Alexandre Soljenítsin – Um dia na vida de Ivan Deníssovitch

Por Caio Lima

Kolyma, terça-feira, 27 de Setembro de 1949

São cinco da manhã e a alvorada toca. Aqui todo dia é assim. Nem os guardas gostam de sair para tocar a alvorada. Através das paredes finas, o vento anuncia que hoje é mais um dia frio. No termômetro está marcado 30 graus negativos. Dizem que se a temperatura chegar a menos 45 graus, nos darão folga. No começo eu até acreditava, mas essa terra aqui parece estar mancomunada com o nosso sofrimento. Mesmo nos dias mais frios, nunca chegamos aos 45 graus negativos. Às vezes dá para ouvir um guarda ou outro reclamando enquanto nos vigiam no trabalho e posso garantir que eles não estão mais felizes que eu. Ninguém é feliz aqui. Nem nós, presos. Nem os guardas. Nem o alto comando.

O problema de acordar num lugar desses, é que percebemos que não é só lá fora que é frio. Me sinto cada vez menos humano. Apesar de ter perdido muito peso, me sinto cada vez mais pesado. É um exercício enorme levantar todo dia nesse lugar sem surtar. Não condeno os que não aguentaram isso aqui. Nem a comida é quente mais. Na verdade, nunca foi. E depois da última tentativa de fuga, pararam de entregar nosso pão gelado em fatias. Agora o pão é picado e dividido em porções. O desjejum, o almoço e o jantar são assim. Não esquentam, não enchem e não alimentam. Só trazem o ambiente gélido para dentro de mim e assim me mantenho frio, igual a tudo aqui.

Diferente de todo dia, eu não fui para a fábrica. Hoje eu fui atender ao grande comitê dos que mandam aqui. Ou pensam que mandam, porque só o frio manda nesse lugar. Quando me chamaram, pensei que seria mais um preso aleatório a ir para as masmorras para ser torturado. Talvez por não andar tão asseado quanto deveria, talvez por acharem que olhei torto para o guarda. Se os guardas realmente soubessem o que penso deles, me matariam pela humilhação. Pobres seguidores do regime. Alguns até sabem o lugar em que se meteram. Para esses é até pior, porque não tem jeito de sair mais.

soljentitsin

Hoje me mandaram limpar o salão. Pés descalços, para não molhar a bota. Não que ela proteja meus pés do frio. Na verdade, ela traz uma espécie de alívio moral. Em situações assim, nós usamos e fazemos coisas para simplesmente nos mantermos apegados ao que resta de humano em nós mesmos. É um jogo mental dizer “eu faço porque quero, não porque necessito”. Como se eu tivesse alguma escolha. E tenho. Ou faço e mantenho minha esperança de um dia sair desse inferno branco, ou morro de inanição, pelo frio, e nem à minha família contariam. A água correndo pelo chão só fazia aumentar a sensação de frio. Eu falei que sobrevivo assim, mas nessas horas eu só desejo não estar aqui.

Aqui é tudo frio e úmido. A tosse é uma maneira de lembrar que mesmo estando no meio de muitos, lutamos sozinhos. Com o que não posso lutar, sou subserviente. Meu corpo parece anestesiado, mas é resistente. Sofro surtos de febre. Calafrios nem contam. Mergulhado naquele chão do refeitório dos oficiais, a febre e os calafrios voltaram. Não é a primeira vez. Sei que não vai ser a última. Mas o médico daqui só dá atestado aos moribundos. A maioria dos que saem, não voltam. Os que voltam, duram pouco. Aqui o trabalho é a cura para todos os males, até pelos quais foram produzidos pelo próprio trabalho. Então eu trabalho e fico melhor. Ao passo que isso aqui fica mais frio e eu fico mais frio junto.

Agora é hora de dormir. Os dias aqui são feitos para que você perca as esperanças. O regime não admite oposição. Até onde não existe oposição. O estado me tomou quase tudo o que tenho. A hora de dormir é a única coisa que eu não permito que me retirem. No meu sono eu tenho sonhos de liberdade. E é nesse último fio de esperança que me atenho, em ser de novo livre.

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