Literatura e história

Por Caio Lima

O ato da leitura é um esforço integrado entre se colocar no lugar das personagens, se colocar no lugar do autor e entender aquele contexto específico da história. Nos dois primeiros artigos passei rapidinho justamente essa relação entre personagem-leitor e autor-leitor. Claro, não foi um baita estudo, mas espero ter deixado perceptível que essas relações, na literatura russa, foram exploradas ao máximo para extrair alguns conceitos arraigados da sociedade russa à tona. As ações e as nuances pelas quais cada indivíduo passa, são exercícios constantes de resistência. Reparem que, raramente, os grandes autores russos criam personagens bons de tudo e quando criam… é um verdadeiro drama, como o príncipe Míchkin, em ‘O Idiota’. Mas isso é papo para a resenha de quinta-feira e para o texto do próximo domingo.

Indo um pouco além nessa coisa de “em como a história interage com as obras russas e o efeito único produzido por isso”, já que os russos bebem de uma fonte comum à escola francesa, por exemplo, mas a utilizam de maneira diferente ao meu ver. Enquanto fatos históricos e momentos marcantes normalmente servem como um pano de fundo para a construção e desenvolvimento do enredo, na literatura russa a história chega de uma forma mais incisiva e de duas maneiras primordiais.

A primeira forma que eu vejo como bastante particular da literatura russa é em como a história passa a fazer um papel além de ser apenas pano de fundo para a trama. Fatos históricos, ou até um enredo que cubra todo um período, agem diretamente dentro de todo o contexto criado, mas não que tenhamos em mãos um romance de ficção histórica, propriamente dito. É meio esquisito, mas a história se transforma em mais uma personagem, tão complexo quanto quaisquer outros criados e regada de olhares tão críticos quanto os que são jogados para o indivíduo. Quer ver um exemplo bem claro e curtinho? O Soldado Quetange, do Iúri Tynianóv, que coloca como similares a burocracia da União Soviética no regime stalinista e do regime czarista de cem anos antes. O regime czarista deixa de ser o background, para exercer uma função muito vívida dentro da trama. Toda a ironia e o humor da novela passam pelo olhar aprofundado que damos entre as duas épocas.

Essa característica está em obras que permeiam o imaginário da literatura russa. A maior delas, muito provavelmente, é ‘Guerra e Paz’, do velho do saco, opa, do Tolstói. Essa elevação da história para algo além da contextualização do leitor, da formação de uma simples trama, proporciona uma nova maneira de apreciação da leitura em si. A leitura fica, normalmente, muito mais densa e nebulosa. A história tem essa função de nos intrigar e ir desenvolvendo a leitura, reconhecendo como a história age sobre cada personagem e sobre si mesma, como organismo vivo que é, intriga mais ainda. Essa fábrica de fazer intrigas, sempre com os olhos voltados para o passado e elevando a história a um status maior que o comum dentro da literatura, nos obrigam (sim, obrigam) a enxergar pontos cruciais da sociedade russa.

O segundo ponto que eu observo dentro de como os autores russos, de uma maneira geral, se utilizam da história é quando se prendem no presente e pensam no seu legado. Não, não se embole. Mas com uma obra tão vasta e contemporânea, eles são historiadores de seu tempo, deixando registros e mais registros das profundas mudanças na Rússia do século XIX em diante. Não é à toa que ‘Pais e Filhos’, do Turguêniev, nasceu um clássico. São como os rappers de hoje em dia, saca? Dropping dimes and classics errrrrday.

Por isso, já fica o aviso, não desprezem as notas de rodapé dos livros. Apesar de serem muitas, via de regra elas contextualizam e explicam algumas situações primordiais para uma experiência de leitura completa. Lembrem-se que ler é, acima de tudo, um exercício de justaposição com as personagens, com o autor e com a história, portanto fazer vista grossa para os detalhes que formam a obra é abdicar de tentar entender o próximo. E isso é muito grave. Tão grave quanto açaí aguado ou churrasco sem pão de alho.

Entre trazer a história para nós e retratar a história no ato, sem deixar lacunas em branco ou pedaços soltos, os russos foram mestres. A história nos desafia a fazermos diferente, sermos criativos e a evoluir. A literatura russa, além de lembrar isso muito bem, escreveu sua história e o que vemos é uma farta produção literária que vai muito além dos próprios livros. Temos que sair do mundo literário e pesquisar fontes, correr atrás da informação e ler mais um emaranhado de referências. Mas obra boa é assim, transcende o ambiente físico para se materializar num lugar que condiz à grandiosidade dos russos: a história. E é assim que literatura e história se confundem e nos carregam para um novo mundo. Para os russos, estudar história é resistência. Fazer história, também.

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