Literatura e diversão

Por Caio Lima

Você já parou pra pensar no quanto somos sistemáticos sobre como tratamos a cultura e, consequentemente, as nossas formas de lazer, na busca pela diversão e sensações extremamente prazerosas? Pois é. Pensa aí. É meio decepcionante quando percebemos que tudo é meio padronizado, robótico. Que mudamos pouco e essas mudanças são bem lineares via de regra, nos deixando numa zona de conforto até com algo que muito provavelmente nos proporcionaria felicidade. É como se o novo fosse algo clandestino, ilegal e, acima de tudo, existe aquela máxima de “não troque o certo pelo duvidoso”. Se você sabe que A é bom, pra que procurar pelo B?

Tratar somente da literatura russa ao longo desse mês tem uma função que vai muito além do lado professoral, até porque não posso passar nada além das minhas impressões sobre o que leio e contextualiza-las à história. Os livros foram escolhidos pela facilidade de acesso, preço, ideias claras e linguagem simples. À exceção de ‘O Idiota’, do Dostoiévski, todos seguem essa linha. Faço isso, porque gostaria que tivessem feito isso por mim quando passei a me interessar por literaturas além dos best-sellers. Muito provavelmente não teria quebrado tanto a cabeça ao tentar entender outras escolas literárias e movimentos literários por intermédio das obras mais complicadas possíveis. E minha implicância com as castas da erudição literária seria potencialmente menor. HAHAHA.

Podemos utilizar a literatura russa como referência para tentar discutir essa abordagem ao novo sob diversos aspectos. O fato é que existe uma restrição cultural. Essa segue os mesmos moldes de uma restrição física, o que é potencialmente devastador quando tornamos a cultura, o lazer, o prazer e o entretenimento como algo que possa ser pura e simplesmente adquirido e modificado como uma mercadoria de determinado valor e que não agrega em outros aspectos, senão o de um produto monumental para o acesso e deleite de poucos. Olhando de fora para dentro, a literatura russa é realmente assustadora como produto, não? Esse terror todo se dá por muitos e muitos e muitos motivos e a discussão é bem longa, permeada de pontos polêmicos e que farão parte de outro texto do Rede de Intrigas, porque não somos ‘Casos de Família’, mas adoramos uma polêmica.

E pra quem já está dentro da literatura russa? Provavelmente já começou com algumas coisas bem pesadas, profundas e de pirar o cabeção. É horrível isso. Normalmente pegamos as dicas com blogueiros (paga nóis, pode ser em livros), professores e parentes. E é aquela coisa, né, a pessoa fala que amou, fala que é uma uva, fala que é um tesouro literário, mas não fala sobre o processo de leitura, que é o mais importante. Daí a gente chega todo faceiro para ler ‘Os Irmãos Karamázov’ logo de primeira, sem mimimi, achando que é apenas uma história de três irmãos na Rússia e, de repente, estamos pensando em cada detalhe, em cada aspecto mínimo que nosso amigo boladão Dostoiévski aborda. Perdemos o sono, ficamos de ressaca e BANG!, ouvimos Anitta.

A literatura russa é um exercício de constante reflexão. Mas a diferença se dá de dentro para fora. Não temos mais o olhar seguro e quentinho de analisarmos o comportamento humano dentro dos mais diversos meios, mesmo que fantásticos, do lado de fora. Há uma inserção profunda do eu-autor, capaz de levar à imersão profunda do eu-leitor, então somos colocados frente à frente a um espelho da nossa própria alma e isso, naturalmente, causa repulsa. Não adianta dizer que não, porque um dos arquétipos formadores da visão de mundo ocidental é, sim, o embate entre o indivíduo ideal e a sociedade, levando sempre a noção de perfeição como um contexto unilateral.

Até progredirmos com a leitura e com a aceitação dos valores que reconhecemos como sendo nossos, talvez inatos, existe um profundo processo de estranheza, de choro embargado e perplexidade seguida de não aceitação. E é aí que não podemos parar de ler os russos. As dificuldades de estilo e de técnica são muito poucas frente ao que acabamos de descobrir sobre nós mesmos a cada página virada. O deleite de nos descobrirmos, de refletirmos sobre nós mesmos ao invés de apontar para o próximo e a eterna questão do quanto a sociedade interfere no indivíduo e o tanto de indivíduo que há na sociedade. Tudo isso se embaraça no ser, no estar e nas atitudes que tomamos, construindo nossa personalidade e enraizando nosso pequeno legado nesse mundo. Questionar nossos pilares é sentir prazer em olhar para dentro, apesar da inquietude. É não ter medo do que é novo e olhar como oportunidade, recomeço e diversão cada mudança. É tratar o lazer como algo maior que o preço tabelado. É ser revolução e ser resistência todo dia. É literatura. Russa, principalmente.

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