Vladimir Korolenko – Em má companhia

Por Caio Lima

Antes de qualquer coisa, essa semana é meu aniversário. Sábado, para ser mais exato. Eu não ligo muito para datas comemorativas em geral. Nem aniversário, nem Natal, nem Páscoa, nem nada. Mas esse ano, com o Rede de Intrigas, me atrevi a me expor mais sem ganhar absolutamente nada para isso. E é por isso que essa semana as resenhas acabam por se misturar com meus pontos de vista e impressões de mundo. Mais que o normal. De uma forma íntima, saca? Funciona como um acerto de contas que eu sinto a necessidade de fazer. Não com as pessoas, mas com a minha própria memória.

Korolenko, para quem não sabe, era um profundo defensor dos direitos humanos, dos párias da sociedade e, principalmente, das crianças. Crianças são as que mais sofrem em qualquer sociedade baseada na divisão social por ordem do poder aquisitivo e posição ideológica. Nascem inseridas, e indefesas, num sistema que não as permite a ingenuidade ou a curiosidade. São adequadas a serem o que nasceram para ser. Não existe o período de adaptação ou o período de contestação que nós, adultos, temos quando, por exemplo, protestamos contra um governo golpista. Porém, crianças são seres mágicos e puros. Felizmente, não precisa fazer muita coisa para incitar a curiosidade de uma. E acorrentados nessa esperança de que uma geração futura seja melhor do que a nossa é que ainda acreditamos que há solução para todos os males do mundo.

A história que eu tenho para contar aqui não se parece muito com a do livro, mas acredito que quem costuma frequentar aqui já sabe que eu falo pouca coisa sobre os livros em si. Prefiro deixar minhas impressões de leitura, contextualiza-los a alguma situação ou dissertar sobre pontos específicos. Salvo raras exceções, é isso aí mesmo. Até porque, existe uma coisa chamada sinopse e se vocês quiserem saber do que o livro se trata assim, bonitinho e mastigado, leiam a sinopse. Meu trabalho aqui é tentar passar algo além do livro, o famigerado “poder transformador da literatura”. Então, quem gostou bate palma, caldeirão! Loucura, loucura, loucura! Maestro Billy, som na caixa! (Plateia fazendo ola enquanto toca ‘Love generation’).

korolenko

‘Em má companhia’ chegou para mim num momento delicado, mas oportuno. E ler a pureza de intenção de uma criança para com os outros, arriscando a sorte e o nome da família, me fez compreender e repensar o momento pelo qual eu estava passando. A turbulência foi se extinguindo e eu me remontei. Porque os livros que tem mais valor para mim são esses que fogem da esfera literária e se materializam como cura, como exemplo, como conselheiro e como um bom amigo. E foi lendo sobre o poder transformador da criança, através da inocência e pureza, que eu comecei a acreditar que eu havia passado pela experiência mais incrível da minha vida.

Fazendo uma reflexão bem profunda, eu cheguei à conclusão de que eu mentiria dizendo que cuidei de uma criança com câncer nos seus seis últimos meses de vida. Mentiria porque cuidar é algo que vai muito além de ajudar a custear o tratamento ou visitar quando dá. Cuidar tem um sentido muito mais espiritual e professoral do que vocês podem imaginar. Existe uma questão de entrega constante e uma batalha enorme contra o próprio ego. Ego esse, que nasce cada vez mais cedo em nós e nos tira a oportunidade de olhar o próximo com a clareza e a pureza de uma criança. É um choque muito grande quando um pequeno ser de sete anos de idade te ensina mais em seis meses do que todos a sua volta tentaram ensinar a vida inteira.

Foram dias difíceis, em boa parte por saber que o quadro era irreversível, em outra boa parte por não conseguir me desvencilhar daquilo tudo. Ao invés de sair e olhar tudo de fora, eu mergulhei cada vez mais no universo dessa criança. Foi algo desesperador. Sempre à espera do inevitável, a sensação era a de me envolver em algo que me quebraria ao meio ali na frente. Sozinho em casa, viajando para a faculdade ou até indo encontra-la, eu ficava imaginando no tamanho do buraco que eu havia me metido e seria difícil sair. Muito difícil.

O que era mais engraçado, é que quando eu chegava para vê-la, essas aflições todas eram interrompidas bruscamente. Era um alívio. É lógico que o ambiente de uma criança com câncer não é feliz, mas a criança é. Nessa felicidade eu pegava carona e, sinceramente, não havia doença naquelas poucas horas que passávamos juntos. Existia um transporte para outro mundo e tudo estava bem, tranquilo e favorável. Eu já vi outros casos de câncer acontecerem, vencidos com louvor e muita luta. Mas eu nunca vi alguém não precisar lutar para deixar a doença de lado da forma que essa criança fazia. Essa serenidade e controle rechaçavam automaticamente toda a minha consciência que se perguntava o porquê adquirir esse sofrimento todo num momento já bastante conturbado.

Foram intensivos de um mundo paralelo onde reinava a santa trindade: palavras doces, sorrisos frouxos e histórias fantásticas. E sem perceber eu entrei nesse mundo também. Foi esquisito entender o mundo sem o ego cego do meio corporativista, mas tudo começou a ficar muito mais claro e simples. As coisas boas começaram a ficar incrivelmente boas. Tão boas que eu, por instinto, passei a cultiva-las cada vez mais e isso me resgatou da mortificação a qual eu estava entregue. Passei a trabalhar, estudar e render melhor em tudo o que fazia. As ideias foram mais positivas. Eu criei coragem para reconstruir laços perdidos por, simplesmente, não perceber a péssima ciranda que eu estava dançando. E o melhor de tudo, ainda poderia desfrutar de todos os momentos com a criança. É aquele sentimento da presença e da certeza que aprendemos que são a muleta perfeita para aprisionar pessoas e ideias.

Quando a sentença veio, eu perdi o chão de verdade. Saber que o inevitável tinha prazo foi o pior momento da minha vida. Eu custei a entender que era a posse que me fazia tão mal. Mas por um lado, foi isso que forjou a mentira de que eu cuidei dela por seis meses, porque foi nessa situação, quando não havia mais jeito, que, aí sim, eu verdadeiramente tomei conta das coisas. E vejam só, até que eu não fiz cagada. Foi um mês e uns quebradinhos de aplaudir de pé, igreja. Eu ainda não entendia e não conseguia largar essa noção de posse, mas foram momentos tão lindos e vívidos quanto eu poderia desejar. E não foi um esforço sobre-humano cuidar, não. Foi natural, como tudo deve ser. Por mais triste que seja a situação toda, eu não conseguia ficar triste. Havia algo impregnado em mim que eu jamais conseguiria explicar.

Como uma avalanche, veio a notícia de que sua vida findou. A criança já não suportava mais. Na verdade, eu é que estava suportando por ela aqueles últimos momentos. Foi um processo cansativo, extenuante. Até cair a ficha do que havia acontecido, eu estava tranquilo. Depois veio aquela onda de incompreensão e os questionamentos são inúmeros, mas todos eles ficam sem resposta. E logo após eu me aventurei pelos caminhos sinuosos de Korolenko em ‘Em má companhia’. Eu logo fui me remontando, devagar para não causar transtorno, e fui tocando a vida, criando o Rede de Intrigas e tomando um calote fenomenal da empresa que eu trabalhava.

Minha história não tem muita ligação com a história do livro, a não ser o ponto principal: as crianças tem uma percepção de mundo muito mais elevada que a nossa. Elas devem ser ouvidas e levar crédito pela sua capacidade infindável de agir com pureza e bravura, mesmo nesses momentos em que o destino está selado. Eu, burro velho e cheio de manias, tive a minha vida mudada. Aprendi a me reposicionar, a tirar o corporativismo entranhado por essa sede de competição para ganhar uma miséria e aprendi a dádiva de se viver com a leveza de ser quem você é, porque isso espalha luz por qualquer chão que você pise. Se eu dissesse, antes dessa história toda, que foi uma criança a responsável por me fazer pensar assim, vocês não acreditariam. Mas foi. E eu não tive a oportunidade de agradece-la como deveria.

A gratidão desses seis meses saem em cada muito obrigado que eu dirijo às pessoas, mesmo que tímido e rápido. Eu não agradeço a atitude de dar licença, mas agradeço a sua boa vontade e compreensão de me ceder seu espaço momentaneamente. Isso pode te parecer filosofia de boteco, mas é assim que eu penso e me comporto. A vida me deu a oportunidade de vivenciar cada pequeno momento em busca do que realmente vale à pena. E para isso seis meses foram tão suficientes quanto seriam sessenta anos.

Korolenko nunca teria escrito algo para mim, até porque daqui a pouco ele completa o centenário de sua morte, mas eu sinto como se fosse. Essa mágica que a verdadeira arte é capaz de produzir é motivo da minha gratidão também. Foi lendo que eu percebi que não é só a literatura que ensina, salva e liberta. A pureza de uma criança me salvou do que eu poderia me tornar, acaso continuasse seguindo por esse mundo onde temos que medir muito bem até onde podemos ir por alguém ou alguma causa. A literatura me fez colocar os pés no chão e enxergar tudo o que eu me permiti mudar. São reflexos que deixo transparecer em cada ‘muito obrigado’ que falo. As atitudes, a boa vontade e a gentileza que muitos me proporcionaram e que eu procuro proporcionar. Eu não sou nenhum espírito elevado ou bom exemplo de qualquer coisa. Sigo o exemplo de uma criança cheia de luz e que se foi, deixando um legado de uma nobreza muito maior do que nós, adultos, seríamos capazes de realizar.

E da mesma forma que a bonequinha da capa do livro ilustra tão bem o quão espiritual é a relação entre essas crianças, eu guardo um único desenho como evidência física da minha experiência sentimental com essa criança. Nesse desenho há uma casa de sentimentos bons e nós dois. Esses sentimentos bons que antes residiam na criança, agora residem em mim. Não existe honra ou riqueza maiores do que essa. Muito obrigado, criança. Você cuidou de mim e mudou a minha vida. Muito obrigado, Korolenko. Você soube mostrar que a resistência num mundo doente é cultivar o amor, coisa que as crianças sabem perfeitamente o que é. Eu vivi isso na pele. Ainda bem. Essa era a dívida que eu tinha para com a minha memória e resolvi expor para vocês, portanto meu muito obrigado à todos que leram até aqui.

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