Vladímir Sorókin – Um mês em Dachau

Por Caio Lima

É bem provável que eu tenha sido muito injusto e tenha esquecido de bastante gente boa durante esse mês sobre a literatura russa. Tolstói, Leskov, Tchekhov e Górki são alguns dos caras que eu releguei. Em compensação, elegi a grandiosa Anna Akhmátova, Tynianov, Soljenítsin e Korolenko. Todos sintetizam muito bem a originalidade e a resistência que eu tanto prego aqui no Rede de Intrigas. E depois de passar esse mês todo fazendo essa pesquisa intensa, esse balanço entre prosa e poesia e essa salada entre conto, novela e romance, falta um único aspecto do meu roteiro áspero e confuso: renovação.

Não faço ideia se há algo que comprove o que eu vou falar aqui, mas, aparentemente, existe um período negro após toda uma era artística indefectível. Foi assim com a literatura russa também. O regime soviético, alicerçado em diversas razões, mas principalmente pela guerra tecnológica contra os EUA, parou de produzir qualquer arte em prol do avanço científico. Armas nucleares, corrida espacial, espionagem total e todo aquele clima de guerra fria is the new black fizeram a URSS esquecer de vez da arte, de modo geral, para investir em áreas que realmente produziriam algo concreto para o homem soviético.

Se isso é errado ou não, não preciso nem discutir. É só pegar o resultado de nações munidas de alta tecnologia e pouco acesso à diversidade cultural (ou muito acesso à cultura plastificada) que obtemos a resposta. Mas é um pouco difícil pegar mais de um século de movimento literário intenso-e-brilhante-e-chavoso e, de repente, ver tudo minguar. Triste, né? Mas a arte é um processo cíclico e revolucionário por si só, capaz de revelar caras como Vladímir Sorókin. Para falar em literatura russa contemporânea, temos que falar desse cara. E não, não é nada fácil carregar essa responsabilidade praticamente sozinho, mas ele está aí abrindo portas.

vladimir sorokin

‘Um mês em Dachau’ é um dos contos mais psicodélicos que já li e um dos maiores socos na cara que tomei. O campo de concentração de Dachau já seria impactante o suficiente para tornar qualquer escrito um soco na cara, é óbvio. Segunda Guerra é sempre um tema delicado e triste de passear. Campos de concentração, nem se fala. Mas Sorókin foi um pouco além, reacendendo uma discussão muito em voga nos dias atuais, explorando a questão da gravidade histórica e do legado.

Contrapor o seu processo quase despretensioso de desejar visitar Dachau com a revolução fundamental do seu pensamento, constipado e confuso, a cada nova câmara que visitava, abre um precedente incrível para uma discussão quase banal, mas muito profunda: “o quanto você é capaz de estar inserido na história e de se sensibilizar com isso?”. É nessa massa de pensamentos que Sorókin exibe, com toda psicodelia que envolve a justaposição entre épocas, o quanto carregamos, por herança emocional, o legado da nossa própria maldade. É terrível, doloroso e confuso. Sorókin faz dos seus pensamentos uma massa de palavras jogadas e, muitas vezes, sem muito sentido. São vinte e poucas páginas de literatura à base de opiáceos selvagens que revelam uma alma perturbada e profundamente abalada por um legado tão frio e cruel.

A capacidade de se aprofundar na própria confusão e dor remete a uma velha classe de caras como Dostoiévski, Tolstói e Korolenko. É uma espécie de retomada de direção. Uma modernização da literatura que, arte que é, nunca cessa. Esse novo encaminhamento da literatura russa faz reacender a discussão do que é legado, do que é relevância histórica e a primazia da literatura ante o povo russo. Percebem o quanto passado e presente dialogam na busca de contextualizar o legado e a renovação? Sorókin foi lá e fez. A literatura russa está viva e, mais do que nunca, renovada!

Renovar é resistir. É isso! Nada mais que isso! Finalizando o mês russo no Rede de Intrigas, fica um apelo a uma reflexão profunda sobre todo o legado que nos cerca e o que fazemos com ele. Lutamos por sistemas falidos, numa concepção de mundo falida e por um legado reprovável. Até quando? A arte se renova, a natureza se renova, a ciência se renova. Ambas florescem sob novas formas, mas respeitam o legado que as trouxeram até aqui. É um pecado que não saibamos nos renovar, perpetuando um legado fixado há meio milênio. Sorókin foi para Dachau mostrar que para respeitar um legado, ele não precisou repeti-lo. Num futuro, acompanharemos o tamanho do seu legado.

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