Anna Akhmátova – Antologia Poética

Por Caio Lima

Eu estava meio chateado com o mês russo. Não pelo fato de fazê-lo, de forma alguma. Mas eu pesquisei tanta coisa diferente para tentar fazer um apanhado da literatura russa como forma de resistência e, ainda assim, alguns pontos me pareciam meio soltos. Fica um vazio chato pra caramba. Eis que eu, procurando ‘O Uivo’, do Allen Ginsberg, despretensiosamente, me deparo com uma tal de Anna Akhmátova. Essa é daquelas coisas que sempre acontecem comigo, de um livro brotar na minha frente e fisgar toda a minha atenção de forma instantânea. E é por isso que eu não consigo realizar desafios grandes de leitura. É complicado, mas é algo muito feliz. Com a ‘Antologia Poética’ da Anna foi muito mais que feliz. Passou a sensação de vazio. Na verdade, se eu postasse um poesia dela por dia ao longo desse mês, vocês todos teriam a noção perfeita do que é literatura de resistência.

Na Rússia efervescente daqueles tempos, algumas mulheres conseguiram certo destaque, mas sempre ofuscadas por seus pares homens. É como se cada tentativa de produzir uma obra que tivesse a mesma qualidade de um Púchkin, habitasse a sombra do pai da literatura russa como uma assombração. As comparações eram inevitáveis e aí apareciam aqueles dedos apontados acusando falta de originalidade e a infinidade de argumentos que uma sociedade patriarcal usa para destituir o poder de mulheres que ousam exercer qualquer voz num contexto social (percebem alguma semelhança?). Eu ressalto o argumento da “falta de originalidade”, porque veja bem que merda era tentar ser escritora àquela época: qualquer coisa que você escrevesse, homens já teriam feito melhor do que você. Imagina quantas autoras russas não nos são ofertadas justamente porque suas obras foram julgadas como não-originais.

É nesse bosque das ilusões que Anna Akhmátova desenvolve toda a sua obra e se torna um expoente quase que metafísico da literatura russa. E isso, talvez, tenha acontecido porque sua poesia é um reflexo não só de sua forma de pensar, das suas dores e da sua visão de mundo. É bem maior que isso. Na poesia de Anna, habitam suas ações. Ler Anna Akhmátova é estar com Anna Akhmátova. É compartilhar de seu tempo. É exercitar a empatia na sua forma mais básica e verdadeira.

A vida de Anna Akhmátova é uma loucura só. Ela se casou três vezes e se separou três vezes, perdeu o filho preso e morto pelo serviço secreto russo, foi condenada ao exílio, passou fome, não teve onde cair morta, sentiu de forma muito vívida as duas guerras mundiais, sofreu censura da polícia política soviética e por isso, além de ter boa parte das suas obras impedidas de serem publicadas durante um bom tempo, teve que regular na caneta para continuar escrevendo, já que ela nunca aceitou fazer a arte partidária que o governo soviético impôs à época e só lá no fim da vida, após o abrandamento da censura, suas obras foram relançadas e ela pôde desfrutar de todo o frenesi que sua literatura foi capaz de causar à Rússia. Ufa!

Diante disso tudo, Anna Akhmátova teve a oportunidade de sair da Rússia e ir para um exílio em algum país mais quente, mais liberal e menos perdido na maneira própria e quase única de criar inimigos. Mas ela decidiu ficar e isso tem um efeito no imaginário do povo muito grande. Releia o parágrafo acima e me responda uma coisinha: se fosse você que tivesse sofrido isso tudo, você ainda pensaria que deve alguma coisa ao teu povo, ou teu país, de uma maneira geral? Tem que ter muita resiliência, paciência, proficiência, malemolência, criatividade para sair da crise e todos os outros tópicos enumerados por palestrantes de auto ajuda e livros de como se dar bem nos negócios.

Eu estou aqui divagando pela vida da Anna Akhmátova não é por falta de assunto, é que essa é a poesia dela mesmo. Ela escreve sobre a vida, sobre a realidade dela, sobre o que viu, o que sentiu e sobre a Rússia. Sem precisar apelar para o substrato do subconsciente em subatividade. É seco, reto e à flor da pele. Isso não quer dizer que ela não abuse da técnica. Mas, na real, quem quer saber de técnica quando essa mulher tá falando? É leitura e sentimento. É sentimento na caneta. É literatura como forma de propagar mensagem. É a mensagem que se transforma em resistência.

Alguns preferem chama-la de Púchkin mulher, outros de mãe da literatura russa. Mas acho que é muito cabível que aprendamos, de uma vez por todas, que ela é Anna Akhmátova. Sem comparativos e superlativos. Sua poesia não necessita disso. E, pensando um bocado, nem eu, nem você, nem ninguém. Você transgride, eleva o patamar, abre espaço para milhões de vozes e dá conforto e carinho para todo um povo através da sua poesia, que nada mais é do que um retrato das próprias ações. O mais importante é que ela me faz acreditar que eu posso fazer isso também e olha eu aqui, todo bobo, tentando explicar para vocês o porquê do mês russo não parecer vazio.

 

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