Iúri Tyniánov – O Tenente Quetange

Por Caio Lima

Iúri Tyniánov lançou a novela ‘O Tenente Quetange’ em 1928, poucos anos após a ascensão de Stalin na URSS, e teve um sem número de edições até ser, finalmente, limada das prateleiras uns dez anos após o lançamento da primeira edição, pela política de repressão ideológica do novo regime soviético. É impossível saber se isso se dá pelo fato de os órgãos governamentais soviéticos serem tão burocráticos que, ao não encontrar qualquer referência ao atual regime, deixaram passar a obra ou se leram, analisaram e não foram capazes de se enxergar no espelho. Para os que acharam que o mês da literatura seria uma ode à URSS e um meio (ex) governamental de realizar uma doutrinação marxista-bolivariana-mortadela-petralha-comunista em vocês, ledo engano.

De forma muito sutil, vemos como o governo soviético sofreu um retrocesso comportamental e processual, se embolando cada vez mais num novelo burocrático e cheio de vícios, ressuscitando práticas tão old fashioned que a revolução deveria ter derrubado e enterrado no passado czarista. E aqui temos um alerta, dentro de um exemplo simples, de como a mudança de sistema de governo não necessariamente representa uma modificação na forma de governar.

Um escrivão, novo no pedaço, completamente enrolado para escrever seus memorandos e informes-do-dia, ao invés de escrever “a nomeação para Tenentes que tange a Stíven, Rybin e Azantchéiev foi determinada…”, escreveu “a nomeação para Tenentes Quetange, Stíven, Rybin e Azantchéiev foi determinada…”. Pode parecer bobeira, mas lembrem-se sobre os processos burocráticos em voga e a atribuição de poder que o chefe de Estado e seus asseclas possuíam. De forma repentina o Tenente Quetange ganha vida, é enviado para a Sibéria, volta cheio de promoções, vira guarda particular de um comissário, é promovido até virar General, tem mulher e um filho muito parecido com ele, inclusive, e um funeral digno de um grande servidor da mãe Rússia. Tudo isso sem nunca ter existido.

A admissão do erro seria o suicídio dentro do sistema vigente, uma condenação à anos de serviços forçados na Sibéria e a volta para a Rússia numa situação miserável, sem qualquer amparo. Erros não são toleráveis no sistema, por menores que sejam. Desta forma, um erro se torna uma mentira e essa mentira é sustentada a qualquer custo, sob qualquer circunstância e atingindo não importa quem. Isso faz do Estado uma máquina de produzir falácias através de métodos burocráticos e o pior, protegendo sistematicamente os responsáveis por essa produção em massa.

Eu esqueci de mencionar que a história do Tenente Quetange se passa durante o reinado do czar Alexandre I, um grandessíssimo usurpador, mas, pasmem, na URSS de Stalin acontecia igualzinho. Sem tirar nem por. E essa tara pelos métodos de censura stalinistas foi bem grande em Tyniánov, que desafiou (e burlou) bastante o sistema soviético de repressão através de suas novelas e críticas cheias de humor e malemolência. Mas após dez anos com o livro rolando nas mãos de geral livremente, o estrago já estava feito e todo mundo já estava ligado em como a burocracia e o regime claustrofóbico que a revolução quis tirar, permanecia lá. Pilantrinha esse Iúri.

Vale lembrar que Górki e Maiakóvski, principais líderes da revolução de 1917 dentro da literatura russa, cometeram suicídio no começo do governo de Stalin por perceber que, além da censura aplicada a mãos de ferro, a revolução estava tomando caminhos contrários ao que foi idealizado. Muito se discute se os dois gênios realmente se mataram, mas a primeira versão é essa daí. E por falar em usurpador, repressão, censura e manutenção da máquina estatal para distribuição de falácias, como não está nosso Brasil, hein? Tyniánov deu o alerta. Se liguem.

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