Literatura e o indivíduo

Por Caio Lima

Nessa programação de resenhas e artigos sobre a literatura russa durante todo o mês de setembro, chegamos ao último artigo. Depois de ter passado por tantos assuntos para tentar explicar minimamente no que a literatura russa pode nos ajudar a compreender em tempos nefastos (como o que estamos vivendo), finalizo falando da parte mais importante de qualquer resistência, o indivíduo. É muito contestável o argumento de que não se faz uma revolução sozinho. Tão contestável quanto argumentar que golpes de estado só se dão quando há militares na rua. Além de contestável, é um tipo de fala ingênua. E, sendo possível promover uma revolução solitária, é perfeitamente cabível que exista, tão efetiva quanto, uma resistência solitária. Sendo brasileiro, sabemos muito bem como funciona o esquema do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esses são tempos de “farinha pouca, meu pirão primeiro”, aliás. Por mais que haja um cunho egoísta nessa frase, há um sentido primário que mostra luta, pobreza (de espírito também, mas quem liga?) e resistência quando o assunto é sobreviver em meio ao caos da vida moderna.

Na literatura russa, essa análise do comportamento individual na sociedade, de uma maneira geral, cai muito sobre os ombros do mestre Dostoiévski. Dostô para os íntimos, obrigado. De nada. Dostô, muito provavelmente, foi o escritor russo que mergulhou mais fundo no que é ser humano. E extraiu lá um material bem denso e consistente. A extensa obra com, basicamente, todos os títulos explorando essa interiorização do indivíduo o credenciam a esse papel de embaixador do indivíduo, mister depressão e senhor “olho para mim e sinto um vazio enorme”. Mas não é bem assim que a banda toca. A literatura russa, em toda a sua movimentação desde Púchkin, nunca tomaria essa proporção se não soubesse conversar com cada indivíduo russo e, assim, fomentar gerações marcadas pelas revoluções promovidas e pela resistência altiva.

Ao olharmos para cada escritor russo, com suas convicções e obras em separado, montamos perfis muito distintos. Mas quando falamos aqui em literatura russa, não falamos de um ou dois autores em separado. É o legado maravilhoso que nos foi deixado pelas diferentes vertentes do pensamento russo. A literatura russa atua de forma tão contraditória dentro dela mesma, que se assemelha a um indivíduo tão profundo, lúgubre e complexo quanto os descritos por Dostô. E essa é a mágica da resistência através da literatura, a materialização da arte como indivíduo. Isso não quer dizer que ela seja pura e simplesmente política. A literatura descortina uma visão de indivíduo que o russo comum não tinha conhecimento. A síntese perfeita entre a liberdade de criação, a assimilação da informação e a proliferação disso como produto inicial de discussões profundas que modificaram a forma de enxergar o russo comum pelos seus semelhantes.

Falar com o indivíduo através da literatura não é tarefa das mais fáceis. Mais difícil ainda é a árdua tarefa de apresentar a esse ser uno e solidificado, que metamorfoses o farão enxergar em si mesmo a resposta para os seus problemas e, de quebra, que seu problema é o mesmo do vizinho e de 90% da Rússia. Do indivíduo à unidade de um movimento social ou revolucionário, por exemplo, é um longo caminho. Há um amadurecimento natural, um reconhecimento instantâneo e, o principal, a redescoberta do limite entre o ser coletivo e o ser individual. Transferir para a literatura a responsabilidade moral dessa metamorfose russa durante o século XIX e seu legado é algo muito pesado, porém muito justo.

Nesse redemoinho de acontecimentos, a literatura tem o papel fundamental de explorar a profundeza do senso crítico num indivíduo subestimado, explorado e inutilizado socialmente, para ascende-lo à esfera da resistência por meio da sua afirmação como indivíduo capaz de guiar o próprio destino, de reconhecer a urgência do que reivindica e, principalmente, que consegue se colocar no lugar do próximo e entender que a estrutura formadora da Rússia czarista torna-se, efetivamente, cada vez mais nociva ao indivíduo que se reconhece e reconhece a plenitude da sua liberdade. Essa transformação é fantástica e é a razão do mês russo aqui no Rede de Intrigas.

A literatura russa é tão abrangente que esses quatro artigos e esse monte de resenhas não são suficientes. Mas espero, de coração, que os artigos, principalmente, tenham conseguido passar a mensagem primordial do que a literatura pode representar num período onde todos os explorados são incapazes de se reconhecerem como iguais. Mostrar-se livre de conceitos fechados e cíclicos, além de evitar disparates, permite que você possa aplicar a maior resistência que existe no mundo: a tua liberdade de pensamento. Mudar de ideia, arrumar novos ares e discordar de antigas posições, é algo perfeitamente natural e libertador. Esquecer do social, polarizar o mundo em duas frentes e esquecer do indivíduo, é desumanizar-se em prol de quem te explora. Literatura russa, resistência e liberdade se misturam, se confundem e nos confundem. Mas vendo pelo lado dos russos, estar confuso é o primeiro passo para a resistência. Então aqui seguimos, livres.

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