Alexsandr Púchkin – A Dama de Espadas

Por Caio Lima

A arte só faz sentido quando exerce alguma forma de comunicação entre o artista e o espectador. Por favor, não entendam isso como padronização do conceito de arte. O que quero dizer é que você pode ser o único espectador da arte que produz e ninguém tem nada a ver com isso, tampouco a obrigação de entender o que você criou. Mas a partir do momento que uma pessoa tem a capacidade de interpretar a sua arte, por mais estranheza que ela cause e que ela tenha errado ao palpitar sobre a obra, existe uma troca. Mas já percebeu o quão pouco de arte conhecemos e temos acesso? Ou que temos um padrão bem quadradinho sobre o que é arte? O bonito e o feio, o clássico e o contemporâneo, o aceitável e o inaceitável. Funciona como uma cartilha de etiqueta. Não quero entrar no mérito do conceito de beleza, o que já daria muito pano pra manga. Porém, limitar o acesso à arte impede o desenvolvimento e uma atuação crítica ante o que se vê.

No primeiro artigo eu trouxe um brevíssimo panorama de como essa etiqueta artística e o limite de acesso da grande massa rural da Rússia do século XIX foram quebrados através da literatura, principalmente. Então, é nesse contexto que Alexsandr Púchkin aparece para nós, pobres mortais. É, amigos, o cara é o pai da literatura russa. Segura a marimba, monamu. E o cara é multifacetado, escreveu de tudo, sobre tudo e, o mais importante, escreveu tudo muito bem.

Dentro da literatura de Púchkin reside uma responsabilidade maior que a da literatura em si. Ele pode até não ter imaginado as proporções que seus escritos tomariam para várias e várias gerações (até chegar aqui nesse pobre blogueiro), mas ele desenvolveu sua arte para que se comunicasse com toda a parcela esquecida da Rússia. Aquela mesma que foi criada para ser caolha e reconhecer apenas uma arte, quando não totalmente retirada a visão. E é aí, atraído por essa responsabilidade, que Púchkin passa a tratar cada vez mais da Rússia. O povo, o trabalho, a divisão social, a cidade, o ambiente e os costumes são sempre analisados por uma literatura simples, coloquial e bastante popular, mas de um teor crítico absurdo. E o fomento disso acaba conduzindo Púchkin para um ativismo literário cada vez mais sólido.

Utilizando de estilos e formas diferentes, ele pintou cenários de uma maneira jamais vista naquela região e época. Poesia, prosa, sobrenatural, comédia, romance, conto e por aí vai. Cada recurso narrativo, causo criado e ambiente escolhido exibem ao povo russo um retrato que não os era mostrado. Podemos ver isso claramente em ‘A Dama de Espadas’ (finalmente) em como ele trata a aristocracia russa daquele tempo. O que, na verdade, não mudou tanto em lugar nenhum do mundo, mas isso aí são outros quinhentos.

O mais interessante desse conto é em como ele associa a capacidade de adivinhar cartas da condessa, sua ascensão ao status de condessa e a sede por descobrir essa mágica, ou poder sobrenatural, e ascender à nobreza russa à qualquer custo do jovem Hermann, com o fato de como a aristocracia russa é formada. Mesmo sabendo que jamais poderia usar a habilidade de adivinhar as cartas após sabe-la, Hermann usa e abusa sem dó e enriquece. A jogatina come solta, moleque. Ele quebra a banca. Rei do jogo. O grande trunfo é mostrar que, se bem usada, a forma ilícita de enriquecer pode ser um garantidor de riqueza ao longo da vida, uma maneira fácil e rápida de ascender socialmente e isso denota como estar numa esfera social maior era algo importante. Na real, ainda é, né?  Esse enriquecimento não poderia ser necessariamente ilícito, mas com certeza se passava dentro de uma imoralidade irracional, como o casamento pelo dote ou pela herança. Tómski manja disso muito bem.

Essa sensibilidade de condenar a moral e a origem da riqueza de boa parte da Rússia, além dos costumes, dão a tônica desse conto. Escolhi exatamente esse conto para que vocês procurem dentro de todo esse contexto sobrenatural traços semelhantes da nossa sociedade. Aqui é muito comum o “topa tudo por dinheiro”. As técnicas mais absurdas são utilizadas, esfregadas na nossa cara e não somos capazes de criticar os danos que isso causa à sociedade de forma direta e indireta, implantando um ciclo vicioso de corrupção moral que é velado pela admiração ao grande empreendedor, ao empresário magnânimo ou ao lobo de Wall Street.

Infelizmente são poucos os que não se vendem por conta do dinheiro e do poder intrínseco a ele. Esses são meros produtos nas prateleiras, daqueles não atrativos o bastante para se venderem e que precisam de um esforço para serem vendidos. Se você for um deles, bate aqui e fica ligado que o Púchkin vai te contar um segredinho: eles vão tentar vender você também.

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