Ivan Turguêniev – Pais e Filhos

Por Caio Lima

Se um dia alguém vier lhe dizer “ainnnn, não leio os russos porque é muito difícil” ou “isso aí é livro pra nerds, não tenho capacidade” ou “queria muito ler, mas acho que sou burro(a) demais pra isso”. Por favor, só pare. Parou? Agora leia aqui. Lá no artigo de domingo eu havia falado que a literatura russa foi um agente de mudança primordial da sociedade russa como um todo. Os livros tinham a capacidade de conversar com o povo, cumprindo uma função social muito além da arte em si. Mas, que com a constante repressão e como um processo natural do desenvolvimento da arte, os escritores haviam se fechado e começado a desenvolver suas próprias técnicas. A partir daí, sobre literatura, o papo fica muito técnico e eu não tenho cacife para falar sobre isso.

Dentro do universo sombrio formado por meus pensamentos, tem um cara na literatura russa que sintetiza muito bem a relação entre elegância e simplicidade. Sabe a sensação de estar se deleitando no meio de um livro clássico e entender absolutamente tudo? É o que Ivan Turguêniev foi capaz de fazer. Eu poderia vir aqui falar da novela ‘Ássia’ ou do conto ‘Relíquia Viva’, mas preferi vir contar um cadinho sobre ‘Pais e Filhos’ pelo simples fato de que vou correlacionar com a música do Renato Russo e fazer todo mundo viajar numa bad trip monstra até Outubro. Sacanagem!

Pais e Filhos é uma metáfora para o embate entre gerações. Na Rússia daqueles idos houve a crescente influência do pensamento progressista ocidental, Bazárov teve como sua principal influência um professor alemão, por exemplo. Como se o progresso da ciência já não fosse perigoso o bastante para a velha geração russa extremamente conservadora, Turguêniev consagra aqui uma nova linha de pensamento fundamentalmente voltada para as ciências diversas, o niilismo. Ou seja, nada que não seja comprovado pela ciência tem algum valor intrínseco. Isso coloca o tradicionalismo da aristocracia russa, a religião e a arte, de certa maneira, no mesmo saco para os niilistas. Então, você, que se diz niilista, mas se amarra numa parada feita com amor e diz “graças a Deus” quando consegue alguma coisa, tá indo pelo caminho errado.

O tradicionalismo russo deveria ser derrubado totalmente. Das raízes folclóricas e conservadoras que tentam explicar o porquê de haver uma manutenção de poder secular por parte de uma parcela mínima da sociedade, até a própria noção do que são os sentimentos. Tudo isso atrapalha o desenvolvimento da população e da ciência, reduzindo a Rússia a uma nação atrasada e presa a costumes sem nenhum tipo de aplicabilidade prática além de uma elitização e, por consequência, separação vazias dos ramos sociais.

Bazárov é o niilismo fechado em si mesmo, algo perfeito e inquebrantável. O que é, talvez, terrível. Que agonia ler sobre um cara que só acredita na ciência, ciência, ciência. Ele reduz não só o tradicionalismo russo, mas reduz as artes também. A poesia, a literatura e a arte em si não exprimem um valor real para serem consideradas algo de maior valia para o novo pensamento russo. As ciências sociais e humanas também entram nesse balaio, sendo irrelevantes como substância e valendo apenas como registro histórico. O foco é a ciência pura. Onde a ciência pode ser aplicada, é onde haverá desenvolvimento e verdade. E, dessa forma, Bazárov, o niilista perfeito, começa a ramificar suas próprias relações como advindos puramente científicos ou de afinidade científica.

A maior sutileza na narrativa de Turguêniev fica bastante explícita no final do livro, quando Bazárov descobre tarde demais que, mesmo não tendo a comprovação científica do que acontece nessas interações, há uma atração e admiração naturais que vão além de uma própria compreensão sentimental ou da própria metafísica e é impossível de ignorar, esquecer ou suprimir através da ciência.

Essa condição de Bazárov serve de aviso para uma nova geração que chega muito afoita com o que a ciência pode proporcionar e derrubar de uma vez só. Todos os mitos agora claramente explicados, a sensação de poder e um ponto que marca muito claramente a desvinculação entre o pai e o filho, numa nova geração capaz de pensar e trazer soluções sem as amarras do conservadorismo russo, são pontos revolucionários e que trouxeram essa nova geração estudada de russos para perto das reformas do pensamento popular. Mas existem valores humanos, inexplicáveis até hoje para a ciência, que são inerentes a nossa formação pessoal e como sociedade.

Turguêniev teve a capacidade de enxergar isso lá trás e escrever sobre, e começou a moldar o conceito de niilista para uma coisa mais ampla e mais humana, né. O progresso era necessário e, mais que o progresso momentâneo, a perpetuação de um pensamento progressista na sociedade, que acompanhe a evolução do mundo. Mas imagine se todos fossemos moldados unicamente pela ciência? HAHAHA. Seria engraçado. Quer dizer, é engraçado porque eu tenho um conceito de humor (muito negro, aliás) desenvolvido, mas numa sociedade científica não seria assim, né? Será que Turguêniev e esse surgimento do niilismo foram pais das distopias clássicas? Vamos descobrir isso? Spoiler surpresa de projeto novo pra vocês aí. HEHE.

Num país de terceiro mundo como o nosso, numa sociedade conservadora como a nossa, é perfeitamente natural que tentemos institucionalizar razões científicas ou tratar a tecnologia como única forma de progresso. É uma tendência muito forte mesmo. Mas não podemos esquecer do valor humano, do bem-estar, das artes, dos sentimentos e tudo o que isso nos agrega. Na real, se até Bazárov, o maior niilista de todos os tempos, reconheceu seus sentimentos, quem sou eu para remar contra, não é? Amor, arte e empatia também são resistência. A gente pode ser resistência e nem sabe que tá sendo, ou podemos progredir e saber da resistência que somos capazes de fazer. Me diz aí, qual vai ser?

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