdade é acabar em outra prisão.

Burroughs colocou o dedo na ferida e, além disso, assumiu publicamente sua relação com as drogas e o homossexualismo. Isso não deveria dizer respeito a mais ninguém senão a ele mesmo, mas ele abriu uma linha de pensamento que os EUA não ousavam nem passar perto de pensar. Loucura ou coragem, isso é tão difícil definir quanto o certo e errado. Mas há de se admitir que o senhor Borroughs, o mais velho dos beats, era um poço de contradições e, dentro delas, conseguiu colocar algumas pulgas atrás das orelhas de toda uma geração.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: