Fiódor Dostoiévski – O idiota

Por Caio Lima

Como vocês fazem para ler todos os livros que ganham? Sério. Eu tenho um certo desconforto em ganhar o livro e deixa-lo na estante mofando. Talvez seja porque eu sempre ache que o livro possui uma mensagem que a pessoa quis me passar além da boa literatura. E eu penso assim, porque todos os livros que dou tem um motivo por trás. Então se alguém que já ganhou livro meu estiver lendo, saiba que o livro foi pensado justamente para você sob algum aspecto muito específico. Livros tem esse poder de abordar pontos muito específicos de uma forma que as pessoas permaneçam na leitura e, quando percebem, saem completamente mudadas. Acho essa questão do auto reconhecimento com a obra uma coisa fantástica. E, não, não falo do fato de achar que “nossa, isso é tão eu”. É um muito mais profundo dentro da própria consciência.

Foi essa a minha experiência com ‘O idiota’ do nosso queridíssimo mestre dos males da alma, Fiódor Dostoiévski. E pode-se falar que o romance gira em torno de um triângulo amoroso entre o bobo Príncipe Míchkin, a inconstante Nastácia Filippóvna e o truculento Rogójin, que não seria errado contar a partir desse ponto de vista. Pode-se contar o livro a partir da ótica da construção da personagem do Príncipe Míchkin, quando falamos da inspiração em desatino do nosso parça Dostô ao misturar numa personagem características de Don Quixote de la Mancha e Jesus Cristo. Seria bastante correto também, já que é um personagem tão bem trabalhado que dá um nó no leitor. Nó daqueles que até dói a cabeça durante a leitura.

Eu sempre digo que o exercício da leitura é um exercício de justaposição. Hoje eu gostaria de analisar ‘O idiota’ tentando trazer a realidade de Dostoiévski para perto da gente. Sei que isso soa ambicioso, mas é uma tentativa. Se eu quebrar a cara aqui, não me arrisco mais. Prometo!

Dostoiévski era um cara bem esquisito, cheio de manias, epiléptico e revoltado da vida com um monte de coisas. Mas em todos os artigos, matérias, reportagens e trechos biográficos que vi, ele não era tido como uma má pessoa. Apenas um cara solitário que, com o passar do tempo, ficou cada vez mais preso às suas convicções. Principalmente às de cunho religioso. Veja bem, isso não o separava de seu desejo de mudança naqueles idos pré-revolucionários. Ele era, simplesmente, a principal força para contrapor as ideias progressistas da época, afloradas pela busca de uma ordem econômica e social mais justas, mas que coibiam organizações básicas de ordenamento social, como a nossa querida, sagrada e santa igreja.

E lendo ‘O idiota’ eu me peguei pensando em como o Príncipe Míchkin funciona como uma alegoria perfeita do próprio Dostoiévski em seu ambiente social. Um jovem religioso, de 25 anos mas conservador, com um título de nobreza ou status social e uma suposta herança, com crises severas de epilepsia que lhe são “revelações” e, como ponto principal, a incapacidade de desfrutar de maus modos. Percebam que as alusões a Don Quixote e Jesus Cristo se tornam bastante secundárias agora, já que situamos nossa personagem com base no seu criador. Míchkin funciona dessa forma, porque Dostoiévski parece, a todo momento, falar de si mesmo dessa maneira.

o idiota 2

O que separa Míchkin de ser um bobo completo, apesar de passar por otário durante o livro todo, é a capacidade de analisar as atitudes à sua volta e não replicar ou descontar, de forma alguma, todos os maus costumes que ele observa ou que são direcionados a ele. Costumes esses impregnados às mais diversas camadas sociais possíveis, já que há, na obra, uma infinidade de personagens bem específicos, pintando um quadro sobre a sociedade russa do século XIX. Isso é um ponto de vista muito específico e sempre atribuído ao autor, que sempre foi acusado de ser opositor a tudo, inclusive da oposição. Abrindo esse leque de opções, podemos contar com um Dostoiévski mais solitário do que nunca, ora por sua doença, ora pela incapacidade das pessoas o entenderem e deixarem de trata-lo como um completo maluco ou idiota incapaz de enxergar o mundo como ele é, mesmo ele se esforçando, até o limite do amor humano, para perdoar todo o mal que lhe fizeram. Não, não vou entregar spoiler.

Passemos de Dostoiévski para nós. Interiorizemos. Quantas vezes não nos isolamos dentro da nossa própria incapacidade de cativar e semear a ternura e a nossa bondade? Quantas vezes o mundo nos isola por justamente demonstrarmos isso? Impossível contar, acontece todo dia. Mas que esse manifesto puramente confessional de Dostoiévski em todas as esferas, mas principalmente na esfera pessoal, sirva para nós como um exemplo de que precisamos aprender a ouvir e levar a sério a melhor das intenções e atitudes. Sempre. E, talvez, consigamos aprender com elas. Já que as piores nós estamos acostumados a praticar. É degradante.

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