Picotando o estoque

Por Caio Lima

Desconsiderar a existência de uma crescente demanda de mercado específica e as revoluções instantâneas da indústria do entretenimento, é pedir demais para qualquer editora que se preze. Mas essas correntes, tratadas nos primeiros artigos, abriram os olhos dos amantes da literatura para um ponto bastante importante: ter o livro. Tratar o livro como algo muito físico e pouco literário. É um sem-fim de discussões em redes sociais e canais voltados à literatura. As críticas são pesadas e pessoais. Há uma criação de estereótipo contínua, uma rotulação absurda e uma falta de empatia que beira a irracionalidade. Os mesmos capazes de vomitar atrocidades à baixa literatura, são os mesmos que são instantaneamente sensibilizados por certas obras ou editoras, sem nem ao menos se questionar o real interesse na leitura. O objeto também toma a frente na preferência desse nicho de consumidores em detrimento a todo o trabalho editorial, o significado artístico da obra e, o principal, na representatividade que determinada obra teve sobre o indivíduo.

Não! Eu não estou aqui defendendo que leiam (ou consumam) livros de youtubers, séries escrotas e toda essa praga insossa e sem razão de ser que infesta o mercado editorial hoje em dia. Mas me atrevo a colocar no mesmo saco as pessoas que consomem obras da alta literatura pelo luxo da edição ou pelo status intrínseco e relevância que determinadas obras são capazes de gerar em alguns meios sociais. Isso aconteceu muito com a finada Cosac Naify, por exemplo. Altas edições com o máximo do luxo e a galera se matando para comprar. Cosac Day era mais celebrado que o próprio aniversário. Eu também me amarrava, galera. Sei qual é. Não precisa dizer que não. Naturalmente, com o crescimento do padrão Cosac de qualidade atraindo o público que ama livros, começaram a aparecer muito mais resenhas das obras lançadas pela finada. Que deus a tenha. E, para o meu espanto e decepção, os comentários sobre essas obras são mais rasos que os dos próprios livros modinha.

Gostar ou não de um livro é algo extremamente pessoal. Seria desonesto da minha parte discutir o íntimo de alguém. Mas, com o Rede de Intrigas, eu aprendi que o trabalho da escolha do livro, o exercício de reflexão que me acomete durante toda a leitura e a absorção e exposição de todas as minhas impressões de leitura, vão muito além do objeto livro. Envolve responsabilidade com quem lê. Também envolve responsabilidade para com a obra. É uma troca constante. Então não há justificativa para que eu não seja honesto ao falar sobre o que li.

Edições exclusivas e luxuosas são uma maravilha. Capa dura, folha de guarda, borda colorida, projeto gráfico caprichado e aquele jeitinho de “poucos leram”. É um espetáculo. Mas não adianta isso tudo, se não há absorção, entendimento e atenção com a leitura. Isso é uma baita desonestidade intelectual. Não há vergonha em ler e não gostar ou ler e não entender o contexto do autor. Na real, é muito bom! Força a pesquisa, a busca e a discussão. Quão melhor embasado se é para justificar o seu gosto, mais crítico você se torna. Eu mesmo, gosto muito mais de ‘Trabalhadores do mar’ que de ‘Os miseráveis’, do Victor Hugo, por exemplo. Tenho sérias restrições quanto a ‘Macunaíma’, mas pesquisei e reconheço toda a importância da obra e o quilate do Mário de Andrade. Inclusive, quero ler outras obras dele. É a vida. Durmam com essa.

Precificar arte é algo muito subjetivo. Precificar a arte criada para uma outra expressão de arte é pior ainda. Mas preços são padrões de valor. Da mesma forma que você pode colocar um checklist para determinar o que é um “homem de bem”, eu posso dar preço a algo baseado num conjunto de características. Isso cria nichos de mercado. E só existe mercado, se há quem consuma. Então, o que realmente faz com que você compre o ‘Pais e filhos’ da Cosac quando pode acha-lo em sebos a cinco reais? O primor da tradução e os textos de apoio? Estar fazendo a coleção ‘Prosa do mundo’? Ser mais um livro Cosac para a sua estante? Amou a capa?

Meus questionamentos são tão subjetivos quanto o valor de mercado dado a um livro luxuoso desses, mas como não questionar isso quando nessa semana a Cosac anunciou que iria picotar os livros encalhados lá? Claro que isso foi uma grande jogada para conseguirem um patrocinador e não ter que gastar patavinas com isso. Aliás, a Cosac é uma editora muito pouco transparente para com seu público. Desde seu encerramento, com justificativas muito vagas e estranhas, há uma grande nuvem que paira sobre a editora. O comportamento da Cosac foi, mais uma vez, obscuro. Porém o grande público assumiu o golpe que levou (mais um). O comportamento da editora foi uma ação do mercado que ela ajudou a moldar, simplesmente. O trato dispensado ao resto do estoque é o mesmo trato dado aos milhares de livros da editora empilhados nas estantes como objetos decorativos, e não como livros. Uma geração inteira que molda a literatura pelo poder aquisitivo e o tempo de leitura pelo valor de mercado. Uma geração inteira que não foi capaz de compreender que a arte da capa tem um significado muito maior do que ser, apenas, bonita. Uma geração inteira que valoriza as páginas amarelas e não sabe reconhecer o valor de uma boa tradução.

O nicho está consolidado, definitivamente. Edições grandiosas estão por todas as editoras e em qualquer livraria. Eu mesmo tenho várias. E novas editoras entram no mercado explorando, e muito bem, essa nova maneira de ler, sentir e consumir literatura por aqui. Ressalto a Carambaia, parceira do Rede de Intrigas, e a recém criada Ubu, fundada por três ex-funcionárias da Cosac. E que bom que tratem o livro com esse carinho. Que bom que cada livro seja tão cheio de referências quanto é possível. Que excelente os novos títulos que estão pipocando, com traduções inéditas e referências incríveis. É realmente um mercado especial e lucrativo. Tanto para quem ama literatura, quanto para quem ama livros.

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