Patti Smith – Só garotos

Por Caio Lima

Desde sempre eu ouço falar que biografia não é gênero literário ou que não merece ser reconhecido como tal e, talvez, seja por isso que eu nunca tenha lido muitas biografias, apesar de ter muito carinho pelas poucas que li. Também tem o lance da iconoclastia, o que me separa bastante de textos que coloquem homens como deuses, o que acontece muito em biografias. Mas esse ano eu dei uma sorte danada com biografias. Primeiro foi a do Maomé, criador de todo mal existente no mundo segundo os mórmons de Utah e o Donald Trump, escrita de forma sublime pela Karen Armstrong. Sério, vocês precisam ler tudo o que essa mulher já escreveu na vida. Depois foi ‘Inferno’, do esquizofrênico August Strindberg, simplesmente fantástica. E, por último, ‘Só Garotos’, da Patti Smith, e o que dizer dela? Só fazendo outro parágrafo para começar a contar.

Em tempos onde tudo precisa ser grandioso e cheio de glamour, tem que ter muita coragem para escrever a própria história de forma tão simples. Do mesmo jeito que escreve suas músicas, ela embala a simplicidade das suas palavras num ritmo gostoso e você vai lendo, até perceber que já não consegue parar de ler. Vira um caso de leitura compulsiva. Isso não pode ser explicado com alguma receita ou fórmula, isso é talento. Toda genialidade artística de Patti Smith, para mim, reside no que ela é capaz de fazer com simplicidade, fazendo dessa relação de troca entre artista e espectador algo intenso e extremamente verdadeiro.

Essa parte da história da Patti em ‘Só Garotos’ é tão carregada de fatos tão incomuns que eu não vou ficar aqui dando pala da história. Mas acho que a primeira dessas “coisas incomuns” consiste em como a Patti combate o conceito de planejar o futuro, de plena consciência do que fazer e de como fazer numa sociedade que você precisa, mais do que nunca, preparar a vida desde cedo. Sem as aspirações de qualquer jovem na sua idade, ela busca algo pelo qual nem ela sabe muito bem. Suas aspirações se confundem com as de seu amado, Robert Mapplethorpe, sim, o fotógrafo psicodélico, e com tudo o que acontece ao seu redor. Esse desprendimento incomum com o futuro e seu apego ao momento presente, a felicidade a cada pequena vitória, nem que fosse o deslumbre de alugar um quarto um pouco maior num hotel ou parar de usar o banheiro coletivo, isso é contracultura na essência. Essa atmosfera me soa como Engenheiros do Hawaii, saca? “Mas não precisamos saber para onde vamos, nós só precisamos ir, não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver, sem motivos, nem objetivos, estamos vivos e isto é tudo”.

Patti Smith Crawling on Stage

Mesmo sendo criada numa atmosfera conservadora, Patti mostra desde muito cedo um engajamento natural com seu íntimo. Você pode tomar nota disso tanto pela decisão de sair do interior de Nova Jérsei para ganhar a vida sozinha em Nova York ou ter deixado o filho para adoção para poder seguir sua viagem e seu período de desbravamento pessoal. São os primeiros traços de uma mulher de personalidade forte e que desafia, quase instintivamente, os padrões de gênero da época. A história da ativista feminista Patti Smith é longa e lendária, mas acompanhar a construção desses conceitos e em como, ainda tão jovem, ela tem que suportar as próprias escolhas que faz através da sua escrita honesta e concisa é uma experiência completamente nova e encantadora. Sua emancipação dos padrões comuns de gênero logo cedo e a liberdade total, que é a tônica de seu relacionamento com Robert, começam a construir um ícone e a desconstruir um ideal de vida e de comportamento da forma mais prática possível. E a pureza dessa (des)construção é algo lindo de se ler.

Com Robert Mapplethorpe, Patti abriu novas portas de várias maneiras, principalmente da infinidade de lugares em que foram morar. hehehe. Mas Robert é a tônica desse livro, que é uma promessa de Patti a ele, e também é um divisor de águas na vida da nossa moça punk. Da forma como se conheceram e se reconheceram um no outro até Robert revelar sua homossexualidade, tudo foi muito intenso, cheio de reviravoltas e a cada porrada que os dois tomavam, Patti buscava forças exatamente nessa liberdade que aprendeu a sentir com o amor de Robert. Isso envolve muito às suas ambições se fundirem ao sucesso de Robert como gênio da arte que ela acreditava que ele era, talvez até mais do que ele. Das passagens mais bonitas do livro, boa parte acontece quando ela conta como puxava a responsabilidade de trabalhar para deixa-lo livre para a arte, única e exclusivamente. Se doar assim em prol do sucesso do outro quando você nem mesmo sabe aonde vai chegar. O nível de doação, de crédito e de nobreza que isso tem. De outro mundo, cara.

A convivência dos dois não foi nada fácil, mas o que fica dessa relação é em como o amor é livre e nos deixa livres, não para escolher a forma que amamos a pessoa, mas para que sejamos capazes de aperfeiçoar o amor e cultiva-lo a cada fase de nossas vidas, sem restrições. Provar do amor, sem estereótipos, é algo que se mostra tão sublime que não há espaço pra culpa, mágoa ou distância. Porque o amor que liberta não se deixa limitar por alguma condição imposta pela montanha russa que é a vida. E ao mostrar isso, Patti faz com que olhemos para Robert sem julga-lo, apesar de toda sua inconstância, surtos repentinos e irresponsabilidade. Robert deu tudo o que poderia ter dado à Patti. Nem mais, nem menos. Tudo. Mas as pessoas são diferentes e se entregam de forma diferente a diferentes coisas. Robert tinha como seu verdadeiro amor a sua arte e o desconhecido e, desde sua relação com as drogas até sua fama, foi isso o que ele procurou a todo momento, com um afinco quase religioso.

E como não falar da relação da Patti com os livros? Isso é traduzido na escrita concisa e bem encaixada das suas composições e dos seus livros (não me aguentei e já li ‘Linha M’ também hahaha). E é uma parte importante da história, tanto que ela trabalhou durante um bom tempo em bibliotecas e livrarias. A relação entre a literatura e seu modo de pensar, sempre transgressor, é muito íntima e complexa, percebe-se muito disso nas referências de livros ao longo da narrativa e em como eles participam daquele momento. Isso a faz viver num éter criativo, da mesma forma que consegue traduzir isso tudo para arte de uma forma que essa arte faça a comunicação simples para todos que tem o prazer de ouvi-la e, agora, lê-la.

A Nova York daqueles tempos é um mar de referências artísticas desenvolvidas ao livre sabor do vento que traz a criatividade, ideia que começou no movimento literário beatnick, ou geração beat. E Patti tenta amalgamar tudo para que não pareça confuso a presença de tantos artistas célebres agindo naquele mesmo ambiente deles, enquanto ela e Robert estavam naquela perseguição e luta para expor suas obras e conseguir um relativo espaço e, consequentemente, viver da arte. De Ginsberg a Andy Warhol, vai uma baita galera aí que movimentou a cena do underground artístico americano.

É muito justo citar algumas reflexões que vão além dos movimentos artísticos e, mesmo não desvencilhando da imagem do Robert o tempo inteiro, são apresentados durante o livro. Era uma época de transformações e reinvindicações sociais muito fortes, onde o movimento negro chegou ao ápice, da mesma forma o movimento pelos direitos civis, culminando no festival de Woodstock, em 1969. E, logo após, movimentos artísticos muito fortes e representativos tomaram forma, como o movimento punk, o qual Patti Smith é uma das maiores referências. É muito bonito como ela alude tudo isso numa narrativa que funciona como se ela estivesse vivendo tudo aquilo naquele exato momento. Na memória dela, além de recriar o ambiente e o contexto histórico, rola a memória sensorial. É, como todo o livro, sublime.

Se eu fosse Robert Mapplethorpe, estaria em débito com a Patti Smith, mesmo morto. Porque essa foi uma das maiores declarações de amor que eu já vi, com roupagem de livro e justificativa de homenagem. Patti Smith tem uma história linda, bem como Robert teve. E o que fica dessa história é uma lição grandiosa do quão se confundem o sentido de amor, liberdade, desafio e arte. Através do tempo, das ambições e da distância, vamos moldando e nos adaptando às condições. Mas o amor, com seus três sinônimos, seguem conosco. Se reinventando quando preciso, nos fazendo voltar quando damos um passo em falso. Mas só é capaz de seguir em frente, quem aproveita do amor e seus sinônimos em sua totalidade. De corpo e alma. Mergulhando fundo. Como Patti e Robert. Ou crianças.

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