Literatura e resistência

Por Caio Lima

Muito provavelmente a literatura russa é o maior expoente, dentre todas as grandes escolas literárias, que tenha aliado a produção literária e a contemporaneidade dos relatos. Sei que as escolas inglesa, alemã e francesa também tem esse viés muito forte e que eram muito mais consolidadas que a escola russa, já que os russos assumem, sem vergonha de serem felizes, toda a influência que sofreram para criar as bases da sua própria literatura. Mas a Rússia, a partir do século XIX, roubou a cena com toda a expressiva movimentação de grupos de escritores que se dispersaram em movimentações sociais e expuseram, e inflamaram, a Rússia daqueles tempos.

A literatura russa, em essência e com todas as suas particularidades, é cunhada em questões de ordenação política e social. Isso é muito sensível, mesmo quando autores como Tchekhov compraram a briga da “arte pela arte”, ou seja, arte sem qualquer cunho social ou político. Tchekhov, apesar de sair da esfera política, social e cultural inflamadas, retratava a realidade russa com uma maestria de fazer brotar lágrimas nos olhos do blogueiro aqui. E é impossível não associar a literatura sem falar do povo russo, realmente. Faça uma tentativa. É praticamente impossível.

Esse retrato mais aprofundado dos aspectos sociais, e podemos aprofundar muito isso até chegar em como Dostoiévski destaca o homem russo e toda a perversidade do ser humano lá na raiz, pode ser justificado por uma sociedade muito rural, que em pleno século XIX ainda não havia sofrido uma revolução industrial plena. Isso ocasionou uma transição lenta mas truculenta entre o homem rural e o homem urbano. Grandes feudos transformaram-se em burgos, recebendo a influência da Europa Ocidental, mas sem perder essa questão rural muito forte.

A estratificação social promovida pelo czar e a aristocracia só permitiram, dentro desse cenário, as permutas sociais entre operariado urbano e o trabalhador rural, falando de forma bem básica. Mas, como não poderia deixar de ser, a própria aristocracia observava o homem russo comum. Naturalmente, o opressor sempre observa as movimentações do oprimido a fim de evitar represálias e de uma manutenção dessa cadeia social. No entanto, uma classe aristocrática tomou gosto por estudar as estruturas sociais russas e o homem russo em si. Saca quando você quer puxar o problema da essência? Então, é daí que os ramos culturais russos começam a tomar forma. Nisso, autores como Púchkin começam a ser melhor observados e a literatura russa começa a fundamentar seus pilares.

O homem russo comum; as condições e a ordenação da sociedade; a chegada cada vez mais constante de influências europeias ocidentais, principalmente o iluminismo francês e a filosofia alemã; o interesse da aristocracia russa no próprio povo, tendo em vista a análise das informações cada vez mais constantes vindas do ocidente; e, a partir disso tudo, o começo da guinada popular que a literatura tomou com Púchkin (principalmente), foram, resumidamente, os pontos fundamentais na formação de uma literatura de resistência.

Quando a arte passa a retratar os aspectos do cotidiano e em como a sociedade se organiza e se movimenta, as coisas começam a tomar um pouco de forma e os movimentos sociais já organizados passam a sofrer influência, também, do que os literatos russos podem oferecer. Isso não se resume à notoriedade que as publicações da época conferiam ao ideal de um grupo ou movimento, havia também o ponto de vista singular que cada um desses autores empregava às obras.

Existe uma perspicácia ao retratar a sociedade russa partindo das suas bases e a maneira de escrever que vai além de uma particularidade do autor. Isso vai muito de encontro à forte censura e repressão que órgãos czaristas praticavam contra revistas, jornais e as obras compiladas dos autores russos. Quanto mais a censura mordia, mais alternativas surgiam dentro da própria literatura. Isso propiciou à literatura que, noves fora sua formalização como resistência, mergulhasse profundamente dentro da arte e bebesse cada vez mais do seu próprio produto. A obrigação de levar um discurso para frente, fez da arte mais que uma ferramenta expressa, rápida. A literatura começou a se revelar como o mais importante instrumento do povo russo e, além de contar o passado e mostrar a realidade do momento presente sob uma perspectiva muito mais analítica, passou a designar caminhos futuros.

As diversas correntes de pensamento russas vão sendo impregnadas com o realismo fantástico e a ironia de Gógol, com a classe, sutileza e simplicidade de Turguêniev, com o homem sombrio e profundo de Dostoiévski, com a grandiosidade do discurso e a estoicidade de Tolstói, com o humanismo e a emoção à flor-da-pele de Korolenko e com a ficção-biográfica apaixonada e política de Górki. A literatura torna-se a engrenagem de transformação da sociedade. Explodem autores de todos os cantos representando, retratando e guiando causas e desmontando os pilares de uma sociedade levada durante séculos com as vendas da exploração.

Dentro do universo e da mística de cada autor russo que reverenciamos, existe muito mais do que a excelência técnica ou a criatividade tão simplesmente. Ali, contidos, há o retrato de histórias que foram suplantadas durante séculos e tiveram, mesmo que parcialmente, suas dívidas pagas com a produção literária vertiginosa da época. O não esmorecimento da arte e a crescente e rápida transformação do mundo ocidental, aceleraram o processo e influenciaram tanto os autores quanto os movimentos. Essa via de mão dupla entre literatura e povo, trouxe à tona o que tende a ser o ideal de todos que fazem literatura de guerrilha, como o Rede de Intrigas aqui. Afirmar que tudo aconteceu na Rússia por causa da literatura é algo extremamente prepotente. Mas é na Rússia do século XIX que podemos vivenciar a perfeita experiência da arte como espelho e objeto de transformação de todo um povo. Em tempos de resistência, como não falar sobre os russos? A literatura salva, liberta e transforma. A história mostra isso. Os russos nos contam.

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